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31/10/2026
11 min

Do Camarote Nº1 à Copa: o plano de Ju Ferraz para ampliar as oportunidades das mulheres

Ju Ferraz reúne 3.000 pessoas neste sábado, 31, em São Paulo, no B.O.D.Y., evento que discute carreira, saúde e dinheiro entre mulheres. Em 2027, vai montar Casa B.O.D.Y durante a Copa do Mundo Feminina que será no Brasil pela primeira vez

Do Camarote Nº1 à Copa: o plano de Ju Ferraz para ampliar as oportunidades das mulheres
RESUMO +

A empresária Ju Ferraz realiza neste sábado, 31 de outubro, a quinta edição do B.O.D.Y. no Hotel Unique, em São Paulo, com expectativa de até 3.000 participantes. Sócia do grupo de eventos Holding Clube, Ju planeja investir de R$ 3 milhões a R$ 5 milhões na Casa B.O.D.Y. durante a Copa do Mundo Feminina de 2027.

Fazer uma empresa gastar milhões para colocar sua marca em um camarote no Carnaval é um negócio que exige bons contatos, capacidade de vender e uma promessa: entregar uma experiência que faça o investimento valer a pena. Mas será que essa mesma fórmula funciona quando o assunto é reunir mulheres para discutir carreira, dinheiro, saúde e futebol?

É nessa aposta que está Ju Ferraz, sócia da Holding Clube, grupo responsável pelo Camarote Nº1, um dos espaços mais conhecidos da Sapucaí. Depois de anos trabalhando com marcas, celebridades e grandes eventos, ela quer fazer do B.O.D.Y., projeto que criou para discutir questões ligadas às mulheres, uma nova fonte de receita para o grupo.

O próximo teste acontece neste sábado, 31 de outubro, quando o Hotel Unique, em São Paulo, recebe a quinta edição do B.O.D.Y. A expectativa é reunir até 3.000 pessoas e mais de 90 palestrantes. Mas o evento deste ano é apenas uma parte do plano. Ju prepara uma estrutura para acompanhar a Copa do Mundo Feminina de 2027, no Brasil, com investimento estimado entre 3 milhões e 5 milhões de reais.

"Trata-se do projeto mais audacioso da história do B.O.D.Y., exatamente porque a pauta da diversidade retrocedeu de forma significativa dentro do ambiente corporativo e nos orçamentos das companhias. Viabilizar o evento atual demandou um esforço de vendas monumental", afirma Ju Ferraz.

A ideia é fazer o B.O.D.Y. deixar de depender de um único evento por ano. Nos próximos três anos, Ju quer criar cursos, publicar livros, lançar um instituto social e levar o projeto para outras regiões e setores da economia. A Copa Feminina será o primeiro grande teste dessa expansão.

O que a Copa do Mundo Feminina tem a ver com esse negócio?

Quando o Brasil receber a Copa do Mundo Feminina, em 2027, Ju Ferraz quer aproveitar a atenção em torno do futebol para colocar outro assunto em campo: os negócios feitos por mulheres.

O plano é montar a Casa B.O.D.Y. no Jockey Club de São Paulo, um espaço que vai misturar transmissão de jogos, shows, debates, encontros de negócios e atividades de saúde e bem-estar.

Pense em um lugar onde uma pessoa possa assistir a uma partida da Seleção Brasileira, participar de uma conversa sobre dinheiro, conhecer uma empreendedora e terminar o dia em um show.

É mais ou menos essa a proposta.

A operação está prevista para funcionar entre 24 de junho e 5 de julho de 2027, com atividades às sextas-feiras, aos sábados e aos domingos, além de datas reservadas para patrocinadores.

O espaço terá três palcos. Um será dedicado a carreira e negócios. Outro vai tratar de saúde física e mental. O terceiro vai discutir como o esporte pode abrir portas para mulheres que buscam oportunidades profissionais e melhores condições de vida.

Haverá também uma área para pequenos negócios comandados por mulheres, além de apresentações musicais depois das partidas.

"A Casa B.O.D.Y. representa a materialização do conceito de que uma mulher impulsiona a outra. Não estamos propondo qualquer tipo de rivalidade, mas sim um ponto de união que reúne desde quem deseja simplesmente assistir aos jogos até empresárias, comunicadoras e atletas que encaram o esporte como um vetor decisivo de transformação socioeconômica", afirma a executiva.

Para Ju, o futebol pode ajudar a atrair um público que talvez nunca tenha participado de um evento sobre liderança feminina. Ao mesmo tempo, a Copa oferece às empresas a chance de conversar com consumidoras em um momento de grande atenção ao esporte.

É nessa combinação que ela pretende ganhar dinheiro.

