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EmpresasACS
25/08/2026
12 min

Do PABX aos drones com reconhecimento facial: como a Intelbras (INTB3) se reinventou e hoje usa a IA para ir além das câmeras de segurança

O Seu Dinheiro visitou a sede da Intelbras em Santa Catarina para conhecer a operação e os produtos mais recentes da empresa de 50 anos, de drones que lançam boias salva-vidas em afogamentos a câmeras que monitoram as gôndolas favoritas dos clientes nos mercados

Do PABX aos drones com reconhecimento facial: como a Intelbras (INTB3) se reinventou e hoje usa a IA para ir além das câmeras de segurança

Esqueça as centrais de PABX do passado ou as câmeras de segurança que só gravam e nada mais. Aos 50 anos, a Intelbras (INTB3) quer ser reconhecida como uma empresa de soluções em inteligência artificial, gestão em nuvem e infraestrutura pesada.

O balanço do segundo trimestre de 2026 — que trouxe um salto de 16,1% no lucro e margens acima do esperado — é só o retrato mais recente de uma companhia que busca liderar o mercado nacional na era das novas tecnologias.

A própria sede da Intelbras às margens da BR-101 em São José, ao lado da capital Florianópolis (SC), é um laboratório vivo das soluções que a empresa já oferece.

As câmeras estão em todos os cantos. Elas leem placas de veículos, permitem acessos com reconhecimento facial e monitoram muros com cercamento digital. Fazem até a contagem e a análise comportamental nos refeitórios e auditórios, com direito a mapas de calor sobre o fluxo de pessoas.

Em uma das salas de reunião na matriz (sem câmeras!), o vice-presidente de B2B, Paulo Daniel Correa, explicou ao Seu Dinheiro que a empresa já usa IA há anos. Segundo ele, esse movimento só tende a aumentar. “Eu brinco que nossas câmeras fazem N coisas. Inclusive segurança”, se diverte.

O executivo destaca que a gigante catarinense tem investido cada vez mais em soluções de software e cloud (nuvem), aplicativos e uma gama de tecnologias embarcadas. “O produto fica quase em segundo plano”, conta, “porque quem entrega uma experiência muito maior é o software na mão do nosso cliente.”

“Essa é uma evolução que a gente já vem fazendo há alguns anos, derivada do objetivo de nos tornarmos uma empresa de soluções nos eixos de segurança, conectividade e energia.”

Sede da Intelbras em São José, Santa Catarina
Sede da Intelbras em São José, Santa Catarina. Imagem: Divulgação.

Revisão de prioridades e lançamentos

Entre as novidades anunciadas pela empresa estão linhas de câmeras VIPW (VIP + Wi-Fi) com recursos de Inteligência Artificial nativos, imagens coloridas mesmo no escuro e integração com softwares de segurança e centrais de alarme.

Já a nova geração de gravadores iNVDs e iNVUs permitirá a busca de imagens por texto. Basta digitar “pessoa com capacete” ou “mulher de camisa amarela” que o sistema apresenta os resultados.

No segmento de conectividade, a empresa abriu mão de volumes de baixo retorno para sanear o mix de produtos. Como resultado, o setor subiu 7% e hoje responde por 25% da receita operacional da empresa. Entre as novas fronteiras estão projetos de infraestrutura 5G para indústrias, agronegócio e cidades inteligentes.

E em energia, segmento que responde por 15% da receita operacional líquida atual, a empresa enxugou a venda de kits solares residenciais para focar em projetos mais rentáveis, incluindo a minigeração em usinas, carregadores para veículos elétricos e nobreaks de alta performance para o mercado corporativo.

Inovação e IA

No HUB Intelbras Experience, bem no coração da matriz da empresa, é possível ver toda essa tecnologia em prática. Da sala de reuniões, Paulo nos leva para esse espaço que lembra ao mesmo tempo um showroom e uma sala de monitoramento.

Nos telões do HUB foi possível observar imagens em tempo real da Pedra Branca, bairro planejado em Palhoça, na Grande Florianópolis, e perceber as câmeras trabalhando sozinhas. Elas se movimentavam em diferentes ângulos, acompanhando o fluxo de carros e pessoas.

Em um grande monitor tátil, o executivo apresenta as diferentes soluções da Intelbras para cidades inteligentes em diferentes aplicações, como obras, bancos, trânsito viário e iluminação pública.

Interior da sede da Intelbras em Santa Catarina
Interior da sede da Intelbras em Santa Catarina: HUB Intelbras Experience. Imagem: Felipe Seffrin/Seu Dinheiro

Mais ao lado, em um pedestal, está um drone DJI de última geração. “Nós somos os únicos parceiros da DJI no segmento Enterprise no Brasil”, diz Paulo. A Intelbras atua como distribuidora da gigante chinesa no país, integrando drones corporativos com softwares de monitoramento e IA própria, o Intelbras Defense IA.

Ao longo do passeio, o vice-presidente de B2B conta como o portfólio da empresa evoluiu ao longo dos anos, destacando que os drones já conseguem fazer rondas, identificar ocorrências, ligar sirenes e até jogar boias em caso de afogamento no mar.

