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26/10/2026
11 min

Dólar pode chegar a R$ 6 com Lula reeleito? Veja até onde a moeda pode ir

Gestores veem alta forte no 1º pregão e dizem que o rumo fiscal define o resto

Dólar pode chegar a R$ 6 com Lula reeleito? Veja até onde a moeda pode ir

A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para um quarto mandato na Presidência da República deve pressionar o dólar para cima nesta segunda-feira, 26, primeiro pregão após o 2º turno das eleições, segundo especialistas ouvidos pela EXAME.

A vitória do petista contrariou a expectativa predominante entre os investidores, que vinham apostando em uma mudança de governo com o senador Flávio Bolsonaro (PL). Agora, o mercado deve rever parte das posições construídas nas últimas semanas.

O movimento pode provocar uma valorização expressiva da moeda americana, além de pressionar os juros futuros e a bolsa brasileira. É o que agentes do mercado financeiro preveem, mas o cenário é incerto.

Nas projeções dos especialistas, o dólar pode retornar rapidamente à faixa de R$ 5,20 a R$ 5,30. Em um horizonte mais longo, a moeda americana também encontra espaço para alcançar R$ 5,40, dependendo da condução da política econômica do novo mandato.

O estrategista-chefe da Avenue, William Castro Alves, é um dos que avaliam que a reeleição de Lula pode provocar uma reação negativa nos ativos brasileiros, revertendo parte do otimismo registrado após o 1º turno.

Há uma possibilidade de alta do dólar e dos juros futuros, bem como de queda da bolsa, mas Castro Alves acredita que a reação do mercado pode ser limitada pela composição do Congresso Nacional.

Segundo ele, o Legislativo pode atuar como um contrapeso ao governo, dificultando a aprovação de medidas que ampliem os gastos públicos e, consequentemente, reduzindo parte das preocupações dos investidores com a política fiscal.

"Você tem um limite até que ponto você poderia ter um estresse no juro, um estresse no dólar ou mesmo na bolsa, porque, por outro lado, você tem de novo um Congresso e um Senado que vão ser um certo fiel da balança ali", explica.

O especialista também ressalta que a reação inicial dos mercados nem sempre indica qual será a trajetória dos ativos nos meses seguintes. Na eleição anterior de Lula, por exemplo, o dólar chegou a recuar logo após o resultado, apesar das preocupações de investidores com o retorno do petista ao poder.

Por que a vitória de Lula pode pressionar o dólar?

A principal preocupação dos investidores está na trajetória das contas públicas e na capacidade do presidente reeleito de construir uma relação com o Congresso que permita avançar em medidas econômicas, especialmente no ajuste fiscal.

O mercado vinha trabalhando com a possibilidade de uma mudança para uma política fiscal mais restritiva, com maior controle de despesas e ações para conter o crescimento da dívida pública.

Com Lula reeleito, a expectativa passa a ser de continuidade de uma política econômica com maior participação do Estado e de um ajuste fiscal potencialmente mais moderado. Para Castro Alves, o presidente enfrentará dificuldades para executar sua agenda diante de um Legislativo menos favorável.

"Eu acho que o principal diagnóstico do caso do Lula é que ele vai ter uma vida bastante difícil para governar, vai ser um governo bastante difícil, que vai ter que negociar, que vai ter que conversar com o Congresso", explica o estrategista-chefe da Avenue.

Esse cenário, segundo o estrategista, apresenta dois efeitos distintos para o mercado financeiro. De um lado, a resistência parlamentar pode impedir a aprovação de medidas que ampliem significativamente as despesas públicas, limitando uma eventual deterioração fiscal, diz.

Do outro, ele relata que o impasse entre Executivo e Legislativo também pode comprometer a implementação de políticas econômicas e prejudicar o crescimento. "Tudo que o Executivo tenta fazer, provavelmente o Legislativo vai barrar, e aí você fica nesse impasse e esse impasse tende a não ser bom."

O estrategista ressalta, porém, que a concessão de benefícios à população não representa, por si só, um problema para as contas públicas. A preocupação dos investidores está na ausência de medidas que compensem financeiramente novas despesas.

Dólar a R$ 5,40? Veja as projeções para o novo governo

O economista-chefe da Suno Research, Gustavo Sung, também projeta um ambiente de maior volatilidade após a reeleição de Lula. O mercado chegou ao 2º turno atribuindo favoritismo a Flávio Bolsonaro e trabalhando com a possibilidade de uma condução econômica mais liberal.

