Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
InvestMercadosACS
14/10/2026
12 min

Dona da Consul e Brastemp quer que o brasileiro troque o lixo da pia pelo triturador

Com a InSinkErator, grupo aposta em educação do consumidor, comércio eletrônico e arquitetos para ampliar uma categoria ainda pouco conhecida no país

Dona da Consul e Brastemp quer que o brasileiro troque o lixo da pia pelo triturador

Todo brasileiro conhece o ritual: descascar a laranja, cortar a cebola, limpar o peixe e, no fim, recolher casca, bagaço e espinha para o saquinho que vai para a lixeira da pia. É esse gesto, repetido milhões de vezes por dia, que a InSinkErator quer abolir das cozinhas do país. A aposta da Whirlpool, companhia americana dona da marca, é convencer o consumidor de que o lugar dos restos de comida é o ralo.

O Brasil está entre os mercados de interesse da companhia para a expansão das trituradoras de pia, segundo Julio Porta, general manager da InSinkErator.

Nos Estados Unidos, onde o equipamento faz parte da rotina, a InSinkErator detém 65% de participação no mercado de trituradoras de pia. Para ganhar protagonismo no Brasil, a estratégia da marca é adaptar a experiência americana a um consumidor que ainda precisa enxergar o equipamento como "indispensável".

“Existe um oceano de oportunidades no mercado brasileiro. Só precisamos entender o Brasil”, afirma Porta, em entrevista à EXAME.

Como criar demanda?

Para Julio Porta, general manager da InSinkErator, a educação do consumidor é a principal prioridade da marca nos próximos anos.

Para Julio Porta, general manager da InSinkErator, a educação do consumidor é a principal prioridade da marca nos próximos anos. (Divulgação)

O mercado global de trituradores de lixo para cozinha tem previsão de atingir US$ 1,8 bilhão em 2026. Até 2035, a previsão é que alcance US$ 3,18 bilhões, com crescimento anual de 7,3%, como mostra um levantamento da Kitchen Garbage Disposals Market.

Apesar da alta demanda por esse dispositivo ao redor do mundo, ele ainda ocupa um nicho no Brasil. Para tirá-lo dessa condição, a InSinkErator quer investir na popularização dos trituradores. Julio Porta salienta que o equipamento precisa entrar na lista de compras de quem monta ou reforma uma cozinha — uma decisão que envolve informação sobre funcionamento, benefícios e estrutura necessária para a instalação.

“O que é o produto, para que serve, onde é instalado e por que preciso ter um? São perguntas que estão na nossa mesa todos os dias”, afirma o executivo.

A educação do consumidor é a principal prioridade da marca para os próximos anos. A estratégia de vendas inclui ações de marketing de influência para apresentar o triturador como um equipamento que pode fazer parte do cotidiano doméstico.

O executivo reconhece, porém, que conhecer o produto não significa comprá-lo. Entre o primeiro contato com a tecnologia e sua instalação em casa, há uma distância que a companhia precisa reduzir.

A venda começa no projeto da cozinha

As diferenças entre os mercados brasileiro e americano também orientam a escolha dos canais de venda. Segundo Julio Porta, nos Estados Unidos é comum que as residências sejam entregues com eletrodomésticos, incluindo o triturador. No Brasil, a escolha dos equipamentos costuma ficar a cargo do comprador do imóvel.

Na avaliação do executivo, essa dinâmica abre espaço para a marca participar da montagem da cozinha. "O consumidor brasileiro valoriza a personalização e escolhe os aparelhos considerando o projeto, os acabamentos e suas preferências", explica.

Por isso, arquitetos, decoradores e designers de interiores são interlocutores importantes para a expansão. A ideia é apresentar a categoria aos profissionais para que o equipamento seja considerado desde a elaboração do ambiente.

“A estratégia de venda começa lá atrás, conversando com o arquiteto, o decorador e o designer de interiores. Eles são peças fundamentais para explicar a categoria aos seus clientes e colocá-la no projeto da cozinha”, diz Porta.

Nos canais de comercialização, os home centers estão entre as prioridades porque aproximam a marca de consumidores que estão construindo ou reformando. O e-commerce cumpre outra função: permite explicar o produto com mais controle sobre a apresentação das informações.

“No canal online, conseguimos contar toda a história do produto de maneira mais fácil. É uma tecnologia que demanda explicação”, afirma.

Segundo o executivo, essas duas frentes concentram grande parte dos esforços de investimento da marca. A venda pela internet também amplia o alcance geográfico da operação, enquanto a companhia trabalha na abertura de canais e de novas regiões de comercialização pelo país.

Sustentabilidade nos lares

A proposta da InSinkErator é associar o triturador à conveniência no descarte de resíduos alimentares. A marca procura mostrar como o equipamento pode ser incorporado ao preparo de refeições e à limpeza da cozinha, reduzindo a necessidade de acumular esses restos na lixeira da pia.

Segundo levantamento da Embrapa, no Brasil, os resíduos orgânicos são cerca de 50% de todo o resíduo sólido urbano gerado. Em seguida estão os recicláveis secos (28%) e os rejeitos (22%).

Julio Porta vê nos hábitos alimentares brasileiros uma oportunidade para a categoria. O consumo de frutas, legumes, verduras e outros alimentos frescos envolve etapas de higienização e preparo que geram resíduos dentro de casa.

