Dólar pode voltar para a casa dos R$ 6? Entenda para onde vai a moeda

Logo no começo da sessão desta quarta-feira, 24, o dólar alcançou os R$ 5,22, patamar que não era visto desde 30 de março deste ano, quando chegou a R$ 5,24. Uma combinação de fatores explica a alta da moeda, mas o que mais pesou foi a Super Quarta, onde houve manutenção de juros pelo Federal Reserve (Fed, banco central americano).
E é justamente nesse patamar que o Boletim Focus projeta que a divisa chegue ao final do ano. Há um mês, a estimativa de analistas consultados pelo Banco Central (BC) apontavam que o dólar terminaria 2026 na casa dos R$ 5,17. Na projeção desta semana, houve uma revisão da cotação para R$ 5,20. Em 2027, a previsão é que o câmbio fique em R$ 5,27, enquanto 2028 suba para R$ 5,30. Já 2029, há ainda um salto mais abrupto: R$ 5,40.
Guerra no Irã ainda persiste
Para Gustavo Trotta, sócio da Valor Investimentos, um fator relevante para os mercados continua sendo a guerra entre Irã e Estados Unidos. "Esse foi o grande choque do ano. O conflito começou no fim de fevereiro e atingiu diretamente o Estreito de Ormuz, por onde passa mais de um quinto de todo o petróleo consumido no mundo. Com o fechamento da rota, o preço do petróleo disparou e isso gerou um choque inflacionário global", afirma.
Segundo o especialista, os efeitos desse movimento ainda persistem e ajudam a explicar a cautela dos bancos centrais. "Essa pressão sobre a inflação mantém as autoridades monetárias com o pé no freio. Nos Estados Unidos, inclusive, aumenta o risco de o Fed voltar a elevar os juros caso a inflação mostre resistência. Juros mais altos fortalecem o dólar globalmente e acabam pressionando moedas emergentes, como o real", diz.
Atualmente, Estados Unidos e Irã vivem um impasse sobre a implementação do acordo de trégua assinado recentemente, que prevê uma série de medidas a serem cumpridas nos próximos 60 dias. Entre elas estão o fim do bloqueio naval americano no Estreito de Ormuz, a flexibilização de sanções ao Irã e negociações sobre o futuro do programa nuclear iraniano.
O principal ponto de divergência envolve justamente a questão nuclear. O governo de Donald Trump afirma que Teerã concordou, durante a primeira rodada de negociações, em permitir inspeções internacionais de suas instalações nucleares. O Irã, porém, nega ter assumido esse compromisso e afirma que ainda não iniciou discussões sobre fiscalização ou sobre seu programa nuclear.
A discordância ameaça as negociações previstas no acordo. Trump chegou a afirmar que as tratativas podem ser interrompidas caso o Irã rejeite as inspeções. Já Teerã sustenta que pretende discutir primeiro outras cláusulas do memorando, como a suspensão de sanções, a liberação de recursos congelados no exterior e a normalização da navegação no Estreito de Ormuz.
'Super Quarta' foi o ponto de virada
O movimento de alta do dólar ganhou força após a chamada "Super Quarta" realizada na semana passada, quando os bancos centrais do Brasil e dos Estados Unidos definiram os rumos da política monetária.
Nos EUA, Kevin Warsh iniciou seu mandato de forma mais dura: o Fed decidiu manter os juros entre 3,50% e 3,75% ao ano, interrompendo a sequência de cortes observada nos meses anteriores. Mas mais do que a decisão em si, pesou sobre os mercados a sinalização de que a maioria dos dirigentes do Fed enxerga espaço para uma nova elevação das taxas ainda em 2026, caso a inflação continue resistente.
“Quando os Estados Unidos mantêm ou prometem subir os juros, os títulos públicos de lá — considerados os investimentos mais seguros do mundo — passam a render mais. Isso atrai uma enxurrada de capital global que sai de países emergentes, como o Brasil, direto para os EUA, fortalecendo enormemente o dólar no mundo todo”, explica Rebecca Nossig, analista de investimentos da Nomad.
Enquanto isso, aqui no Brasil, o Copom tomou o caminho inverso e reduziu a taxa básica, a Selic, de 14,50% para 14,25% ao ano. “O problema foi a forma como essa decisão foi lida pelo mercado. O próprio Banco Central, na ata da reunião, reconheceu que as projeções de inflação estão piorando e que o risco de os preços subirem é real”, diz.
