Dois irmãos gaúchos compram de uma única vez 220 caminhões a gás e já faturam R$ 2,5 bilhões
Reiter Log vai superar 600 veículos movidos a gás e amplia uma rede própria de abastecimento com biometano para atender clientes em busca de reduzir emissões

Uma transportadora da região metropolitana de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, está prestes a anunciar a compra, de uma única vez, de 220 caminhões a gás. O lote será entregue até dezembro e, segundo a empresa, representa a maior compra já feita da história da Scania no Brasil, a montadora dos veículos.
A responsável é aReiter Log, criada em 2008 pelo empresário Vinicius Pilz, então com 22 anos. A empresa começou com um único caminhão e hoje faz parte de um grupo que fatura cerca de 2,5 bilhões de reais, emprega 2.500 pessoas e opera aproximadamente 2.500 caminhões e carretas.
Com a nova compra, a Reiter vai superar a marca de 600 veículos movidos a gás. E boa parte dos 220 veículos já chega para atender ampliações de contratos e novos negócios com companhias interessadas em reduzir as emissões de suas operações.
“No passado a gente comprou os caminhões no escuro, comprou os caminhões para oferecer aos clientes. Agora a gente já compra sob a demanda dos clientes”, diz Vinicius Pilz.
A próxima etapa é tentar controlar também o combustível que move essa frota.
O grupo está construindo uma operação que liga pecuária — com a fazenda Estância del Sur, que faz parte da familia — produção de biometano e transporte rodoviário. A ideia é usar resíduos do gado criado pela família para produzir parte do gás consumido pelos caminhões da Reiter.
Ao mesmo tempo, a empresa amplia uma rede própria de abastecimento que deve chegar a dez pontos.
Qual é a história da Reiter Log
A história começou em 2008, emNova Santa Rita, município da região metropolitana a cerca de 20 quilômetros de Porto Alegre. Vinicius Pilz tinha 22 anos e recebeu da família um caminhão. Era o primeiro ativo da empresa.
A paixão vinha de antes. Segundo Vanessa Pilz, irmã de Vinicius e diretora de negócios e ESG da companhia, o irmão queria dirigir caminhões desde criança. “Meu irmão sempre foi apaixonado por caminhões. O sonho dele de criança era ser motorista”, diz Vanessa.
Ela própria entrou cedo no negócio. Tinha 22 anos quando assumiu a área comercial da empresa. Os primeiros anos foram concentrados no transporte de carga frigorificada. A dependência de um único segmento começou a incomodar os irmãos. Uma crise sanitária, por exemplo, poderia derrubar rapidamente o volume transportado.
A decisão foi migrar também para bens de consumo e pulverizar a carteira. A partir daí, a Reiter criou uma regra que continua norteando o negócio: nenhum cliente deveria representar mais de 10% do faturamento.
A diversificação levou a empresa a contratos com companhias como Unilever, L’Oréal, Natura, Boticário, Colgate, Mondelez, Mars, Nestlé e Beiersdorf, dona de Nívea e Eucerin.
Hoje, São Paulo representa uma parte importante da operação da Reiter Log, apesar das raízes gaúchas. A empresa também atua em rotas que conectam o Sul ao Sudeste e começa a avançar pelo Centro-Oeste.
A escala atual é bem diferente da que a companhia tinha poucos anos atrás. Em 2024, a Reiter Log registrou receita de 721 milhões de reais, tinha mais de 1.900 caminhões na frota própria e 2.265 funcionários. Agora, os Pilz passaram a divulgar também os números do grupo, que inclui negócios fora da transportadora.
Segundo Vinicius, o grupo fatura aproximadamente 2,5 bilhões de reais, emprega cerca de 2.500 pessoas e tem aproximadamente 2.500 caminhões e carretas em operação.
Como é a estratégia em sustentabilidade
A Reiter começou a testar uma escala maior de caminhões a gás em 2021.
Naquele ano, comprou 124 unidades da Scania. Depois, fez uma nova aquisição do mesmo tamanho e adicionou outros veículos à frota. Agora, parte para o maior lote desde o início da estratégia.
São 220 caminhões a gás, que começaram a chegar em agosto e devem ser entregues integralmente até dezembro. Com isso, a empresa afirma que vai superar 600 veículos desse tipo em operação.
“É um feito muito grande porque é um produto novo, é inovador e a gente está sendo pioneiro e líder absoluto com um volume muito grande de ativos”, diz Vinicius.