Drone da DJI distribuído no Brasil pela Intelbras
Drone da DJI distribuído no Brasil pela Intelbras. Imagem: Felipe Seffrin/Seu Dinheiro

Mas é no segmento de câmeras que a evolução impressiona. Pense no corredor de um supermercado. Antes, as câmeras de segurança faziam apenas o monitoramento em tempo real daquela área.

Agora, os sistemas da Intelbras fornecem relatórios que identificam os clientes e até suas expressões faciais ao observar uma prateleira de molhos de tomate.

“Com a IA eu consigo, por exemplo, fazer a contagem de pessoas na loja, entender o perfil dos consumidores, a faixa etária e o gênero”, detalha Paulo. “Consigo fazer análise de zonas de calor para entender qual gôndola tem mais aglomeração e em qual horário. Consigo conferir em tempo real qual prateleira precisa de reposição e como as pessoas reagiram a uma determinada promoção.”

Ou seja, além de oferecer serviços de monitoramento eletrônico, a tecnologia embarcada nos produtos permite que os clientes, em diferentes segmentos, tenham acesso a informações que podem gerar ganhos operacionais reais, seja no aumento de vendas ou na redução de custos.

“Se uma empresa quer fazer um anúncio para um público-alvo específico no Aeroporto de Guarulhos, por exemplo, homens de 30 a 40 anos, nós sabemos exatamente perto de qual portão ela deve colocar aquela mídia.”

Os sistemas conseguem identificar quanto tempo as pessoas olharam para a mídia, se sorriram ou franziram a testa. “A gente está criando um valor que vai além do monitoramento.”

Core em Segurança

A atuação em segurança eletrônica e controle de acesso é o pilar principal da Intelbras, correspondendo a 60% da receita operacional (R$ 690,47 milhões no 2T26).

A companhia domina o mercado nacional de sistemas de câmeras de monitoramento (CFTV), alarmes, sensores e controle de acesso (biometria e reconhecimento facial).

A empresa catarinense atende a diferentes segmentos, do cliente que quer mais segurança em sua casa ao monitoramento de grandes eventos, como jogos de futebol e shows internacionais.

A Intelbras forneceu, por exemplo, toda a tecnologia de monitoramento de imagem e inteligência artificial para a segurança do show da Madonna em Copacabana (2024), transmitindo dados em tempo real para a Polícia Militar fluminense (PMERJ).

A companhia também está presente nos principais estádios do país e atua na segurança da Oktoberfest de Blumenau. As soluções incluem a contagem e controle de público em tempo real, reconhecimento facial nos acessos, monitoramento por drones e identificação de foragidos.

“Nós temos soluções que vão desde a segurança para uma residência, como uma câmera ou um alarme, até sistemas inteiros para grandes empresas e cidades inteligentes”, ressalta Paulo Correa. Diferentes produtos, como câmeras, radares semafóricos, cancelas e lâmpadas inteligentes compõem o portfólio da empresa.

Mas o diferencial, ressaltado pelo executivo, está no ecossistema robusto de softwares que conecta esses diferentes produtos. “Com todos esses sensores espalhados pela cidade, conseguimos processar informações e orientar a tomada de decisão com muito mais velocidade.”

Os sistemas são capazes de acompanhar em tempo real ocorrências como furtos, assaltos ou roubos de veículos.

“Assim a gente ajuda a reduzir drasticamente o número de ocorrências e a aumentar a recuperação dos ativos”, diz. “Nosso objetivo é tornar a vida das pessoas mais segura e o ambiente melhor de se viver.”

Paulo Daniel Correa, vice-presidente de B2B da Intelbras
Paulo Daniel Correa, vice-presidente de B2B da Intelbras. Imagem: Felipe Seffrin/Seu Dinheiro

Resultados da Intelbras no 2T26

A Intelbras provou no segundo trimestre de 2026 que a máxima "menos é mais" pode ser altamente lucrativa. A companhia viu sua receita recuar 7,8% frente ao 2T25, mas entregou um salto de 16,1% no lucro líquido, para R$ 158,3 milhões, e margens que surpreenderam os analistas.

Na prática, a companhia vendeu menos em volume, compensando o desempenho com reajustes nos preços e controle de custos. Detalhe: no 2T25, ela registrou R$ 1,246 bilhão, seu maior faturamento histórico para o período, após normalizar as operações impactadas pela transição para um novo sistema de gestão (ERP).

Com uma base de comparação atípica, a receita da companhia caiu para R$ 1,15 bilhão no 2T26, mas o lucro líquido disparou, e o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) cresceu 9,4%, para R$ 168,8 milhões, gerando uma margem de 14,7%. No primeiro semestre como um todo, a receita operacional cresceu 4,2%, chegando a R$ 2,25 bilhões.

“Temos feito um trabalho forte em gestão e governança, voltado para a eficiência dos nossos custos e despesas, e estamos colhendo os frutos disso”, explica Correa, citando como exemplo uma revisão no mix de produtos.

“A gente tem que vender? Tem. Mas temos que ter uma boa margem e uma despesa controlada. Temos que cuidar de vários aspectos. E isso se refletiu nos resultados do último trimestre, a partir do trabalho que fazemos da porta para dentro e também com os nossos parceiros.”

