Do leite à batata: por que os agricultores estão colhendo de madrugada
Calor extremo muda rotina no campo, derruba safras e já provoca perdas bilionárias na agricultura europeia

A onda de calor que afeta a Europa mudou a rotina dos agricultores. Se antes colher durante o dia era o padrão, agora, em algumas regiões, a estratégia é realizar o trabalho de madrugada.
Segundo o jornal britânico Financial Times, agricultores do Reino Unido estão indo aos campos às duas da manhã para colher colza, cultivada principalmente por suas sementes ricas em óleo.
A estratégia é aproveitar o orvalho da madrugada. A umidade noturna permite elevar o teor de umidade dos grãos para aproximadamente 7%, acima do mínimo de 6% exigido pelos compradores.
A rotina parece excepcional, mas começa a se repetir pelo continente, diz o jornal. Na Espanha, produtores de batata colhem depois do pôr do sol para evitar que o solo quente prejudique os tubérculos.
No sul da Itália, agricultores esperam a temperatura cair para colher grão-de-bico. Criadores de animais antecipam ou atrasam a alimentação, enquanto fazendas instalam ventiladores e sistemas de nebulização para manter vacas, porcos e aves em temperaturas mais adequadas.
O que está mudando, porém, não é apenas o relógio dos agricultores. O calor coloca em xeque calendários de plantio e colheita aperfeiçoados ao longo de décadas — e a conta já aparece na produção.
A onda de calor que atingiu a Europa em junho provocou perdas estimadas em 2 bilhões de euros na safra de grãos e retirou quase 9 milhões de toneladas das projeções de produção da União Europeia e do Reino Unido, segundo estimativas da Coceral, associação do comércio europeu de grãos, e da Energy and Climate Intelligence Unit (ECIU).
O prejuízo equivale a cerca de 5% do valor projetado para a safra de grãos de 2026 e considera culturas como trigo, milho, cevada e aveia. A conta não inclui perdas em hortaliças nem na pecuária, o que indica que o impacto total sobre o campo pode ser ainda maior.
O prejuízo do calor
O milho está entre as culturas mais afetadas. A projeção para a produção daUnião Europeia e do Reino Unido foi reduzida de 57,2 milhões para 52,7 milhões de toneladas. A onda de calor atingiu as lavouras durante a polinização, principalmente na França e na Hungria.
Na França, o problema ganhou nova dimensão. O Ministério da Agricultura estima que a produção de milho em grão recue 35% em relação ao ano anterior, para 9 milhões de toneladas, o menor volume desde pelo menos 1980, diante do calor e da seca.
O trigo também sofreu durante o enchimento dos grãos. Apenas na França, a previsão para a produção total de cereais foi reduzida em 4,1 milhões de toneladas, perda equivalente a aproximadamente € 891 milhões pelos preços considerados nas estimativas.
O calor também chegou às batatas. Em Castela e Leão, principal região produtora da Espanha, temperaturas superiores a 30°C interromperam o desenvolvimento das plantas e limitaram o crescimento dos tubérculos. A produtividade pode cair entre 10% e 15%, segundo informações da FreshPlaza.
Para os produtores, porém, colher menos é apenas parte do problema. O clima extremo também aumenta o custo necessário para produzir cada tonelada.
No Reino Unido, a seca reduziu a produção para aproximadamente metade do volume do ano anterior, segundo relato do Financial Times. Com isso, o custo de uma tonelada de grãos passou de cerca de 150 libras em um ano considerado bom para perto de 200 libras.
O trabalho noturno também virou uma forma de evitar incêndios. Com a vegetação extremamente seca, máquinas agrícolas podem gerar faíscas e iniciar o fogo. A família passou a levar caminhões-pipa para o campo e manter equipamentos preparados para abrir barreiras contra as chamas.
Na pecuária, adaptar-se também custa caro. Na Itália, produtores instalaram ventiladores e sistemas de nebulização nos estábulos para aliviar o estresse térmico. Em algumas propriedades, a produção de leite chegou a cair 20%, segundo a Coldiretti, principal associação de agricultores do país.
A dimensão do problema vai além da atual onda de calor. Pesquisa realizada pela corretora de seguros Howden para o Banco Europeu de Investimento estima que eventos climáticos provoquem cerca de 28 bilhões de euros em perdas agrícolas por ano na União Europeia, grande parte sem cobertura de seguros. Até 2050, as perdas médias anuais podem chegar a 40 bilhões de euros.
Há ainda um efeito menos visível: a qualidade. O calor pode reduzir, por exemplo, o teor de proteína dos grãos, obrigando agricultores a vender a produção para mercados que pagam menos.