A concentração de tantos caminhões numa única empresa traz um problema prático: onde abastecer. A rede pública de biometano e gás natural veicular ainda não permite que uma transportadora opere longas distâncias com a mesma facilidade encontrada no diesel. A resposta da Reiter foi construir seus próprios pontos de abastecimento.
Hoje são nove pit stops, pontos internos instalados nas filiais e usados exclusivamente pela empresa. Um décimo está em implantação.
Essa estrutura permite conectar o Rio Grande do Sul a estados como Minas Gerais, Goiás, Espírito Santo e Rio de Janeiro com veículos movidos a gás.
“Somos a única transportadora que consegue fazer interestadual, um transporte de longa distância que liga o Rio Grande do Sul até Minas Gerais, Goiás, Espírito Santo e Rio de Janeiro”, afirma Vinicius.
O avanço geográfico continua concentrado nas regiões em que a empresa já tem operação. O foco segue no Sul e Sudeste, com entrada mais recente no Centro-Oeste.
Como a operação se complementa
É nessa etapa que a história da Reiter começa a se misturar com outro negócio da família.
Os Pilz também controlam a Estância Del Sur, operação ligada à pecuária. A fazenda aparece agora como uma peça da estratégia de abastecimento dos caminhões.
O modelo planejado funciona em cadeia. A propriedade produz milho, usado na alimentação do gado. O esterco dos animais pode ser levado a biodigestores, equipamentos que transformam matéria orgânica em produtos como biogás.
Depois de purificado, esse gás pode se transformar em biometano, combustível renovável com características semelhantes às do gás natural.
O processo também gera biofertilizante, que pode voltar para a lavoura.
“Nós plantamos o milho que o boi come. O boi vai defecar, nós vamos coletar todo esse esterco e, num processo de internalização, a gente vai gerar biofertilizante, que aduba o milho. E vai trazer o outro produto, que é biometano, que vai abastecer o caminhão da Reiter”, diz Vinicius.
A intenção é criar uma cadeia circular dentro do próprio grupo: parte do que sai da atividade agropecuária volta para a logística na forma de combustível.
A produção própria, porém, não deve ser suficiente para abastecer toda a frota. A Reiter seguirá comprando biometano de fornecedores externos para completar a demanda dos pontos de abastecimento.
Qual é a estratégia comercial
A maior mudança desde as primeiras compras aparece do outro lado do balcão.
Quando a Reiter começou a investir na tecnologia e na sustentabilidade, a empresa assumia o risco primeiro. Comprava os caminhões, montava a estrutura e só então buscava clientes dispostos a substituir parte da operação a diesel.
Agora, segundo os irmãos, empresas com metas de redução de emissões começaram a procurar esse tipo de solução.
L’Oréal e Natura estão entre os clientes citados pela Reiter. Outro exemplo é a Copersucar, com quem a transportadora opera uma rota com combustíveis de menor emissão. “São os clientes que estão buscando a descarbonização”, diz Vanessa.
Isso também ajuda a Reiter a enfrentar um dos problemas históricos da logística rodoviária: a disputa quase exclusivamente pelo preço do frete.
Uma operação com menor emissão de carbono cria outra variável na negociação. Em alguns contratos, segundo Vinicius, o cliente remunera diretamente a redução de emissões. “Tem cliente nosso que já remunera a redução de emissões. Ao invés de ele ir comprar crédito de carbono, ele está evitando emissão, que é o mais lógico”, diz Vinicius.
A tese é que a conta pode fazer sentido quando o transporte ajuda a companhia contratante a avançar em seus próprios compromissos ambientais.
Quais são os desafios
O movimento também carrega riscos. Caminhões movidos a tecnologias alternativas ainda exigem mais capital, e sua viabilidade depende do tipo de rota, da utilização do veículo e da disponibilidade de combustível.
No caso dos caminhões a gás, a infraestrutura própria resolve uma parte do problema, mas aumenta a quantidade de capital imobilizado no negócio. A empresa precisa comprar a frota, construir pontos de abastecimento, garantir fornecimento de combustível e encontrar contratos que mantenham os veículos rodando.
É por isso que a mudança relatada por Vinicius — comprar já com demanda contratada ou em negociação — se torna central para a próxima fase. Em vez de depender apenas da expectativa de que os clientes adotem a tecnologia, a Reiter tenta conectar cada novo lote de veículos a contratos que sustentem o investimento.
O desafio daqui para frente será repetir em uma frota de mais de 600 caminhões a gás uma estratégia que começou com algumas dezenas de veículos. Para uma empresa que nasceu com um caminhão, o tamanho da aposta mudou.
