Do clima à geopolítica, agro brasileiro enfrenta uma nova era de riscos
Mudanças climáticas, geopolítica e avanço tecnológico ampliam as incertezas e exigem do agronegócio maior capacidade de antecipar riscos.

A agricultura brasileira, reconhecida pela elevada produtividade e uso de tecnologias de ponta, entrou em uma fase de riscos crescentes, fruto de um ambiente global incerto. Clima, geopolítica, tecnologias digitais como análise de dados e barreiras tarifárias são temas cada vez mais interligados. Para Silvio Crestana, pesquisador da Embrapa Instrumentação e ex-presidente da instituição, o desafio do setor não é apenas responder às crises, mas antecipar os riscos e se preparar para eles.
“Para mim, a palavra atual é risco e não crise. Só chegamos a uma crise quando não soubemos identificar os riscos e nos antecipar a eles. A partir desse momento é sobrevivência e, quando há capacidade de aprendizado, também é olhar para o futuro aprendendo a mapear riscos e se prevenir”, afirmou Crestana durante sua participação no SuperAgro 2026, evento promovido pela Exame para debater os desafios e as oportunidades do agronegócio brasileiro.
O conceito ganha importância diante das mudanças nas condições que permitiram a expansão da agricultura brasileira nas últimas décadas. O ex-presidente da Embrapa lembra que, durante cerca de 40 anos, uma combinação de clima favorável, avanço tecnológico e expansão da produção criou condições relativamente previsíveis para o desenvolvimento do agronegócio, citando especialmente o Centro-Oeste. “Queríamos plantar, o clima ajudava, os avanços tecnológicos davam certo. O clima naquela região era um reloginho. Estas condições não se mantêm mais”, disse Crestana, acrescentando que a própria natureza da atividade agrícola é de risco, porém agora com novos elementos.
No conjunto de mudanças que elevam os riscos para a agricultura, citado no painel do evento conduzido pelo editor de Macroeconomia da Exame, Luciano Pádua, as tecnologias digitais ganharam um capítulo à parte. Até mesmo a Inteligência Artificial (IA), que costuma ser apresentada como uma oportunidade, pode, na visão de Crestana, representar uma ameaça para quem não acompanhar sua evolução.
Na visão do ex-presidente da Embrapa, contudo, a grande revolução não está apenas no uso da IA, mas na capacidade da agricultura de coletar dados diferentes e, aparentemente desconexos, integrá-los e transformá-los em informações capazes de orientar decisões mais assertivas. Um dos exemplos citados por Crestana são os gêmeos digitais (digital twins), que criam uma representação virtual da propriedade ou da produção agrícola e permitem simular diferentes condições antes que mudanças sejam feitas no campo.
“O ponto central, porém, não é simplesmente acumular dados. É conseguir cruzar informações de diferentes origens e transformá-las em conhecimento útil. A sacada que gera competitividade maior ou menor é a integração de todas as informações. Risco geopolítico, de clima, está tudo junto, é sistêmico”, disse Crestana.
Dados e soberania
A crescente digitalização da agricultura também cria uma nova dimensão de competição entre países. Crestana citou movimentos de Estados Unidos e da China para desenvolver fazendas digitais e ampliar a capacidade de coleta e processamento de informações sobre a produção agrícola.
Para ele, o domínio dos dados pode se tornar um elemento de soberania. Informações sobre solo, água, plantas, clima e produtividade podem ser cruzadas com dados de mercado e de geopolítica, permitindo antecipar movimentos e melhorar a tomada de decisões.
A China, segundo Crestana, vem avançando nessa direção e busca aumentar sua eficiência agrícola e reduzir a dependência de grandes produtores internacionais como o Brasil, o que, na visão do pesquisador, pode representar uma ameaça às exportações brasileiras no longo prazo. “O que temos de bom é fazermos agricultura tropical. Somos nós. Aí temos valor.” Segundo Crestana, o risco é o Brasil perder essa vantagem caso não desenvolva capacidade própria de coletar, organizar e interpretar os dados gerados no campo.
