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Sacre Investimentos
Bolsa e dólarACS
03/11/2026
8 min

Dólar dispara, bolsa cai e Itaú muda a estratégia: chefe de recomendações do banco diz onde investir após vitória de Lula

Ao Seu Dinheiro, Martin Iglesias explica por que o banco reduziu o otimismo com as ações brasileiras, onde ainda vê oportunidades e como evitar decisões precipitadas

Dólar dispara, bolsa cai e Itaú muda a estratégia: chefe de recomendações do banco diz onde investir após vitória de Lula

A reação do mercado à vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições de 2026 colocou os investidores diante de uma dúvida conhecida em momentos de turbulência: é hora de mudar a carteira ou manter a estratégia e esperar a poeira baixar? 

No Itaú Unibanco, a pergunta chegou em peso. Clientes procuraram o banco para entender como agir diante da queda da bolsa brasileira e da disparada do dólar, enquanto a equipe de investimentos reavaliava suas recomendações para o novo cenário econômico. 

A resposta veio na forma de um ajuste de rota. O Itaú reduziu sua recomendação para as ações brasileiras de otimista para neutra, em uma escala que vai de -3 (muito pessimista) a +3 (muito otimista).  

“Neutro não é pessimismo, é normalidade”, afirma Martin Iglesias, líder em recomendação de investimentos no Itaú Unibanco, em entrevista exclusiva ao Seu Dinheiro. 

Ao mesmo tempo, manteve a visão favorável para a bolsa norte-americana, reforçou a preferência por títulos de renda fixa atrelados à inflação de prazo mais curto e destacou a importância de diversificar os investimentos no exterior. 

Bolsa brasileira perde espaço, mas Itaú não recomenda abandonar as ações 

A reação dos mercados ao resultado eleitoral trouxe uma nova rodada de incertezas para os ativos domésticos.  

A alta do dólar aumentou a preocupação com a inflação, enquanto a abertura dos juros futuros elevou o custo de capital das empresas e pressionou forte as ações na semana passada. 

Na avaliação de Iglesias, o cenário pode afetar a bolsa por duas frentes. Juros mais altos tendem a reduzir os múltiplos pelos quais as companhias são negociadas, enquanto uma economia mais fraca pode comprometer as perspectivas para os balanços. 

“Essas duas combinações: custo de capital mais alto leva a múltiplos menores e crescimento menor leva a earnings [lucros] menores”, afirma. 

O Itaú manteve a recomendação otimista nos primeiros dias após a eleição, enquanto acompanhava a reação dos mercados. A revisão veio depois, quando a equipe concluiu que o novo cenário justificava uma postura mais cautelosa em relação às ações brasileiras. 

Isso não significa, porém, que o banco esteja recomendando sair da bolsa ou que considere inevitável uma nova rodada de quedas.  

Iglesias afirma que parte das preocupações já foi incorporada aos preços, embora novos ajustes ainda possam ocorrer. A direção dos ativos dependerá, sobretudo, dos próximos passos da política econômica. 

Pouco dinheiro lá fora, exposição demais aos solavancos do Brasil 

Se a turbulência doméstica colocou a bolsa brasileira em compasso de espera, a diversificação internacional ganhou ainda mais relevância nas conversas do Itaú com os clientes. 

Segundo Iglesias, uma parcela significativa dos investidores atendidos pelo banco mantém uma exposição a ativos internacionais inferior à indicada nas carteiras recomendadas.  

Para o executivo, o comportamento tem relação com o chamado home bias, ou viés doméstico: a tendência de concentrar os investimentos no próprio país, mesmo quando há oportunidades e riscos em outros mercados. 

Na média, o brasileiro mantém apenas 2% de seus investimentos em ativos internacionais, de acordo com os dados citados pelo executivo. Para o Itaú, há espaço para ampliar essa participação. 

Questionado sobre o "número ideal" de alocação lá fora, Iglesias afirma que o tamanho da exposição depende do perfil de risco e, principalmente, dos objetivos de cada pessoa. 

Na alocação tática, a parcela destinada a investimentos internacionais chega a 3% no perfil conservador, 10% no moderado, 20% no arrojado e 35% no agressivo. 

Nos três últimos casos, os percentuais superam as respectivas alocações estratégicas, que servem como referência de longo prazo. 

Nos perfis mais arrojados, o reforço vem principalmente da renda variável global: a exposição a ações no exterior chega a 12% na carteira arrojada e a 29% na agressiva. Já a renda fixa global em dólar representa 8% e 6%, respectivamente. 

Segundo o especialista, a turbulência recente ajudou a mostrar, na prática, a função dessa diversificação.  

Enquanto os ativos brasileiros sofreram com a reação eleitoral, os investimentos internacionais tiveram comportamento mais estável. A valorização do dólar também contribuiu para amortecer as perdas de quem já tinha recursos fora do país. 

“Os investidores que tinham uma exposição internacional na segunda-feira passaram melhor”, afirma Iglesias. 

A orientação é que os clientes que ainda não alcançaram a alocação indicada avaliem como aproximar a carteira dessa distribuição. 

Não se trata de aumentar a exposição ao exterior de forma indiscriminada, mas de evitar que o patrimônio fique excessivamente dependente de um único mercado. 

