Do Mounjaro ao Ozivy: a mega-operação da RD para manter liderança nas canetas

Antes de as versões brasileiras das canetas emagrecedoras chegarem às gôndolas, a RD Saúde já se preparava para uma possível disparada na demanda. No último balanço, o grupo por trás das farmácias Raia e Drogasil anunciou que pretende abrir um novo centro de distribuição por ano para abastecer sua rede — que cresce ao ritmo de quase uma nova farmácia por dia.
Nesta quarta-feira, 3, a companhia inaugurou em Itupeva, a cerca de 80 km de São Paulo, um novo centro de distribuição com a maior câmara refrigerada entre os 16 CDs do grupo.
E não é só isso. "Seguramente, entre as redes de farmácia, estamos com a maior câmara de refrigeração do Brasil aqui", afirma Renato Raduan, CEO da RD Saúde, à EXAME.
As canetas à base de GLP-1, usadas no tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade, exigem uma cadeia logística própria, com controle de temperatura do centro de distribuição até a farmácia.
Segundo a companhia, esses medicamentos já representam mais de 10% do faturamento da rede. A estrutura foi dimensionada considerando não apenas a demanda atual por marcas como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, mas também a chegada de alternativas mais acessíveis, incluindo versões nacionais e similares, que devem ampliar o volume de vendas nos próximos anos.
Para a RD, a escala ajuda a capturar uma fatia desproporcional desse mercado. A companhia também usa a infraestrutura para reforçar a garantia de origem ao consumidor, assegurando que o medicamento passou por uma cadeia logística controlada e chegou à loja dentro das condições exigidas.
A refrigeração virou uma vantagem competitiva no varejo farmacêutico. "Fazer a logística e servir as canetas exige um investimento muito maior. Não são todas as farmácias do país que têm capacidade de investir em uma câmara fria como a nossa. Também não são todas que conseguem ter uma logística de transporte refrigerado. Operar com as canetas exige um alto investimento", afirma Raduan.
Embora a rede detenha cerca de 19,6% do mercado farmacêutico nacional, sua participação no segmento de medicamentos à base de GLP-1 é significativamente maior.
O market share da RD nesse nicho é entre 50% e 60% superior à sua participação média no varejo farmacêutico. A expectativa é que a liderança seja preservada mesmo com a chegada de versões nacionais e mais baratas.
A companhia reconhece que a entrada de novos concorrentes pode provocar alguma diluição de participação de mercado, mas acredita que a escala da operação continuará funcionando como diferencial competitivo.
A popularização das canetas, porém, tende a expandir o mercado como um todo. A avaliação da empresa é que muitos consumidores que hoje não conseguem arcar com os preços elevados desses tratamentos devem migrar para versões mais acessíveis, ampliando o volume total de vendas no setor.
O impacto já aparece nos resultados. Os medicamentos à base de GLP-1, além de responderem por mais de 10% do faturamento da RD, foram um dos principais vetores do crescimento de 29,3% registrado na categoria de medicamentos de marca no primeiro trimestre de 2026.
Apesar de pressionarem a margem bruta percentual, as canetas geram uma massa de lucro relevante devido ao seu elevado valor unitário. Em outras palavras, a rentabilidade percentual é menor, mas o ganho em reais por produto vendido costuma superar o de boa parte do portfólio tradicional.
Gerador de tráfego
O crescimento acelerado desse segmento também trouxe efeitos sobre o capital de giro da companhia. Como se trata de itens de alto valor e forte demanda, a RD precisou ampliar estoques e reforçar investimentos em logística, movimento que consumiu recursos e limitou temporariamente a redução da alavancagem financeira.
Há ainda um efeito indireto. Segundo a companhia, as canetas funcionam como um importante gerador de tráfego para as lojas.
Pacientes que iniciam tratamentos de longo prazo costumam aumentar o consumo de outras categorias, como vitaminas, suplementos proteicos, produtos de cuidados pessoais e dermocosméticos. Isso amplia o tíquete médio e fortalece o relacionamento com a rede.
Um CD por ano, uma loja por dia
O empreendimento de Itupeva foi desenvolvido em parceria com o Pátria Investimentos, por meio do fundo imobiliário Pátria Log (HGLG11). Segundo especialistas de fundos imobiliários consultados pela EXAME, o segmento de bem-estar, incluindo farmácias, segue emtrajetória de alta entre os ocupantes de imóveis comerciais, mesmo com a Selic próxima de 15%.
O novo galpão integra um ciclo recente de investimentos da varejista em logística. Cada centro de distribuição construído sob medida demanda entre R$ 90 milhões e R$ 150 milhões, dependendo da localização e do tamanho do projeto. A unidade de Itupeva consumiu cerca de R$ 90 milhões.
Uma planta logística da RD Saúde costuma ser dimensionada para abastecer entre 250 e 350 lojas.
A unidade paulista faz parte de um pacote de investimentos de R$ 250 milhões que inclui ainda o centro de distribuição de Viana, no Espírito Santo —o primeiro totalmente robotizado da companhia — e uma nova operação em Londrina, prevista para entrar em funcionamento no início de 2027 e aliviar a capacidade da unidade de Curitiba.
Com cerca de 25 mil metros quadrados, o centro de distribuição de Itupeva poderá armazenar até 28 milhões de medicamentos e movimentar aproximadamente 420 mil itens por dia quando atingir plena maturidade operacional.
A expansão logística acompanha o ritmo de crescimento da rede. A RD Saúde mantém a meta de abrir cerca de 350 novas farmácias por ano, sem previsão de revisão.
"A grande discussão é: que horas vão acabar as esquinas?", brinca Raduan.
Hoje, a companhia está presente em 674 municípios brasileiros e soma 3.614 lojas. O estado de São Paulo concentra aproximadamente 1.400 unidades e responde por cerca de 34% do mercado da rede. Com Itupeva, passa a ser atendido por quatro centros de distribuição.
Em 2025, a empresa inaugurou 330 novas lojas. Apenas no primeiro trimestre deste ano, foram abertas mais 68 unidades, reforçando a necessidade de ampliar continuamente a capacidade logística para acompanhar o crescimento da operação.
