Dois gaúchos abriram um mercadinho durante a faculdade. Hoje a rede fatura R$ 20 milhões

Café da manhã servido o dia inteiro. Brunch no fim de semana. Happy hour até as onze da noite. É a programação de um restaurante, ou de uma galeria gastronômica, mas o negócio se chama Mercado Brasco, e é, em essência, um mercado de fato.
A grande diferença é que por ali, a ideia é ser menos um supermercado, e mais um espaço para reunir as pessoas. Um bom exemplo: no Bom Fim, bairro boêmio de Porto Alegre, a loja fica aberta das 7h30 às 23h e a mercearia divide espaço com padaria, café, restaurante e bar.
É um modelo vencedor. A rede, que começou como um mercadinho, fechou 2025 faturando 20,6 milhões de reais. Com 14 anos de história, tem cinco lojas em Porto Alegre e foi fundado em 2012 por Gabriel de Moraes e Arthur Bolacell, dois amigos vindos do interior que se conheceram no curso de Administração da ESPM e pegavam o mesmo ônibus para a faculdade.
Abriram a primeira unidade antes de se formar, na rua Florêncio Ygartua, no bairro Moinhos de Vento. Era um minimercado: padaria, mercearia, o básico do dia a dia.
Agora, a rede vive hoje seus melhores anos, segundo os sócios, e a razão está numa decisão tomada em 2015. Naquele ano, os dois concluíram que o modelo de mercadinho de bairro como era ia perder o que tinha de valioso — estar perto — para aplicativos de entrega, mercados de condomínio e a própria indústria vendendo direto ao consumidor. Recusaram o dinheiro de um investidor que queria escalar o minimercado e apostaram no caminho oposto.
Dez anos depois, o modelo desenhado ali sustenta cinco lojas, 120 funcionários e até uma marca própria de vinho.
"Ou a gente vai ter que ir pro lado do volume e da conveniência, ou a gente vai ter que ir pro lado da experiência e da diferenciação", diz Gabriel. "Escolhemos a experiência".
O próximo passo é levar o modelo completo para a Grande Porto Alegre e para o interior do Rio Grande do Sul. Eles também já receberam sondagem para abrir em São Paulo. A resposta tem sido manter a calma. O crescimento será orgânico, com os dois indo pessoalmente a cada ponto antes de assinar contrato.
Qual é a história da Brasco
Gabriel e Arthur vieram do interior para estudar em Porto Alegre em 2009. Se conheceram na ESPM, moravam perto do Parque Moinhos de Vento e pegavam o mesmo ônibus para a faculdade. Tinham 18 e 19 anos.
As duas famílias tinham negócio próprio. A mãe de Gabriel tinha uma loja de brinquedos no interior, a família de Arthur, uma rede de roupas. Os dois estagiavam — um na Fiat, outro numa rede de varejo do primo — quando decidiram testar a carreira de empreendedor antes de virar executivo.
"A gente tinha 18, 19 anos. Pensamos: vamos tentar abrir uma coisa e, se der certo, deu; se não der, a gente volta ao mundo corporativo", diz Gabriel.
A referência veio de dois lugares. A primeira, dos bolichos e mercadinhos do interior, onde as pessoas se conheciam pelo nome. A segunda, de oito meses morando entre Londres e Portugal, onde eles conheceram o Tesco Express, o modelo de mercado de conveniência da maior rede britânica.
No Brasil, o formato ainda era raro fora de São Paulo. Em Porto Alegre, ninguém olhava para isso.
A primeira loja abriu no meio da faculdade, tocada por dois sócios e um funcionário. Arthur ia à feira às três da manhã de segunda-feira comprar os produtos que seriam vendidos no supermercado. Gabriel ficava no caixa da padaria. Os dois voltavam para a aula depois.
Deu certo rápido. A segunda loja veio em 2015.
Como foi a virdada de modelo
Em 2015, Gabriel foi pela primeira vez à NRF, a maior feira de varejo do mundo, que acontece todo ano em Nova York. Voltou com um diagnóstico ruim para o próprio negócio.
O raciocínio era este: tudo que não tem valor agregado e que todo mundo vende ia migrar para quem entregasse mais rápido e mais barato. A indústria passaria a vender direto. Os condomínios teriam minimercado no térreo. A Amazon deixaria a compra na porta. Sobrava pouco para o mercadinho da esquina, cuja vantagem era só a distância.
