Do limite do cartão à venda de R$ 150 mi: o combustível para Nave decolar
Cinco anos após vender a Rocketseat, criada em Rio do Sul (SC), os empreendedores lançam a Nave, nova aposta em tecnologia com ambições que ultrapassam as fronteiras brasileiras

O capital inicial foi o limite de um cartão de crédito. Quatro anos depois, a empresa criada em Rio do Sul, no Alto Vale do Itajaí, em Santa Catarina, protagonizava uma operação de R$ 150 milhões.
Para muitos empreendedores, seria a consagração de uma carreira. Para Robson Marques e Cleiton Souza, no entanto, a venda da Rocketseat para a argentina Digital House, em 2021, estava longe de representar o ponto final. Cinco anos depois, os dois estão novamente à frente de um negócio, desta vez com uma ambição que ultrapassa as fronteiras brasileiras.
A nova aposta é a Nave, empresa de tecnologia fundada em parceria com Isabela Castilho, executiva que também integrou a liderança da Rocketseat. A companhia pretende conquistar 2 mil clientes até novembro de 2027, alcançar R$ 48 milhões em receita recorrente anualizada e desembarcar nos Estados Unidos ainda no próximo ano.
A história começou em 2017, quando Robson e Cleiton se uniram a Diego Fernandes para criar uma plataforma de formação de desenvolvedores de software. Sem investidores externos, a Rocketseat cresceu, chegou a reunir cerca de 100 profissionais e chamou a atenção da Digital House. A negociação, que envolveu dinheiro e troca de ações, marcou a trajetória de uma empresa nascida no interior catarinense e que hoje informa reunir uma comunidade de mais de 1 milhão de desenvolvedores.
Depois da transação, Robson passou a atuar como consultor, acompanhando os desafios de crescimento de outras empresas. A experiência ajudou a identificar uma contradição do mundo corporativo: enquanto a tecnologia avançava em velocidade inédita, boa parte dos negócios continuava excessivamente dependente de seus gestores para executar tarefas, organizar processos e tomar decisões operacionais. Foi dessa percepção que surgiu a oportunidade de empreender novamente.
Se na Rocketseat o negócio era ensinar pessoas a desenvolver tecnologia, na Nave a proposta é fazer com que ela execute parte do trabalho. A plataforma utiliza agentes de inteligência artificial capazes de assumir atividades em áreas como vendas, marketing, atendimento, finanças e recursos humanos. A diferença está na possibilidade de executar processos completos, e não apenas responder a comandos isolados.
"Aquilo que sabíamos sobre tecnologia e gestão ficou obsoleto. A IA já está dentro das empresas, mas quase nenhuma mudou a forma como funciona", afirma Isabela Castilho, CTO da Nave.
Transformar IA em ganho real
O público-alvo são empresas de médio e grande porte, especialmente aquelas que faturam acima de R$ 100 mil por mês e ainda dependem diretamente de seus proprietários para crescer. Com mensalidade média prevista de R$ 2 mil, a Nave projeta alcançar uma receita recorrente de R$ 4 milhões mensais, caso conquiste a base de clientes estabelecida como meta. O desafio é transformar a proposta em um negócio de escala.
Um dos primeiros casos apresentados pela startup ajuda a dimensionar esse potencial. Na Simplifique Finanças, os agentes de inteligência artificial analisaram 43,7 mil conversas e 214 horas de áudio em 60 dias de operação. No mesmo período, o faturamento mensal da empresa saltou de R$ 63 mil para R$ 652 mil, um volume mais de dez vezes superior ao inicial. As vendas avançaram 79%, enquanto os contatos abandonados recuaram 88%, segundo dados fornecidos pelas companhias.
Embora expressivos, os resultados não permitem atribuir todo o crescimento exclusivamente à implementação da tecnologia, sem uma avaliação independente. Para Helder Johnes, CEO da Simplifique Finanças, a mudança também alterou sua rotina como gestor. "A IA gerencia o time e eu lidero para o crescimento", resume.
O caso ilustra a oportunidade identificada pelos fundadores: transformar a presença cada vez maior da inteligência artificial nas empresas em ganhos concretos de produtividade, eficiência e receita. Mais do que oferecer uma nova ferramenta, a Nave pretende participar de uma mudança na forma como os negócios são administrados.
Mas existe outra semelhança entre a nova companhia e a trajetória iniciada em Santa Catarina: a decisão de crescer sem investidores externos. Mesmo depois de participar de uma negociação milionária, os empreendedores optaram por repetir o modelo de expansão financiada pelas receitas geradas pelos próprios clientes.
"Na Rocketseat, crescemos sem investidores, operando apenas com a receita dos clientes até o exit. E decidimos repetir a mesma trilha com a Nave, só que agora num mercado muito maior e usando IA para otimizar os resultados", afirma Robson Marques, CEO da Nave.
Fundada em 2026, e com sede em São Paulo, a Nave tem seu lançamento comercial previsto para este mês. O planejamento inclui validar o modelo no Brasil antes de iniciar a expansão pelos Estados Unidos em 2027."A origem é interior de SC, a ambição é global", resume Robson.