Mas quem vai pagar essa conta?

Montar uma estrutura desse tamanho custa caro. A conta estimada para a Casa B.O.D.Y. vai de 3 milhões a 5 milhões de reais.

Parte do dinheiro deverá vir da venda de ingressos. A outra parte dependerá de patrocinadores dispostos a pagar para aparecer no evento e promover experiências com o público.

As marcas poderão, por exemplo, reservar dias para reunir influenciadoras, executivas e consumidoras em atividades próprias. Empresas como a Dove aparecem entre os exemplos de possíveis ações desse tipo.

O problema é que conseguir esse dinheiro ficou mais difícil.

Durante alguns anos, grandes companhias ampliaram os investimentos em diversidade, inclusão e ESG, sigla em inglês usada para reunir práticas ambientais, sociais e de governança das empresas.

Agora, segundo Ju, muitas dessas verbas estão sendo reduzidas. Isso significa que eventos ligados a causas sociais precisam disputar recursos com outras prioridades das marcas.

E aí aparece uma contradição: enquanto o B.O.D.Y. tenta crescer, parte das empresas que poderiam financiar essa expansão está gastando menos com iniciativas desse tipo.

"No final das contas, sou uma vendedora e uma mulher de negócios. Minha responsabilidade é comprovar o retorno financeiro, a visibilidade e o impacto real que a entrega gera para as marcas patrocinadoras", afirma Ju.

Em outras palavras, defender uma causa pode até abrir a conversa com um patrocinador. Mas, para fechar o contrato, ela precisa mostrar o que a empresa ganha colocando dinheiro no projeto.

Esse é um desafio que Ju conhece bem.

O que o Camarote Nº1 pode ensinar ao B.O.D.Y.?

A Holding Clube tem décadas de experiência em transformar eventos em negócios.

O grupo foi fundado em 1988 por José Victor Oliva e hoje tem Priscila Pellegrini como CEO, além de Ju Ferraz e Marcio Esher entre seus sócios.

Um de seus produtos mais conhecidos é o Camarote Nº1, que funciona durante o Carnaval do Rio de Janeiro.

Só nos três dias de operação, o espaço gera cerca de 30 milhões de reais em receitas por ano, segundo os números apresentados pela companhia.

O dinheiro vem de duas fontes principais: empresas que pagam para associar suas marcas ao camarote e pessoas que compram ingressos para participar da festa.

Entre os patrocinadores estão companhias como Ambev, Diageo e Colcci.

É um modelo que Ju conhece por dentro. Ela participa da operação do camarote e da relação com grandes clientes do grupo, além de trabalhar com eventos como o Rock in Rio.

A Holding Clube encerrou 2024 com faturamento de 375 milhões de reais e projetou chegar a 430 milhões de reais em 2025, um crescimento de cerca de 15%.

A meta foi estabelecida sob a gestão de Priscila Pellegrini, que assumiu formalmente o cargo de CEO. Para sustentar o crescimento, o grupo passou a apostar em diferentes fontes de receita, além dos eventos que já fazem parte de seu calendário.

Entre os movimentos está o lançamento da Bossa, unidade voltada a viagens corporativas e de incentivo, aquelas organizadas por empresas para reunir equipes, clientes ou premiar funcionários. A Holding Clube também ampliou a aposta em projetos próprios, ao mesmo tempo que manteve o Camarote Nº1 entre seus principais negócios.

Agora, Ju quer usar essa experiência para vender o B.O.D.Y. a empresas que buscam se aproximar do público feminino.

O projeto também tem uma diferença importante em relação aos eventos que a holding produz para clientes: ele pertence à própria Ju, em sociedade com o grupo.

Isso significa que, se crescer, o B.O.D.Y. poderá gerar receitas recorrentes para a companhia, sem depender apenas de contratos para organizar eventos de outras marcas.

A produção fica com a Storymakers, agência da Holding Clube que também trabalha na estrutura do Camarote Nº1.

A expectativa de Ju é que o B.O.D.Y. passe a representar entre 5% e 10% do faturamento anual da Storymakers a partir de 2027, com uma meta de crescimento de cerca de 8% na receita da agência.

"O B.O.D.Y. é o braço feminino da Holding Clube. Estamos estruturando uma franquia versátil que pode transitar de conferências de conteúdo e feiras de negócios a praças regionais e setores estratégicos como o agronegócio", afirma.

O grupo já seguiu um caminho parecido com o Torcida Nº1, projeto criado durante a Copa do Mundo masculina no Catar, em 2022, e repetido na edição de 2026, para gerar negócios fora do Carnaval.