Foi nessa época que apareceu um investidor com dinheiro para escalar o modelo de minimercado. Eles disseram não.
A aposta se provou. As redes que seguiram o caminho do volume no Brasil não emplacaram. Mas, em 2015, a recusa foi decisão de dois sócios na casa dos 20 anos, sem garantia de que o outro caminho existia.
O outro caminho tinha nome: trocar conveniência por convivência.
A loja aberta em novembro de 2020, no Bom Fim, foi a primeira desenhada com essa lógica. Café da manhã, almoço, jantar, happy hour, restaurantes parceiros operando dentro do espaço. A mercearia deixou de ser o negócio e virou uma camada dele. O conceito ganhou nome de sala de estar do bairro.
O ponto tinha história. Por 36 anos, a esquina da rua Vasco da Gama foi a Espaço Vídeo, uma locadora tradicional na cidade. O Brasco assinou o contrato em setembro de 2019, a obra atrasou, veio a pandemia, roubaram material do canteiro e o custo subiu. Olhando friamente, não teria momento pior para abrir o negócio.
Mas nem sempre empreender é uma ciência exata. No dia da inauguração, eles chamaram Hélio e Eliane, antigos donos da locadora, para receber os vizinhos. Mal começaram a tirar os tapumes, as pessoas começaram a entrar.
Produtos e fornecedores locais
O segundo pilar do negócio, para além da convivência, é o fornecedor local. A rede tem uma série chamada "Valoriza quem tá perto de ti", em que os sócios visitam produtores e gravam a história das famílias por trás dos produtos.
O caso mais bem-acabado é o vinho. Gabriel e Arthur analisaram a curva ABC — classificação que ordena os produtos pelo peso nas vendas —, identificaram os rótulos que mais saíam e foram a Bento Gonçalves e Garibaldi, na serra gaúcha, buscar oito vinhos para um teste cego com clientes e amigos. O vencedor virou marca própria: Portinho.
Os rótulos foram desenhados por uma artista local e estampam pontos icônicos de Porto Alegre. São três: um chardonnay, um rosé e um tinto.
A mesma lógica vale para as ecobags, as sacolas reutilizáveis da rede, que ganham ilustração específica de cada bairro.
Como cada loja é definida
Nenhuma unidade do Brasco é igual à outra, e isso é projeto. Antes de abrir, Gabriel e Arthur vão ao ponto, conversam com vizinhos e porteiros e contam quantas pessoas passam na calçada para estimar fluxo e taxa de conversão.
Na Padre Chagas, na região do bairro Moinhos de Ventos, fizeram entrevistas com 60 moradores antes de definir o mix. A Florêncio, mais residencial, segue como o modelo mais próximo do mercado original. A do Instituto Caldeira atende quem trabalha no prédio e fecha no fim de semana. A do Viva Open Mall funciona melhor no fim da tarde.
O programa de fidelidade, o Brasco+, também vira ferramenta de expansão. Foi a base de cadastros que mostrou aos sócios que havia demanda na Padre Chagas antes de eles abrirem ali.
E quais são os desafios no meio do caminho
Em maio de 2024, a enchente tomou a loja do Instituto Caldeira. Gabriel e Arthur entraram no local com água na cintura. O prejuízo ficou em torno de 500.000 reais e a unidade passou cerca de cinco meses fechada.
A cidade parou junto. Sem água e sem luz, Gabriel abastecia os banheiros das lojas que seguiam abertas com água tirada da piscina de casa, todo dia. "Foi horrível", diz.
As outras quatro unidades continuaram operando e a equipe do Caldeira foi realocada. A loja foi reconstruída e reaberta.
O desafio mais concreto hoje é outro: gente. Encontrar mão de obra virou problema estrutural do varejo, e a operação do Brasco vai das 7h30 às 23h no Bom Fim, com rotação de turno. A concorrência com a informalidade pesa.
A sociedade é dividida meio a meio e não há franquia no horizonte. A avaliação dos dois é que abrir o modelo para franqueados pode fazer com que eles percam o controle da marca.
O plano é crescer de forma orgânica pela Grande Porto Alegre e pelo interior do Rio Grande do Sul, onde eles avaliam que o modelo completo cabe. Uma consultoria já sugeriu levar a marca para São Paulo, e empreendimentos procuram a rede oferecendo ponto. Os dois seguem indo pessoalmente a cada endereço antes de decidir.