Segundo ela, quando o BC corta os juros mesmo admitindo que a inflação está pressionada, os investidores começam a duvidar do compromisso do Brasil em controlar a desvalorização do dinheiro. Essa incerteza gera medo e, no mercado financeiro, o medo se traduz em fuga para ativos de segurança.
A consequência dessa dinâmica é matemáticam, explica Nossig. Com os juros caindo aqui e a perspectiva de ficarem mais altos e atrativos nos Estados Unidos, a diferença de rendimento entre os dois países encolhe. “Esse ‘prêmio de risco’ menor faz com que o investidor estrangeiro não veja vantagem em manter seus dólares investidos no Brasil, preferindo a segurança da economia americana”, afirma.
Esse movimento maciço de saída de dólares do nosso mercado reduz a oferta da moeda por aqui e, consequentemente, faz o seu preço subir para a casa dos R$ 5,20, refletindo a cautela global e as incertezas em relação à economia brasileira.
Saída de gringo impacta dólar
Outra questão que impacta o dólar é a saída de investidor gringo. Em maio, os estrangeiros retiram R$ 14,9 bi da B3, maior saída em quatro anos. “O mesmo investidor que derrubou a cotação trazendo dólares para cá e comprando ativos, agora sai da bolsa brasileira transformando seus reais em dólares e puxando a cotação para a casa dos R$ 5,20”, pontua Felipe Sant'Anna, analista da Axia Investing.
Somado a isso, Sant'Anna também enfatiza a possibilidade “cada dia mais real” de um aumento nas taxas de juros nos Estados Unidos.
“Se isso acontecer, a renda fixa americana volta a ser atraente para o investidor. Por isso, o dólar americano vai saindo de mercados emergentes, como é o caso do Brasil, e volta para casa para a compra de títulos T10, T30, títulos de longo prazo que estão pagando até 5% de rentabilidade em dólar.”
Para o analista, um dólar na casa dos R$ 5,40 e, eventualmente em R$ 5,50, mais próximo das eleições pode ser uma realizada, já que houve uma distorção do preço ligado ao fluxo estrangeiro.
Neste sentido, o cenário eleitoral também pesa, já que ano de eleições é de incerteza fiscal e volatilidade. “Enquanto o cenário não está definido, o mercado coloca um prêmio de risco no dólar. Quanto mais ruído político fiscal, mais pressão na moeda”, comenta Trotta.
Dólar por voltar para casa dos R$ 6?
Apesar da pressão sobre o câmbio, o cenário de um dólar a R$ 6,00 ainda não é considerado o mais provável pelos analistas. "Quando olhamos os últimos 12 meses, a máxima foi de R$ 5,63. Para chegar a R$ 6,00, seria necessária uma piora muito relevante do cenário. Não é o cenário-base hoje, mas também não dá para descartar completamente", afirma Trotta.
Segundo os especialistas, a moeda americana só alcançaria esse patamar em um contexto de "tempestade perfeita", com a combinação de choques externos e domésticos. "Seria preciso ver o Federal Reserve voltando a subir os juros de forma mais agressiva, um eventual fracasso do acordo entre Estados Unidos e Irã, com nova alta do petróleo, além do agravamento das incertezas fiscais e do ambiente eleitoral no Brasil", diz.
Na avaliação de Nossig, o dólar deve continuar marcado por forte volatilidade nos próximos meses, com viés de pressão sobre o real. Embora a cotação possa encostar ou até superar os R$ 6,00 em um cenário extremo, essa não é a projeção central do mercado para 2026. Para isso ocorrer, seria necessária uma deterioração simultânea dos cenários externo e interno, com juros mais altos nos Estados Unidos, fuga de capitais de países emergentes e perda de credibilidade fiscal no Brasil.
Por outro lado, Nossig destaca que há fundamentos econômicos que funcionam como âncoras para evitar uma disparada mais intensa da moeda americana.
"Apesar da redução do diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos, uma Selic de 14,25% continua entre as mais altas do mundo e ainda oferece um retorno atrativo para investidores estrangeiros em renda fixa. Além disso, a balança comercial brasileira segue estruturalmente forte, sustentada pelas exportações do agronegócio, da mineração e do petróleo, garantindo uma entrada constante de dólares no país", afirma.
Para o economista, o risco de o dólar atingir R$ 6,00 existe em um cenário de pânico global ou de forte deterioração fiscal doméstica, mas a tendência mais provável é de continuidade da volatilidade em níveis elevados. "O cenário-base é de um câmbio ainda bastante sensível aos riscos, oscilando em patamares altos e testando novos picos apenas se houver uma piora concreta e significativa dos fatores de risco que hoje preocupam o mercado", conclui.
