Do Sul ao Nordeste: como o El Niño pode mudar a produção agrícola no Brasil

A National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA) confirmou a formação do El Niño, fenômeno climático natural que ocorre quando as águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial ficam mais quentes do que o normal para este ano.
Em documento divulgado nesta quinta-feira, 11, a agência climática dos EUA informou que "as condições do El Niño estão presentes e espera-se que se intensifiquem durante o inverno de 2026-2027 no Hemisfério Norte".
Apesar das previsões, especialistas alertam que a intensidade do fenômeno ainda não pode ser confirmada, assim como seus efeitos sobre o agronegócio brasileiro.
“Existe aí uma probabilidade muito grande, quase 100% de um El Niño, inclusive de um El Niño moderado. No entanto, não existe consenso ainda sobre essa intensidade forte ou muito forte”, afirmou Minella Alves Martins, pesquisadora associada do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).
Segundo ela, cada El Niño é muito particular, e não há garantia de que os impactos se repetirão como em eventos anteriores.
No Brasil, os efeitos do fenômeno variam conforme a região. Enquanto o Sul tende a registrar chuvas acima da média, áreas do Norte e do Nordeste podem enfrentar períodos mais secos. Essa combinação afeta o calendário agrícola, reduz a produtividade e eleva os custos de produção.
O último El Niño forte, entre 2023 e 2024, já deixou sinais claros de seus impactos, disse Martins. “Tivemos secas muito intensas na Amazônia, com rios críticos para abastecimento de alimentos e outros produtos. No Sul, houve excedente de chuvas que causou inundações e afetou a época de colheitas.”
A pesquisadora afirma que, embora seja impossível evitar totalmente os efeitos, medidas de curto prazo podem ajudar, como ajustes na janela de plantio e colheita.
“Se você posterga o plantio, acaba encurtando a sua janela de segunda safra. Então existe toda uma problemática por trás disso, mas as medidas de curto prazo seriam mais destinadas a essa janela de plantio.”
Para médio e longo prazo, a estratégia para reduzir os impactos do El Niño passa pela mitigação climática, incluindo a redução das emissões de gases de efeito estufa, especialmente provenientes da mudança do uso da terra, e a adoção de práticas agrícolas sustentáveis, como o plantio direto, que permite armazenar carbono no solo.
No Brasil, um país de dimensões continentais, os efeitos não ocorrem de forma uniforme. “Podemos ter chuvas mais intensas, já que os eventos climáticos extremos tendem a se tornar mais frequentes e severos”, afirma Bárbara Sentelhas, CEO da Agrymet.
No Sul, o El Niño costuma provocar aumento no volume de chuvas, resultando em inundações, erosão do solo, maior incidência de doenças nas lavouras e perdas de produtividade devido ao excesso de água e à proliferação de pragas.
No Nordeste, o fenômeno tende a reduzir as precipitações, favorecendo períodos de seca, degradação de pastagens e menor disponibilidade de água para irrigação, com impactos sobre culturas como feijão e milho.
No Centro-Oeste, os efeitos diretos costumam ser menos intensos, embora temperaturas mais elevadas possam prolongar os períodos secos e aumentar o risco de incêndios.
El Niño e o agro
Para Antônio da Luz, economista-chefe da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), os receios em torno do El Niño ganharam força após as enchentes que atingiram o estado em 2024, provocando prejuízos expressivos ao agronegócio.
Naquele ano, a produção de arroz — cultura na qual o Rio Grande do Sul responde por cerca de 70% da produção nacional — foi afetada.
“Em anos de Super El Niño, os produtores costumam redobrar a atenção ao calendário de plantio para evitar períodos de excesso ou falta de chuva, ajustar os tratos culturais e evitar áreas mais suscetíveis a alagamentos, como regiões próximas a rios. Essas adaptações podem resultar em alguma restrição de área plantada, mas não representam uma interrupção da produção”, diz.
Segundo o economista, o El Niño, por si só, nem sempre resulta em tragédias climáticas, embora exija monitoramento constante.
“Para que situações como as registradas no Rio Grande do Sul em 2024 aconteçam, é necessária a combinação de diversos fatores meteorológicos e ambientais. Além da intensidade do fenômeno, outros elementos também são determinantes para a ocorrência de desastres climáticos dessa magnitude", afirmou.
