Dona da Brastemp e da Consul tem US$ 157 milhões a receber da Casas Bahia: vai ter calote?
A recuperação judicial da Casas Bahia deixou a Whirlpool com US$ 157 milhões em créditos sob risco

A recuperação judicial (RJ) da Casas Bahia colocou em risco US$ 157 milhões, cerca de R$ 840 milhões, em créditos da Whirlpool, dona da Brastemp e da Consul. A fabricante americana já reconheceu perdas de US$ 54 milhões e viu sua rentabilidade despencar na América Latina por causa da crise da varejista brasileira.
Seus executivos esperam recuperar a maior parte dos recebíveis por meio de seguros, mas admitem incertezas sobre a reestruturação da empresa e só preveem uma normalização comercial em 2027.
A exposição foi detalhada no balanço do terceiro trimestre da Whirlpool, divulgado na segunda-feira, 26, e detalhada em uma teleconferência com analistas na terça, 27. Dos US$ 157 milhões em créditos baixados contabilmente, a multinacional espera recuperar US$ 112 milhões (cerca de R$ 599 milhões) por meio de seguros de crédito.
A despesa de US$ 54 milhões (aproximadamente R$ 289 milhões) reconhecida pela companhia inclui US$ 46 milhões em perdas líquidas com os créditos e outros US$ 8 milhões em custos diretamente relacionados à recuperação judicial.
A reportagem procurou o Grupo Casas Bahia para pedir esclarecimentos sobre o caso envolvendo a Whirlpool. A empresa ainda não respondeu, mas o espaço segue aberto.Whirlpool espera recuperar US$ 100 milhões ainda em 2026
O presidente-executivo da Whirlpool, Marc Bitzer, afirmou que a crise afetou o fluxo de caixa da companhia no terceiro trimestre, principalmente pela diferença entre o momento em que os recebíveis foram baixados e a data esperada para o pagamento das indenizações.
O fluxo de caixa livre da fabricante ficou negativo em US$ 1,08 bilhão no período, ante resultado negativo de US$ 907 milhões um ano antes. A Whirlpool não atribui todo esse déficit à varejista brasileira, mas reconhece que a recuperação judicial agravou a situação.
"Esperamos receber a maior parte dos pagamentos de indenizações de seguros relacionados a este evento no quarto trimestre", afirmou Bitzer.
A diretora-financeira (CFO, em inglês) da Whirlpool, Roxanne Warner, detalhou que US$ 150 milhões em recebíveis baixados contabilmente afetaram o fluxo de caixa livre do terceiro trimestre. A expectativa é recuperar cerca de US$ 100 milhões (R$ 535 milhões) entre outubro e dezembro.
A baixa reduziu em US$ 0,82 o lucro por ação da Whirlpool no trimestre, segundo os princípios contábeis americanos (GAAP).
Whirlpool diz que participa das negociações com a Casas Bahia
O Grupo Casas Bahia pediu recuperação judicial em 16 de agosto de 2026, depois de uma tentativa anterior de reorganizar suas dívidas fora da Justiça. Em 21 de outubro, a Justiça de São Paulo autorizou o processamento da recuperação judicial da varejista, que envolve um passivo de R$ 17,3 bilhões.
Ludovic Beaufils, executivo responsável pelos negócios da Whirlpool na América Latina, afirmou que a multinacional participa das discussões sobre o futuro da Casas Bahia. "Há muita incerteza por aí", relatou, ao comentar o andamento da recuperação judicial.
O executivo disse que a decisão judicial da semana anterior iniciou um prazo de 60 dias para a apresentação do plano de reestruturação e que a Whirlpool acompanha o processo de perto. "Obviamente, somos um fornecedor de grande porte (para Casas Bahia), (...) por isso, temos um lugar à mesa", esclareceu.
A fabricante acompanha, principalmente, a capacidade da varejista de recapitalizar suas operações e retomar condições comerciais mais estáveis. "Isso vai levar um pouco de tempo. Teremos mais visibilidade à medida que avançarmos para o final do quarto trimestre", afirmou Beaufils.
Casas Bahia derruba o lucro da Whirlpool na América Latina
O prejuízo da Whirlpool com a recuperação judicial não se limita aos créditos que a empresa tenta recuperar. A Casas Bahia desempenhava um papel relevante na distribuição dos eletrodomésticos mais caros da multinacional no Brasil.
Com a crise da varejista, parte desse volume passou a ser direcionada a outros clientes, mas com uma composição de vendas menos favorável à fabricante. A mudança na composição das vendas pressionou temporariamente a margem operacional.
Os números do balanço mostram a dimensão do impacto. A receita de grandes eletrodomésticos da Whirlpool na América Latina cresceu 6,9% no terceiro trimestre, para US$ 858 milhões. Descontados os efeitos cambiais, o avanço foi de 2,5%, impulsionado pelo aumento no volume vendido.
Casas Bahia também corroeu reajuste de preços da Whirlpool
Em agosto, a Whirlpool aplicou um reajuste de aproximadamente 5% em seus produtos vendidos no Brasil. A empresa conseguiu manter os volumes comercializados, mas a situação da Casas Bahia reduziu parte dos ganhos esperados com os novos preços.
"Na verdade, ficamos bastante satisfeitos com o fato de nossos volumes terem se mantido estáveis durante esse aumento de preço", afirmou Beaufils, mas a RJ provocou uma erosão parcial na realização do reajuste, embora os aumentos continuem sendo praticados.
Agora, a Whirlpool anunciou uma nova rodada de reajustes de até 10% em diferentes mercados da América Latina. Os aumentos devem ter impacto limitado no quarto trimestre, com efeitos mais relevantes na rentabilidade a partir de 2027.
A empresa também pretende moderar parte das promoções da Black Friday, particularmente no México e, em menor grau, no Brasil. As pressões sobre preços e composição das vendas na América Latina também contribuíram para a revisão das projeções globais da Whirlpool.
Já Warner afirmou que a companhia agora espera uma queda de cerca de 1,5% na receita comparável de 2026, refletindo a demanda mais fraca nos Estados Unidos e as dificuldades de preço e mix, especialmente na operação latino-americana.
RJ da Casas Bahia ainda depende de novo financiamento
O futuro do relacionamento comercial entre as duas companhias também depende da capacidade da Casas Bahia de estabilizar suas finanças. A varejista tenta reorganizar suas dívidas e obter novos recursos para manter o funcionamento do negócio.
E essa recuperação judicial abriu caminho para negociações de novas linhas de financiamento, com uma primeira operação de aproximadamente R$ 200 milhões em discussão com o Itaú Unibanco.
Esses recursos, conhecidos como financiamento DIP (debtor-in-possession), podem ser utilizados por empresas em recuperação judicial para bancar despesas essenciais, como salários, fornecedores estratégicos e outros custos operacionais.
A crise atual ocorre após uma tentativa anterior de reorganização financeira. Em 2024, a Casas Bahia renegociou cerca de R$ 4,1 bilhões em dívidas bancárias por meio de uma recuperação extrajudicial, mas a medida não foi suficiente para solucionar o desequilíbrio financeiro.
Os acionistas da Casas Bahia ratificaram o pedido de recuperação judicial em assembleia realizada em 19 de outubro, dois dias antes do deferimento do processamento pela Justiça.