Agora, a ideia é fazer os eventos conversarem entre si. O B.O.D.Y. pode ganhar espaço dentro do Camarote Nº1, enquanto o Torcida Nº1 pode participar das transmissões da Copa Feminina.

A lógica é aproveitar os contatos, os patrocinadores e a estrutura que a holding já tem para tentar vender mais de um produto aos mesmos clientes.

Antes de virar sócia, Ju Ferraz precisou mudar a própria vida

A história do B.O.D.Y. começou bem antes de Ju pensar em Copa do Mundo ou em uma estrutura de milhões de reais.

Nascida em Salvador e formada em Jornalismo, ela começou a carreira na imprensa baiana.

Aos 23 anos, mudou-se para São Paulo com o marido e um filho recém-nascido. Passou quase dez anos trabalhando na área editorial e de eventos do Glamurama, empresa de Joyce Pascowitch.

Depois, entrou no Banco de Eventos, empresa criada por José Victor Oliva que deu origem à estrutura da atual Holding Clube.

Foi ali que Ju cresceu profissionalmente, passou a trabalhar com grandes marcas e chegou à sociedade do grupo.

Mas, aos 32 anos, a rotina de trabalho cobrou seu preço.

Ju enfrentou um quadro de burnout, condição de esgotamento físico e mental associada ao trabalho. Ao mesmo tempo, lidava com cobranças relacionadas à aparência, ao corpo e à maternidade.

A experiência fez com que começasse a falar sobre esses assuntos nas redes sociais.

A conversa ganhou força e, aos poucos, deixou de ser apenas sobre a relação das mulheres com o próprio corpo. Entraram temas como carreira, dinheiro, saúde mental e oportunidades profissionais.

Em 2022, Ju decidiu levar essas discussões para um encontro presencial. Nascia a primeira edição do B.O.D.Y.

Agora, em 2026, o projeto chega à sua quinta edição com uma estrutura maior e uma proposta de negócios mais definida.

"Há cinco anos assumi o compromisso de transformar vidas por meio de um movimento verdadeiramente inclusivo, concebido por mulheres que recusam permanecer nas caixas impostas pela sociedade", afirma Ju.

Como funciona um evento para 3.000 mulheres?

A edição de 2026 do B.O.D.Y. acontece no Hotel Unique, em São Paulo, com uma programação que mistura assuntos que costumam aparecer separados em congressos de negócios, encontros de saúde e eventos de comportamento.

Haverá conversas sobre maternidade, carreira, pressão estética, canetas emagrecedoras e independência financeira.

São mais de 90 palestrantes distribuídas entre dois palcos, chamados BODY e MOVIMENTO, além de salas de mentoria, onde participantes poderão conversar com executivas e profissionais de diferentes áreas.

A procura por algumas atividades dá uma ideia do interesse do público. As vagas para o Espaço Wellness, dedicado a práticas de bem-estar e autocuidado, acabaram seis minutos depois da abertura das inscrições.

O encontro também terá a segunda edição do Prêmio Preta Gil Para Vozes Que Transformam Gerações, criado para reconhecer mulheres e projetos ligados à defesa de direitos.

Parte dos ingressos será destinada a quem normalmente não teria acesso a um evento desse tipo. Segundo a organização, 30% da carga total de entradas será reservada a organizações não governamentais e instituições que trabalham com jovens aprendizes.

A Copa do Mundo Feminina já estará presente na programação deste ano.

A abertura reunirá Gal Barradas, executiva envolvida na organização do Mundial no Brasil, e as ex-jogadoras Formiga e Daniela Alves, duas referências do futebol feminino brasileiro.

A ideia é começar a aproximar esporte, empresas e público antes de a bola rolar em 2027.

Para Ju, essa conexão também pode ajudar a convencer patrocinadores de que vale a pena investir em experiências voltadas às mulheres.

Oprah como referência

Ju Ferraz tem uma referência quando fala sobre o que pretende construir nos próximos anos: Oprah Winfrey.

A apresentadora americana transformou um programa de televisão em um negócio que passou a reunir mídia, livros, produções audiovisuais e outros projetos.

Ju quer seguir uma lógica parecida com o B.O.D.Y., mantendo a pauta feminina no centro da operação.

O plano inclui cursos de formação, novos livros e a criação de um instituto social próprio.

Ainda em 2026, o projeto pretende publicar um relatório com dados e tendências discutidos durante os eventos. A ideia é transformar o conteúdo dos palcos em informações que também possam ser usadas por empresas.

"Minha meta para os próximos três anos é consolidar uma plataforma contínua e me tornar a 'Oprah do Brasil'. É uma jornada ampla que tem no B.O.D.Y. seu ponto de partida", afirma Ju.

AutorLeo Branco
FonteExame
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