Parte dessa expectativa já havia sido incorporada aos preços dos ativos brasileiros, especialmente após a primeira votação. Com a vitória de Lula, os investidores devem recalibrar essas apostas.

"É provável que agora, com a vitória do presidente Lula, o mercado faça uma correção nesta semana, gerando possivelmente uma volatilidade bastante grande no câmbio, nas curvas de juros futuras", afirmou Sung.

O economista também alerta para possíveis reflexos no mercado de títulos públicos, diante da abertura das taxas de juros futuras e da revisão das perspectivas para a economia brasileira.

Para 2027, a Suno Research trabalha com uma cotação do dólar próxima de R$ 5,40, em um cenário de ajuste fiscal mais moderado, inflação mais persistente e menor espaço para o Banco Central acelerar o ciclo de redução dos juros.

Sung avalia que a continuidade de uma política fiscal menos restritiva pode permitir um crescimento econômico um pouco maior do que seria observado em um cenário de ajuste mais profundo. A contrapartida, entretanto, seria uma inflação mais resistente à desaceleração.

OBanco Central teria menos flexibilidade para reduzir a taxa básica de juros, Selic, enquanto os investidores poderiam continuar exigindo um prêmio de risco mais elevado para manter recursos aplicados no Brasil, segundo Sung. Ele pondera, porém, que a trajetória pode mudar conforme o governo apresente suas prioridades econômicas.

O economista lembra que o retorno de Lula à Presidência, em 2023, também foi acompanhado inicialmente por preocupações, mas o avanço do novo arcabouço fiscal contribuiu para melhorar o humor dos investidores naquele ano.

Dólar pode ultrapassar R$ 5,20 já nesta semana

Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, também prevê uma forte correção nos preços dos ativos brasileiros, porque os preços dos ativos ainda refletiam a aposta predominante na vitória de Flávio Bolsonaro.

Antes do 1º turno, quando Lula aparecia como favorito nas pesquisas, o dólar negociava acima de R$ 5,20 e a bolsa brasileira estava em patamares inferiores aos registrados após 4 de outubro.

Com a reeleição do petista, Perri avalia que parte desse movimento poderá ser revertida.

"A bolsa provavelmente abriria em forte queda, talvez até com 'circuit breaker', a gente veria o dólar puxando forte para cima e rodando provavelmente acima de R$ 5,20", disse o economista.

Na avaliação dele, o dólar pode superar esse patamar já no primeiro pregão ou ao longo da semana. A principal dificuldade para Lula, segundo Perri, será reconstruir a confiança dos investidores na condução da política fiscal.

O economista avalia que o presidente precisará apresentar mudanças concretas em relação ao controle das despesas e à trajetória da dívida pública, além de demonstrar disposição para negociar medidas econômicas com um Congresso que não lhe oferece maioria própria.

Para Perri, a composição da equipe econômica e as primeiras declarações do governo reeleito serão determinantes para avaliar se existe espaço para uma redução das pressões sobre o câmbio.

O dólar pode subir até 6% nesta segunda-feira?

André Matos, CEO da MA7 Capital, também é um dos que veem espaço para uma reação intensa da moeda americana no primeiro pregão após a eleição, porque boa parte das posições construídas desde o 1º turno refletia a expectativa de vitória de Flávio Bolsonaro.

Matos estima que o dólar possa subir entre 4% e 6% no primeiro dia de negociações, movimento que levaria a cotação à faixa de R$ 5,20 a R$ 5,30, próxima dos níveis observados antes de 4 de outubro.

A intensidade da reação, segundo ele, também dependerá do comportamento dos investidores que já haviam contratado proteção contra uma valorização da moeda americana.

O executivo ressalta que movimentos mais expressivos nos primeiros dias após o resultado podem refletir ajustes de posição e reações exageradas, sem necessariamente estabelecer uma tendência duradoura.

Dólar pode chegar a R$ 5,65?

Entre os gestores ouvidos pela EXAME, o mais pessimista é Alfredo Menezes, CEO da Armor Capital, que trabalha com a possibilidade de o dólar alcançar a faixa de R$ 5,60 a R$ 5,65.

Ele vê espaço para uma desvalorização de 10% a 12% do real no curto prazo, mas avalia que o câmbio tende a se recuperar antes dos outros ativos brasileiros, porque a entrada de dólares com as exportações, especialmente de petróleo, ajuda a limitar a queda da moeda.

Para a bolsa, a leitura é mais dura. "Ela vai devolver tudo e mais um ponto", disse Menezes, que trabalha com o Ibovespa entre 175 mil e 180 mil pontos no ano que vem.

