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Sacre Investimentos
EXAME AgroCMDT
04/08/2026
4 min

Do recorde à queda: PIB do agro pode recuar 3% com El Niño em 2026

Rabobank vê ciclo 2026/27 mais desafiador após o avanço de 11,7% do setor no ano passado

Do recorde à queda: PIB do agro pode recuar 3% com El Niño em 2026

Depois de uma temporada marcada por resultados recordes, o agronegócio brasileiro entra no ciclo 2026/27 diante de um cenário menos favorável. O Rabobank, banco holandês especializado em agronegócio e alimentos, estima que o PIB agrícola recue 3% em 2026, após avançar 11,7% no ano anterior.

A projeção reflete uma combinação de juros ainda elevados, menor disponibilidade de crédito subsidiado, risco de um El Niño forte no fim do ano e maior instabilidade geopolítica.

Para Maurício Une, economista-chefe para a América do Sul do Rabobank, o conjunto desses fatores torna o atual ciclo um dos mais desafiadores dos últimos anos.“Não esperamos um crescimento da safra como o observado na temporada passada”, afirmou.

Entre os principais fatores de preocupação está a possibilidade de um El Niño forte no último trimestre do ano. Segundo Une, há uma probabilidade de 50% de ocorrência de um fenômeno intenso em outubro, período de colheita em alguns estados.

“Há um desafio relacionado ao El Niño para o fim deste ano, uma vez que existe a probabilidade de 50% de um fenômeno forte para outubro”, disse.

Nesta segunda-feira, 3, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) projetou que o El Niño deve persistir pelo menos até o início de 2027. O boletim do Inmet aponta que 81% de probabilidade de que o evento atinja intensidade muito forte nesse período.

O cenário climático mais adverso se soma a um ambiente de menor apoio financeiro ao produtor. Na avaliação do economista, o Plano Safra apresentou crescimento limitado, ao mesmo tempo em que houve redução dos recursos destinados à equalização de juros.

A equalização permite que o governo cubra parte dos encargos financeiros das linhas de crédito rural. Com menos recursos disponíveis e juros ainda elevados, o custo dos financiamentos tende a continuar pressionando produtores e empresas do setor.

A projeção de retração do PIB agrícola foi revisada pelo Rabobank à medida que o cenário econômico se deteriorou.

Segundo Une, o banco trabalhava inicialmente com a expectativa de um ciclo mais intenso de cortes na Selic ao longo de 2026. Essa avaliação, no entanto, mudou.

“O Banco Central ainda tem espaço para realizar apenas mais um corte de juros em 2026, levando a Selic para 14%. Para o próximo ano, projetamos a Selic em 12,5%”, afirmou.

Na avaliação do Rabobank, a pecuária bovina está entre as cadeias mais sensíveis nesse cenário macroeconômico. O banco estima uma redução entre 2% e 3% na produção de carne bovina em 2026. A expectativa está ligada ao enfraquecimento da atividade econômica, que deve limitar o consumo das famílias.

A projeção do Rabobank é de crescimento de 1,8% para o PIB brasileiro em 2026, abaixo dos 2,3% registrados no ano anterior. Como consequência, o consumo per capita de carne bovina deve recuar entre 6% e 7%.

Segundo Une, o mercado externo dificilmente conseguirá compensar esse movimento. "Como aproximadamente 70% a 80% da produção brasileira é destinada ao mercado interno, o avanço das exportações não será suficiente para compensar a retração da demanda doméstica", afirma.

Preço dos alimentos

O risco climático e o aumento dos custos também devem chegar aoconsumidor. Depois de um período de deflação e estabilidade, a inflação de alimentos voltou a acelerar em 2026.

O Rabobank projeta que o índice encerre o ano em 6,85%, pressionado pelo aumento dos preços do petróleo, que encarece frete, combustíveis, logística e fertilizantes, além da expectativa de intensificação do El Niño.

O pico deve ocorrer em fevereiro de 2027, quando a inflação dos alimentos pode atingir 7,7%. A projeção é de desaceleração ao longo do ano, para cerca de 4,3% no fim de 2027.

No câmbio, o banco espera que a volatilidade mantenha o dólar entre R$ 5,40 e R$ 5,45 no terceiro trimestre. Com a definição do cenário eleitoral e a redução das incertezas, a moeda americana deve encerrar 2026 em torno de R$ 5,35.

Para 2027, a expectativa é de um primeiro semestre mais favorável, impulsionado pela entrada de dólares da safra. No segundo semestre, fatores como remessas de dividendos e discussões fiscais devem voltar a pressionar o câmbio. Ainda assim, o Rabobank projeta o dólar próximo de R$ 5,30 no fim do próximo ano.

AutorCésar H. S. Rezende
FonteExame
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