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Mundo
16/10/2026
6 min

Do lixo às terras raras: China recicla componentes para garantir minerais críticos

Pequim quer ampliar o reaproveitamento de metais usados em baterias e tecnologias limpas para reduzir a dependência de importações e preservar sua vantagem industrial diante das restrições ocidentais

Do lixo às terras raras: China recicla componentes para garantir minerais críticos
RESUMO +

A China apresentou em julho um plano para ampliar a reciclagem de baterias e outros materiais, reduzir a dependência de minerais importados e proteger setores como veículos elétricos e energia limpa. A meta do governo é fornecer 510 milhões de toneladas anuais de materiais industriais reciclados até 2030, cerca de um terço acima do volume atual.

A China está ampliando sua indústria de reciclagem para garantir o acesso a matérias-primas essenciais à produção de veículos elétricos, baterias e equipamentos de energia limpa. A estratégia, segundo a revista britânica The Economist, busca reduzir a dependência de minerais importados e proteger a indústria tecnológica chinesa em meio à disputa geopolítica com os Estados Unidos e a Europa, que também buscam reduzir sua dependência das cadeias produtivas do país asiático.

Em 12 de outubro, a União Europeia anunciou que pretende impor, a partir de dezembro, uma cota anual de 350 mil veículos híbridos e elétricos importados da China, com o objetivo de manter a participação desses modelos no mercado europeu abaixo de 10%.

O bloco também quer restringir a exportação de resíduos de baterias, conhecidos como black mass (massa negra), um pó obtido pela fragmentação desses equipamentos, a partir do qual se recuperam metais como lítio, cobalto e níquel. A medida visa estimular o processamento do material na Europa, já que boa parte dele é atualmente enviada para a Ásia.

Os Estados Unidos também impuseram restrições ao comércio desse resíduo. As iniciativas refletem a crescente importância dos materiais reciclados para a segurança econômica e industrial. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), o reaproveitamento de baterias poderá atender de 20% a 30% da demanda global por metais utilizados nesses equipamentos até 2050.

A China parte de uma posição privilegiada nessa disputa: o país concentra cerca de 85% da capacidade mundial de reciclagem de baterias. A expansão do setor faz parte de uma estratégia para transformar a economia linear, baseada na extração de recursos e no descarte de produtos, em uma economia circular, na qual os materiais utilizados retornam à cadeia produtiva.

A mudança de prioridade reflete as ambições industriais de Pequim. O país quer manter sua liderança em setores como robótica, veículos elétricos e energia renovável, que exigem grandes quantidades de cobre, alumínio, terras raras e metais para baterias. Embora domine boa parte da capacidade mundial de refino de diversos desses materiais, a China ainda depende de importações para obter grande parte dos minérios utilizados em suas fábricas. Com os países ocidentais buscando alternativas aos fornecedores chineses, as autoridades temem que o abastecimento seja prejudicado por futuras restrições comerciais.

Desafios para ampliar a reciclagem

Reciclagem de latinhas em eventos

Reciclagem: China é pioneira global na área, e consegue minerais críticos reciclando baterias de carros elétricos, outro setor que lidera mundialmente (Novelis/Shutterstock)

A política chinesa de reaproveitamento de resíduos ganhou força em 2013, quando o governo lançou um plano nacional para desenvolver a economia circular em meio à pressão contra a poluição.

Em 2017, a chamada Operação Espada Nacional restringiu a importação de grande parte dos resíduos plásticos; em 2021, Pequim proibiu a entrada de resíduos sólidos provenientes do exterior. Paralelamente, o país ampliou as instalações para tratar o lixo eletrônico e passou a exigir a separação do lixo doméstico em diversas cidades.

Agora, o objetivo é transformar essa experiência em uma vantagem estratégica. O plano apresentado pelo governo em julho estabelece a meta de fornecer 510 milhões de toneladas anuais de materiais industriais reciclados até 2030, o que representa um aumento de aproximadamente um terço em relação ao volume atual. A reciclagem de aço, cobre e alumínio deve ser a etapa mais simples, por se apoiar em setores já consolidados. O processamento de plástico também pode ajudar a reduzir a necessidade de importar petróleo.

O maior desafio será lidar com o aumento dos resíduos de tecnologias limpas. Até 2030, a China prevê gerar, anualmente, 500 mil toneladas de resíduos de turbinas eólicas, 1 milhão de toneladas de baterias de veículos elétricos e entre 1,5 e 2 milhões de toneladas de painéis solares descartados. Esses equipamentos contêm materiais valiosos, mas sua recuperação pode ser cara e tecnicamente difícil, especialmente quando estão instalados em áreas remotas.

A escala industrial chinesa, contudo, oferece vantagens. Fabricantes podem adaptar os produtos para facilitar sua desmontagem, e as técnicas empregadas na produção de baterias também podem ser aplicadas à reciclagem. A CATL, maior fabricante mundial de baterias, por exemplo, tem ligação com a Brunp, sua subsidiária de reciclagem, líder global no segmento. A integração entre fabricantes e recicladoras ajuda a fortalecer a cadeia doméstica de reaproveitamento.

Ainda existem gargalos: parte das baterias usadas acaba nas mãos de comerciantes informais de sucata ou é descartada irregularmente, o que reduz a recuperação de materiais e deixa instalações industriais ociosas. Para enfrentar o problema, o governo criou, em 2024, a estatal China Resources Recycling Group, destinada a coordenar o setor. Também passou a exigir identificadores digitais para baterias e veículos elétricos, permitindo acompanhar seus produtos ao longo do ciclo de vida, e responsabilizou legalmente os fabricantes pela reciclagem das baterias que produzem.

Disputa internacional por resíduos

A reciclagem já responde por 10% do abastecimento chinês de terras raras, segundo o governo, mas o processo ainda custa mais do que a extração de matérias-primas virgens. Mesmo assim, empresas estatais podem manter investimentos que não apresentem retorno econômico imediato, o que favorece a expansão da capacidade chinesa.

Pequim também voltou a flexibilizar seletivamente a entrada de resíduos estrangeiros. Em 2024, facilitou importações de determinados tipos de cobre e alumínio reciclados; em 2025, permitiu novamente a entrada de black mass e, em janeiro, reduziu de 6,5% para 3% as tarifas sobre esse material. O governo prometeu ampliar as importações de reciclados de alta qualidade nos próximos cinco anos.

A reabertura ocorre quando os Estados Unidos e a Europa tentam reter materiais estratégicos e desenvolver estruturas próprias de processamento. Para Zhang Yuping, vice-gerente-geral da recicladora chinesa GEM, ouvido pela Economist, reproduzir a capacidade industrial do gigante asiático será difícil e caro para os europeus, mesmo diante das justificativas de segurança nacional.

A disputa mostra que a competitividade tecnológica dependerá não apenas do acesso a minerais, mas também da capacidade de recuperá-los e reutilizá-los. Para a China, a reciclagem representa uma forma de reduzir a vulnerabilidade externa e preservar sua influência nas cadeias globais de produção.

AutorMatheus Gonçalves
FonteExame
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