O que pode fazer o dólar recuar novamente?

Passada a reação inicial ao resultado das urnas, a atenção dos investidores deve se voltar para as primeiras decisões de Lula, especialmente a composição da equipe econômica e os compromissos fiscais para 2027.

Castro Alves, da Avenue, considera que a escolha dos responsáveis pela condução da economia será um dos primeiros fatores capazes de modificar o humor do mercado. "Eu acho que é tentar entender quem vai ser a equipe econômica, quem vão ser os assessores, quem vai ditar o rumo da economia."

Conforme o estrategista, a definição das prioridades do governo também será fundamental para determinar o comportamento do dólar e dos juros. "Até que ponto várias das promessas de campanha vão ser levadas a sério. O que vai ser prioridade primeiro?"

Castro Alves avalia que o país continuará enfrentando dificuldades fiscais em 2027 e 2028, qualquer que fosse o resultado das urnas.

Para ele, a necessidade de equilibrar o Orçamento e conter o avanço da dívida pública limitará a capacidade de qualquer governo de ampliar despesas sem apresentar compensações.

"A questão fiscal vai pesar, o mercado vai cobrar o presidente que for."William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue

Além das medidas diretamente relacionadas às contas públicas, o estrategista destaca a importância de iniciativas que favoreçam o ambiente de negócios e reduzam obstáculos à atividade produtiva.

Sung também considera que o pessimismo inicial pode perder força caso o governo avance em medidas capazes de melhorar as expectativas para a dívida pública.

Perri, da Forum Investimentos, acrescenta que Lula precisará demonstrar mudanças efetivas para reduzir a desconfiança do mercado.

Já Matos, da MA7 Capital, aponta a definição do ministro da Fazenda, as metas fiscais e as prioridades orçamentárias entre os principais fatores a serem acompanhados nas próximas semanas.

A alta do dólar deve durar? Cenário externo também preocupa

Embora a reeleição de Lula possa provocar uma valorização expressiva da moeda americana, os especialistas alertam que a trajetória do câmbio nos próximos meses não dependerá exclusivamente das decisões do governo brasileiro.

Castro Alves, da Avenue, destaca três fatores que têm influenciado o comportamento do real, que são as expectativas relacionadas às eleições, os preços das commodities e o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos.

Os preços mais elevados de produtos exportados pelo Brasil, especialmente o petróleo, têm contribuído para aumentar a entrada de dólares no país e favorecer a moeda brasileira, ao passo que o diferencial de juros também funciona como um fator de sustentação para o real.

O problema, segundo Castro Alves, é que essas condições podem mudar ao longo dos próximos 12 meses. "Eu não sei se o diferencial de juros vai se manter tão elevado assim. Eu não sei se o preço de commodities continua tão elevado assim", disse.

Mesmo fatores que atualmente ajudam a sustentar o real podem perder força à medida que o cenário internacional se transforma. "E eu sei que o otimismo, o pessimismo com a eleição, ele passa também. Está muito concentrado agora", acrescenta Castro Alves.

O especialista cita o comportamento do dólar em 2024 como exemplo de como a combinação entre preocupações fiscais domésticas e fortalecimento da moeda americana no exterior pode provocar movimentos cambiais expressivos.

A possibilidade de uma nova valorização significativa, portanto, não pode ser descartada. Por isso, o estrategista reforça a importância de os investidores não concentrarem todo o patrimônio em ativos expostos exclusivamente ao Brasil.

O que o investidor deve acompanhar agora?

Para avaliar se a possível valorização do dólar após a reeleição de Lula será temporária ou duradoura, os especialistas recomendam acompanhar a evolução de alguns indicadores nas próximas semanas.

Matos, da MA7 Capital, destaca o comportamento dos juros dos títulos públicos de longo prazo, o fluxo de investidores estrangeiros na bolsa brasileira e as primeiras decisões da equipe econômica.

Se o dólar e os juros longos continuarem subindo simultaneamente durante vários pregões, o movimento poderá indicar uma deterioração mais persistente das expectativas em relação ao Brasil.

Por outro lado, anúncios considerados favoráveis à estabilidade fiscal podem reduzir parte das pressões sobre o câmbio.

O executivo também recomenda cautela para quem precisa comprar dólares para viagens ou importações. A estratégia considerada mais prudente é realizar compras graduais, evitando concentrar toda a operação em um único momento de elevada volatilidade.

AutorAna Luiza Serrão
FonteExame
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