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Sacre Investimentos
EmpresasACS
23/07/2026
8 min

Dois anos da Sabesp (SBSP3) privatizada: ex-presidente destaca avanços, enquanto sindicato critica nova gestão

Dois anos da Sabesp (SBSP3) privatizada: ex-presidente destaca avanços, enquanto sindicato critica nova gestão

A Sabesp (SBSP3) completa dois anos desde sua privatização com investimentos recordes, avanço da cobertura de saneamento e melhora da governança, na avaliação do economista Gesner Oliveira, que presidiu a companhia entre 2007 e 2011.

Em 23 de julho de 2024, foi oficializada a desestatização da Companhia de Saneamento do Estado de São Paulo, com a participação do Estado caindo de 50,8% para 18,3%, em uma operação bilionária.

Na visão de Oliveira, o ponto de destaque ao longo desses dois anos é a aceleração dos investimentos. Em 2025, a Sabesp registrou o maior volume anual de investimentos da sua história, de R$ 15,2 bilhões, alta de 120% do registrado em 2024.

Para 2026, a companhia projeta investimentos ainda maiores, da ordem de R$ 20 bilhões, concentrados principalmente na expansão do sistema de esgotamento sanitário, pontua o economista. No horizonte mais longo, o plano da Nova Sabesp prevê cerca de R$ 70 bilhões em investimentos até 2029 e cerca de R$ 200 bilhões até 2060, considerando todo o ciclo de universalização do saneamento no Estado.

“Esses recursos têm potencial de gerar efeitos importantes não apenas no saneamento, mas também na economia paulista, com geração de empregos, aumento da produtividade, valorização imobiliária e melhoria da qualidade de vida”, afirmou Gesner Oliveira em entrevista ao Money Times.

Além de ter presidido a Sabesp durante o segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, Oliveira esteve à frente do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) de 1996 a 2000, foi Secretário de Acompanhamento Econômico em 1995 e Secretário adjunto da Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda entre 1993 e 1995. Hoje, é sócio da GO Associados.

Posicionado a favor da privatização da Sabesp, ele chama atenção para o efeito multiplicador elevado do setor de saneamento, com os investimentos realizados capazes de induzir cerca de R$ 330 bilhões no PIB(Produto Interno Bruto) brasileiro até 2060 e gerar cerca de 4,6 milhões de empregos.

“Quando uma região recebe água tratada e coleta de esgoto, os benefícios ultrapassam a infraestrutura física: há redução de doenças, menor pressão sobre o sistema de saúde, valorização dos imóveis e maior capacidade de atração de investimentos”, pondera.

Veja os impactos socioconômicos da privatização da Sabesp, conforme estudo realizado pelo economista:

Elaboração: GO Associados

Alinhamento de interesses

Em dois anos, Gesner Oliveira afirma que a escala da Sabesp mudou e abriu espaço para uma questão pendente: o alinhamento de interesses.

De um lado, existem as necessidades da população, expansão do saneamento, obras de melhorias e medidas para lidar com potenciais crises hídricas, enquanto, do outro, há o retorno da empresa aos investidores.

Oliveira reconhece a relevância da criação de uma estrutura que aumenta a cobrança por resultados e favorece maior eficiência operacional, e destaca o mecanismo do contrato de concessão chamado de Fator-U, que vincula a distribuição de dividendos aos acionistas ao cumprimento das metas de universalização. “Ou seja, a remuneração dos acionistas passa a estar relacionada ao avanço dos indicadores de saneamento.”

Para o ex-presidente, os indicadores disponíveis até o momento sugerem uma melhora na capacidade de gestão, principalmente pela combinação de maior autonomia operacional, metas mais claras e mecanismos de governança mais robustos.

“Isso porque não existem mais as amarras típicas de uma empresa estatal. Deixou de estar subordinada às restrições das licitações públicas, à política de remuneração atrelada às normas anacrônicas da administração pública e ao ciclo político que levava a uma mudança da alta administração a cada eleição, para citar alguns fatores que tendem a tornar as empresas estatais ineficientes”, defende Gesner Oliveira.

O que dizem os trabalhadores do setor

Por outro lado, o presidente do Sintaema (Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente do Estado de São Paulo), José Faggian, afirma que, como era esperado à época do processo de privatização, houve uma piora do serviço oferecido para a população.

“Temos visto água suja, problema de acidente e a gestão da empresa piorou. A gestão privada trouxe várias pessoas do mercado — e nada contra essas pessoas —, que não conhecem de saneamento, entendem de balanço e de gerar lucro”, diz.

Segundo Faggian, a missão da empresa deixou de ser priorizar o saneamento e passou a ser a geração de lucro, em detrimento da qualidade do serviço.

