Dólar avança pelo segundo mês seguido, mas cai 5,94% no semestre

O dólar comercial encerrou as negociações desta terça-feira, 30, em queda, mas fechou junho com valorização frente ao real, consolidando o segundo mês consecutivo de alta da moeda americana. No mercado à vista, o dólar caiu 0,23% nesta terça-feira, cotado a R$ 5,1630, após oscilar entre a mínima de R$ 5,1625 e a máxima de R$ 5,2017.
Apesar da queda no último pregão do mês, o dólar comercial acumulou alta de 2,39% em junho, após ter subido 1,66% no mês de maio.
O pregão foi marcado por volatilidade, em meio à formação da taxa Ptax e à divulgação de indicadores do mercado de trabalho no Brasil e nos Estados Unidos. Enquanto o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostrou a criação de quase 73 mil vagas em maio, abaixo das expectativas, o relatório Jolts apontou abertura de 7,6 milhões de postos de trabalho nos Estados Unidos, acima do esperado.
No acumulado do primeiro semestre, no entanto, a divisa ainda registra desvalorização em relação ao real, refletindo a forte apreciação da moeda brasileira observada entre o início do ano e abril, antes da reversão de tendência registrada nos últimos dois meses. A moeda americana registra queda de 5,94% frente ao real.Valorização do real perde força desde abril
Para Bruno Yamashita, coordenador de alocação e inteligência da Avenue, o desempenho do semestre mostra dois momentos bastante distintos. Segundo o especialista, a valorização do real observada até abril foi impulsionada pelo fluxo de recursos para o Brasil, mas esse movimento perdeu força nos últimos dois meses.
"Quando a gente olha na comparação do início do ano até agora, é uma desvalorização em torno de 5,6%. Isso reflete muito o fluxo para o Brasil desde o ano passado e principalmente no primeiro trimestre deste ano. Mas, nesses últimos dois meses, vimos uma reversão da tendência observada em abril, quando o câmbio chegou perto de R$ 4,89, voltando a negociar de forma mais consistente acima de R$ 5", afirma.
Segundo Yamashita, essa mudança de trajetória foi provocada principalmente pela alteração na política monetária dos Estados Unidos. O coordenador da Avenue destaca que a posse de Kevin Warsh na presidência do Federal Reserve marcou uma mudança de tom da autoridade monetária americana, reduzindo as expectativas de cortes de juros e fortalecendo o dólar globalmente.
"O mercado passou a enxergar uma manutenção dos Fed Funds e até um possível aumento dos juros nos Estados Unidos. Com juros mais altos por lá, houve um fluxo de recursos de volta para os ativos americanos, fortalecendo o dólar não apenas frente ao real, mas também diante de diversas moedas de países desenvolvidos e emergentes", diz.
No Brasil, acrescenta o especialista, o cenário também contribuiu para a valorização da moeda americana, diante da continuidade dociclo de cortes da Selic e das incertezas sobre até onde a flexibilização monetária poderá avançar.
Alívio geopolítico teve pouco impacto sobre o câmbio
Na avaliação de Marcos Praça, diretor de análise da Zero Markets Brasil, junho foi marcado por uma mudança importante no cenário internacional. Embora o acordo entre Estados Unidos e Irã tenha reduzido significativamente as tensões no Oriente Médio e derrubado o preço do petróleo, esse alívio geopolítico acabou tendo impacto menor sobre o câmbio do que a nova postura do Federal Reserve.
"O mercado avaliou que a mudança de postura do Fed foi mais relevante para o dólar global do que o próprio fim da guerra. O resultado foi um dólar americano nas máximas em treze meses, com o índice DXY superando os 101 pontos", afirma.
Segundo Praça, a primeira reunião do banco central americano sob a presidência de Kevin Warsh surpreendeu os investidores ao indicar uma perspectiva de juros mais elevados nos Estados Unidos, fortalecendo a moeda americana no mundo todo e reduzindo o espaço para estratégias que favoreciam moedas de mercados emergentes, como o real.
O que esperar do dólar em julho
Para o segundo semestre, Yamashita avalia que o mercado continuará atento principalmente às decisões do Federal Reserve, à evolução da inflação americana e às eleições presidenciais, especialmente em mercados emergentes como o Brasil."O segundo semestre tende a ser mais movimentado por essas pautas. Se o mercado continuar esperando juros elevados nos Estados Unidos, isso pode continuar dando suporte ao dólar. Além disso, fatores como inflação persistente e o comportamento do petróleo seguirão sendo monitorados", afirma.
Praça também projeta um cenário de maior sustentação para a moeda americana nas próximas semanas. Segundo o diretor da Zero Markets, com o petróleo deixando de ser o principal vetor dos mercados, o foco passa a ser a divergência entre a política monetária dos Estados Unidos e a brasileira.
"A combinação de um Fed mais duro, do ciclo de cortes de juros próximo do fim no Brasil e do calendário eleitoral tende a manter o dólar oscilando entre R$ 5,05 e R$ 5,35 em julho, com viés de alta", diz. Para ele, a proteção cambial passa a ser justificada menos pelas tensões geopolíticas e mais pelas diferenças entre as trajetórias de juros dos dois países.
