Dólar mais baixo pode reduzir margem da soja em 2026/27
Com a maior parte da safra ainda sem preço fixado, valorização do real ameaça receitas de soja e milho na atual safra, diz consultoria

O resultado do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 trouxe novas perspectivas para o agronegócio brasileiro, mas também acendeu um alerta sobre a rentabilidade dos produtores. Embora a expectativa de juros menores e melhores condições de crédito favoreça o setor, a valorização do real pode pressionar as margens da soja e do milho na safra 2026/2027.
Segundo análise da Cogo Inteligência em Agronegócio, em um cenário de vitória de Flávio Bolsonaro no segundo turno, o dólar médio de 2027 poderia recuar de R$ 5,30 para uma faixa entre R$ 4,90 e R$ 5,10. O movimento reduziria as receitas em reais das commodities agrícolas negociadas no mercado internacional.
O impacto seria especialmente relevante para os produtores de Mato Grosso, principal estado produtor de soja do Brasil. Segundo a consultoria, em uma simulação com o dólar a R$ 5, a margem líquida da soja cairia de 14,3% para 9,1% na safra 2026/2027, considerando o custo total de produção, a pior dos últimos 20 anos.
No milho segunda safra, a rentabilidade também seria afetada. A margem líquida projetada recuaria de 20,3% para 15,5%, na comparação entre um dólar de R$ 5,30 e outro de R$ 5.
O principal problema é que boa parte dos produtores já comprou os insumos necessários para a atual safra, mas ainda não fixou os preços de venda da produção.
De acordo com a Cogo, o dólar médio utilizado na compra de insumos da safra 2026/2027 foi de R$ 5,14. Caso a comercialização dos grãos ocorra com a moeda americana abaixo desse patamar, a relação entre os custos de produção e as receitas poderá se deteriorar.
A exposição cambial dos produtores é um dos principais pontos de atenção identificados pela consultoria após oprimeiro turno das eleições, realizado no último domingo, 4.
Segundo o levantamento, apenas 29% da soja da safra 2026/2027 havia sido comercializada com preços fixados antes da eleição. Isso significa que os 71% restantes ainda estavam sujeitos às oscilações do dólar.
No caso do milho segunda safra de 2027, a exposição é ainda maior. Apenas 12% da produção estava travada, deixando 88% sujeitos às mudanças cambiais.
Nas simulações da Cogo, uma queda do dólar de R$ 5,30 para a faixa entre R$ 4,90 e R$ 5,10 poderia reduzir entre 3,8% e 7,5% a receita em reais da parcela da produção ainda exposta ao câmbio.
Considerando também a produção que já teve os preços fixados, a perda estimada de receita total seria de 2,7% a 5,4% para a soja e de 3,3% a 6,6% para o milho segunda safra.
A consultoria calcula que cada 1% de valorização do real representa um impacto equivalente a aproximadamente 13 centavos de dólar por bushel de soja. Nas condições analisadas, a diferença cambial corresponderia a cerca de 49 a 98 centavos de dólar por bushel da soja ainda não fixada.
A análise considera uma simulação simplificada, com preços internacionais naBolsa de Chicago (CBOT), principal referência no mercado de grãos, e prêmios de exportação constantes. Mudanças nessas variáveis podem alterar o impacto final sobre a receita dos produtores.
Safra 2027/2028
Embora a valorização do real represente um risco para as receitas da safra 2026/2027, o efeito pode ser diferente no ciclo agrícola seguinte.
Para a safra 2027/2028, a Cogo identifica a possibilidade de redução dos custos de produção, principalmente pela compra de insumos importados com um dólar mais baixo.
Considerando a faixa cambial projetada de R$ 4,90 a R$ 5,10, ante os R$ 5,14 utilizados na aquisição dos insumos da safra atual, a consultoria estima uma redução potencial de 0,8% a 4,7% na parcela dolarizada dos custos, caso essas condições sejam mantidas.
Juros menores também poderiam melhorar as condições para a retomada gradual dos investimentos no campo.
Nesse contexto, o relatório aponta a compra antecipada de insumos para a safra 2027/2028 como uma possibilidade a ser avaliada pelos produtores, aproveitando um eventual câmbio mais favorável.
No curto prazo, entretanto, a tendência identificada pela consultoria é de maior cautela na comercialização. Com a valorização do real, os produtores podem optar por adiar as vendas, reduzindo o ritmo de negociação dos grãos.