“Mexeram em uma estrutura que vinha dando certo há 20 anos e agora as coisas não funcionam. E para os trabalhadores foi catastrófico. Cerca de 50% dos trabalhadores concursados da Sabesp já foram desligados, além de acidentes e mudança no plano de saúde. Então, na nossa avaliação, a gestão piorou muito”, disse ao Money Times.

Frutos de longo prazo

Apesar dos pontos positivos, Gesner Oliveira reconhece que a privatização deve ser analisada como um processo de longo prazo. Ele vê os próximos anos como relevantes para avaliar se os movimentos atuais da Sabesp irão se traduzir em melhoria permanente do serviço prestado à população.

A Sabesp trabalha na meta de universalização até 2029, antecipando o prazo de 2033 estipulado pelo Novo Marco Regulatório do Saneamento. Oliveira destaca os resultados já atingidos pela companhia.

“Entre 2024 e 2025, a expansão do acesso à água alcançou 152% da meta prevista, beneficiando cerca de 1,8 milhão de pessoas; a coleta de esgoto atingiu 133% da meta, atendendo mais de 2,1 milhões de pessoas; o tratamento de esgoto alcançou 134% da meta, beneficiando aproximadamente 3,7 milhões de pessoas”, diz o economista.

Os avanços apontados por Oliveira são positivos, mas o ex-presidente da Sabesp afirma que ainda existem dificuldades, tendo em vista que o setor de saneamento contempla obras complexas, manutenção permanente da infraestrutura e necessidade de garantir qualidade e continuidade do abastecimento.

Venda a ‘preço de banana’

Sobre a meta de universalização, José Faggian afirma que as obras estão em andamento, mas sustenta que elas também seriam executadas por uma Sabesp estatal dentro do prazo previsto pelo marco legal, até 2033.

“Ela seria realizada pela empresa pública e não seria necessário vender e entregar as ações da Sabesp, patrimônio paulista, para a iniciativa privada a preço de banana”, afirma.

A precificação da oferta da Sabesp foi alvo de críticas. As ações foram vendidas a R$ 67, com desconto de 18,3% em relação ao fechamento da bolsa na véspera da operação. Embora esse tipo de desconto seja comum em ofertas de grande porte, opositores da privatização afirmaram que o Estado vendeu um ativo estratégico abaixo do seu valor de mercado.

Já os coordenadores da operação defenderam que o desconto era necessário para viabilizar uma oferta de grande porte e garantir ampla participação do mercado.

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Nas mãos do Estado, um ativo mais valioso?

Na avaliação de Oliveira, os resultados financeiros também indicam uma companhia mais eficiente operacionalmente. Ele cita que, no primeiro trimestre de 2026, a Sabesp registrou investimento de R$ 3,7 bilhões, crescimento de 31% em relação ao mesmo período anterior, além de crescimento do lucro líquido ajustado e do Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização).

Outro indicador que ele destaca é a valorização da empresa e do próprio patrimônio do Estado. Antes da privatização, o Estado de São Paulo detinha 50,3% do capital da Sabesp, cuja participação acionária correspondia a um valor de mercado estimado em R$ 39 bilhões, em dezembro de 2025. Assim, a participação do Estado representava um patrimônio estimado de R$ 19,5 bilhões.

Apesar da redução da participação acionária do Estado, o economista afirma que a forte valorização da companhia elevou seu valor de mercado para R$ 58,7 bilhões em 2024 (considerando a cotação das ações em 27/12/2024).

“Além disso, a operação de venda da participação acionária gerou R$ 14,8 bilhões em recursos arrecadados pelo Estado, sendo a soma do valor das ações mantidas e dos recursos obtidos com a alienação equivalente a um patrimônio de aproximadamente R$ 25,4 bilhões”, diz.

“Em outras palavras, mesmo com uma participação acionária menor, o Estado passou a deter um ativo mais valioso, resultado da valorização da companhia e dos recursos obtidos na operação”, completa o ex-presidente da Sabesp.

Por outro lado, José Faggian afirma ter dificuldades em ver pontos positivos. Do lado dos trabalhadores, nem um destravamento do plano de carreira, fator que, segundo ele, poderia avançar, se concretizou.

Faggian reforça a mensagem de piora na qualidade do serviço, elevação de tarifas e nas condições dos trabalhadores, além de disparidade dos rendimentos da diretoria e o piso dos funcionários da companhia.

“Temos a convicção de que água, saneamento e outros serviços essenciais, dadas suas características essenciais, necessariamente teriam que ser geridos e prestados pelo setor público”, afirma. O presidente do Sintaema reconhece que não é simples ou está no horizonte de curto prazo uma reestatização, mas defende uma revisão da gestão na Sabesp.

Para ele, a companhia não deve deixar de gerar lucro, mas ter no centro dos holofotes o saneamento, com qualidade e pessoas especializadas trabalhando na companhia.

Nomes do mercado avaliam. Confira na matéria abaixo:

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AutorLorena Matos
FonteMoney Times
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