Veja nesta reportagem como dar o pontapé inicial numa carteira de investimentos no exterior. 

Onde investir no exterior, então? 

A recomendação de diversificar não se limita a uma proteção contra a volatilidade brasileira. O Itaú também enxerga oportunidades em ativos internacionais. 

O banco mantém uma visão positiva para as ações norte-americanas, tanto para quem investe diretamente em dólar quanto para quem acompanha o desempenho desses ativos em reais.  

Na renda fixa internacional, Iglesias chama atenção para os títulos do Tesouro dos Estados Unidos, que, segundo ele, oferecem rendimentos próximos de 5,25% ao ano em dólar.  

A combinação de remuneração em moeda estrangeira e exposição cambial amplia as alternativas para quem tem a maior parte do patrimônio concentrada no Brasil, afirma. 

O executivo também vê oportunidades no crédito privado internacional, embora a recomendação geral seja manter uma carteira diversificada, sem concentrar as decisões em uma única classe de ativos. 

Ouro pode diversificar, mas não é aposta central do Itaú

Na busca por proteção, o ouro também pode encontrar espaço na carteira. O Itaú, porém, não o trata como uma posição central. 

Iglesias afirma que o metal pode funcionar como instrumento de diversificação, especialmente em portfólios mais arrojados, mas recomenda uma exposição pequena.  

Embora seja visto como um ativo defensivo em determinados momentos, o ouro também apresenta volatilidade e não gera renda, destaca. 

“Ele entra bem como uma parcela de diversificação em determinado momento, mas não é um ativo para carregar em um horizonte de longo prazo”, diz o executivo. 

Brasil também traz oportunidades na renda fixa 

Na parcela doméstica da carteira, o Itaú também ajustou suas preferências. O banco passou a dar prioridade aos títulos indexados à inflação de prazo mais curto, em vez dos vencimentos longos. 

A referência é o IMA-B 5, índice que replica o desempenho de uma cesta de títulos públicos atrelados ao IPCA com vencimento de até cinco anos.  

A avaliação considera que a combinação de câmbio mais depreciado e petróleo pode pressionar a inflação, tornando os papéis ligados ao índice de preços interessantes para a carteira. 

Os vencimentos mais curtos, explica Iglesias, respondem mais diretamente às mudanças nas expectativas de inflação. Já os títulos longos ficam mais expostos às oscilações dos juros reais de longo prazo e às preocupações com a trajetória fiscal do país. 

A carteira recomendada do Itaú reflete essa preferência: a alocação tática em juro real está acima da referência estratégica nos perfis moderado, arrojado e agressivo, com destaque para os vencimentos mais curtos. 

O banco também mantém uma visão favorável para a renda fixa pós-fixada, que acompanha a taxa básica de juros. Já os títulos prefixados exigem mais cautela, porque uma inflação acima do esperado pode corroer o retorno real contratado pelo investidor. 

Como ajustar a carteira sem agir por impulso? 

Com tantas mudanças no cenário, a tentação de fazer uma grande reformulação nos investimentos pode ser forte. Mas, para Iglesias, esse é justamente o tipo de reação que o investidor deve evitar. 

Segundo o executivo, nos dias de maior turbulência, o Itaú recebeu muitos contatos de clientes em busca de orientação. A procura por explicações e recomendações foi mais intensa do que os pedidos de resgate ou de saída dos investimentos. 

O comportamento é comum em períodos de estresse. De um lado, aparece o medo de permanecer aplicado e ver as perdas aumentarem. De outro, o receio de vender e assistir a uma recuperação dos preços sem participar dela. 

“Você tem a aversão à perda, então o investidor fica preocupado: ‘Se eu não vender, será que vou perder mais?’. E a questão da aversão ao arrependimento: ‘Se eu vender e voltar, vou me arrepender?’”, afirma. 

Para Iglesias, o risco está em transformar essa tensão em uma decisão radical, como vender todos os ativos de uma classe ou manter a carteira inteira sem considerar se ela ainda faz sentido.  

O ajuste pode ser mais parecido com uma regulagem gradual do que com uma freada brusca. 

Se a exposição internacional está abaixo do recomendado, por exemplo, o investidor pode aumentar essa parcela aos poucos, mesmo com o dólar em um patamar mais elevado.  

O mesmo vale para uma eventual redução do risco na bolsa brasileira: não é necessário desmontar toda a posição de uma só vez, afirma Iglesias. 

A primeira pergunta, diz o executivo, deveria ser se alguma coisa mudou na vida do investidor — seus objetivos, seu horizonte de investimento ou sua disposição para correr riscos — ou se o que mudou foi apenas o preço dos ativos. 

“O que mudou? Mudou alguma coisa na sua vida, nos seus objetivos, no seu perfil? O que mudou foi o preço, e com o preço mudando, eu mudo?”, questiona. 

Para quem tem dinheiro novo disponível, a orientação é aproveitar os aportes para aproximar a carteira da alocação recomendada, com atenção especial à diversificação internacional e aos títulos de inflação de prazo mais curto.  

Assim, em vez de tentar acertar o momento exato de entrada ou saída do mercado, o investidor pode fazer ajustes progressivos e manter a estratégia alinhada aos próprios objetivos. 

AutorCamille Lima
FonteSeu Dinheiro
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