Interior da fábrica da Intelbras em Santa Catarina
Interior da fábrica da Intelbras em Santa Catarina. Imagem: Divulgação

O que dizem os analistas

Essa melhora na rentabilidade da Intelbras no 2T26 foi recebida positivamente pelo mercado, que já especula sobre dividendos extraordinários.

“A companhia está surfando as vantagens de ter repassado o preço recentemente e de ainda estar vendendo um estoque remarcado em um preço inferior ao dos componentes atuais”, explica Maria Clara Briza Infantozzi, analista do Itaú BBA, citando que a margem bruta divulgada “superou as expectativas”.

“A margem Ebitda de 14,7% também surpreendeu, por conta de um trabalho que a companhia tem feito de simplificação de portfólio e de despesas como um todo.”

A analista destaca que este já é o segundo resultado seguido em que a Intelbras apresenta melhorias operacionais, “principalmente de margem”, e que isso tem gerado um “otimismo maior” com o desempenho financeiro da empresa.

Essa disciplina operacional se traduziu em outras métricas que chamaram a atenção do mercado. O Retorno sobre o Capital Investido (ROIC pré-taxa) subiu para 18,8% no acumulado de 12 meses, acompanhado por uma forte geração de fluxo de caixa livre de R$ 274 milhões no trimestre.

Sem perspectivas imediatas de aquisições no radar, “investidores não descartariam que houvesse um dividendo extraordinário ainda este ano, levando em conta essa forte geração de caixa e o fato de que a companhia está conseguindo liberar capital”, projeta Infantozzi.

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A própria Intelbras admite, no comunicado dos resultados do 2T26, que parte do ganho de margem é cíclico e fruto dessa precificação dos produtos a custo de reposição atual. Outra parte advém de ajustes estruturais, como a priorização de categorias mais rentáveis nos segmentos de energia, conectividade e segurança.

Em relatório assinado pelos analistas Osni Carfi, Carlos Sequeira e Victor Neder, o BTG Pactual alerta que “a sustentabilidade do nível atual de margem bruta da empresa permanece uma questão importante”.

O documento também afirma que a receita em segurança, porto seguro da empresa, atingiu R$ 690,5 milhões, valor 3% abaixo da estimativa do banco para o período, “refletindo um ambiente de volume fraco, com receitas deixando de crescer em um trimestre sazonalmente mais forte.”

Ainda assim, o relatório do BTG Pactual reafirma a recomendação de compra para INTB3. “A apenas 7x P/L, continuamos a ver a relação risco-retorno como atraente e reiteramos nossa recomendação de compra ao preço-alvo de R$ 17.”

Outras instituições, como o Banco Safra e o Bank of America (BofA), mantiveram recomendações neutras. Já o Bradesco BBI reforçou a recomendação de compra com preço-alvo de R$ 18 para o fim de 2027.

A ação INTB3 está cotada na faixa de R$ 13,80 atualmente. Ela viu queda de cerca de 30% desde o IPO, mas vem se recuperando desde o início de 2025. No acumulado deste ano, a valorização é de 19%, e, nos últimos 12 meses, a alta é de 14%.

Assim, os preços-alvos dos bancos com recomendação de compra para o papel veem um potencial de alta entre 23% e 30% ante o último fechamento.

Histórico e perspectivas

Fundada em 1976, há exatos 50 anos, a Indústria de Telecomunicação Eletrônica Brasileira – Intelbras evoluiu rapidamente de um galpão de 3 mil m² em São José, na Grande Florianópolis, para um complexo industrial presente em quatro estados.

A empresa possui mais de 5 mil colaboradores e acumula importantes inaugurações nos últimos anos. Em 2023, abriu uma fábrica de cabos ópticos e redes em São José. No ano seguinte, investiu R$ 120 milhões em um novo Centro de Distribuição com 43 mil m² que triplicou sua capacidade de armazenamento.

Em 2021, a gigante catarinense estreou na Bolsa de Valores e captou R$ 1,3 bilhão, o que colocou a empresa entre os maiores IPOs do setor industrial e de tecnologia do período na B3.

Recentemente, a empresa anunciou a aquisição de um terreno de 670 mil m² em Manaus por R$ 19,4 milhões e investimentos de R$ 200 milhões na construção de uma nova fábrica na capital amazonense, com foco em soluções de segurança.

A obra prevista para durar até 2027 já começou. O objetivo é ampliar a capacidade produtiva da empresa justamente no segmento em que ela já domina o mercado.

“Esse movimento amplia a capacidade industrial da companhia e sustenta o horizonte de crescimento definido em seu plano estratégico”, defende a Intelbras.

Para o vice-presidente Paulo Correa, a IA e as novas tecnologias só devem ampliar a presença da Intelbras na rotina dos brasileiros.

“O nosso olhar para os próximos anos é cada vez mais se fortalecer como essa empresa fornecedora de soluções para o dia a dia do nosso consumidor, do pequeno ao grande negócio.”

AutorFelipe Seffrin
FonteSeu Dinheiro
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