"Temos uma variedade muito grande de proteínas animais, frutas, legumes e verduras. E o brasileiro gosta de consumir alimentos frescos. Por outro lado, esse hábito também gera um problema, que é o descarte de resíduos orgânicos. A quantidade de lixo produzida cresce em escala exponencial. Hoje, apenas 0,5% dos resíduos orgânicos são reciclados no Brasil, um percentual extremamente baixo. As usinas de reciclagem existentes não conseguem absorver toda a quantidade de lixo produzida no país".

É nesse impasse com os resíduos alimentares que os trituradores de pia entram em cena.

"O produto foi desenvolvido justamente para oferecer mais facilidade e conveniência. É uma tecnologia que apresenta uma alternativa para uma tarefa cotidiana: dar uma destinação ao lixo produzido dentro de casa".

Para o executivo, demonstrar como o equipamento se encaixa na rotina é parte central do esforço para converter o interesse em compra. Mas, aposta na sustentabilidade como uma peça fundamental para o posicionamento comercial da InSinkErator.

"A maioria das famílias faz a clássica coleta. Colocam o lixo em um saco, deixa na porta de casa e espera um caminhão de aproximadamente dez toneladas passar para recolhê-lo. Na cidade de São Paulo, por exemplo, esse caminhão pode percorrer cerca de 70 quilômetros até o aterro mais próximo para fazer o descarte", explica Julio Porta. "Outra alternativa é a compostagem, que pode ser pouco prática nas grandes capitais. Ela exige espaço, manejo e uma rotina específica para o tratamento dos resíduos. É uma metodologia válida, mas nem sempre viável para a maioria das residências, principalmente nos grandes centros urbanos".

O general manager da InSinkErator também destaca que os trituradores têm um papel eficiente no descarte de resíduos orgânicos, em comparação com outros métodos convencionais. E consequentemente, podem estimular a conscientização dos consumidores sobre a destinação dos residuos.

"Com um triturador de resíduos alimentares, é possível dar uma destinação imediata aos resíduos orgânicos produzidos dentro de casa. O propósito da companhia é apresentar essa tecnologia ao consumidor, explicar seus benefícios, mostrar como funciona a instalação e como o equipamento pode ser incorporado à vida comum".

Sem medo de brigar pelo mercado

No portfólio brasileiro, a InSinkErator comercializa a linha NextGen. Segundo Porta, os produtos incorporam tecnologias para triturar os resíduos mais finamente, melhorar a velocidade de processamento e reduzir o ruído.

Os equipamentos vendidos no país são fabricados nos Estados Unidos e passam pelas adaptações e certificações necessárias para a comercialização no Brasil, de acordo com o executivo.

A importação acrescenta desafios à operação. Porta afirma que as tarifas afetam o negócio, como ocorre com outras empresas que trazem produtos do exterior, mas não representam uma barreira à expansão. Na avaliação dele, a marca consegue manter preços competitivos no mercado nacional.

A Whirlpool, dona da InSinkErator, ocupa a posição de liderança no segmento de eletrodomésticos, especialmente por suas marcas Brastemp e Consul. Esse status se deve ao forte reconhecimento de marca, uma rede de serviços em todo o país e um portfólio de produtos diversificado alinhado com as preferências dos consumidores brasileiros, segundo a consultoria Mordor Intelligence.

A receita líquida trimestral da companhia norte-americana somou US$ 3,5 bilhões no segundo trimestre de 2026 (uma queda de 6,8% em relação ao mesmo período de 2025), enquanto a projeção de receita anual global da companhia é de US$ 15,8 bilhões, informou o balanço, divulgado em agosto.

Expansão até 2030

O cenário do varejo é acompanhado com atenção pela companhia. Diversas empresas brasileiras operam com margens baixas e enfrentam a concorrência de marketplaces e multinacionais, juros altos e disputa por preço. Além disso, grandes representantes do setor estão em recuperação judicial.

Ainda assim, Julio Porta ressalta que a InSinkErator não sofreu impactos negativos em suas vendas em razão das dificuldades do varejo. O executivo atribui essa solidez ao perfil segmentado do negócio e afirma que a demanda continua chegando, ao mesmo tempo que a marca amplia sua distribuição.

Para 2030, a companhia tem a ambição de aumentar a presença dos trituradores nos lares brasileiros, com vendas no comércio eletrônico, presença em home centers e aproximação com profissionais que participam dos projetos de cozinha.

No entanto, não detalhou metas de vendas ou os recursos destinados à expansão.

"Em 2026, estamos com a projeção de crescimento em torno de dois digitos, em comparação com o ano de 2025. Até 2030, queremos reforçar nossa força no mercado nacional".

O caminho apresentado passa por tornar o equipamento conhecido, aproximá-lo dos projetos de cozinha e ampliar as oportunidades de compra. Antes de substituir o “lixinho de pia”, a InSinkErator precisa convencer o consumidor a incluir mais um eletrodoméstico em casa.

“Se as pessoas não souberem que a categoria existe, não temos como chegar a esse potencial consumidor”, diz Porta.

As cidades estão preparadas para os impactos dos trituradores de pia?

Apesar de a sustentabilidade fazer parte da estratégia comercial da InSinkErator, o descarte de resíduos alimentares diretamente na rede de esgoto pode trazer impactos ambientais e aumentar os custos do saneamento. Os efeitos dependem principalmente da infraestrutura de coleta e tratamento de esgoto de cada município e da destinação que esses resíduos receberiam caso fossem descartados no lixo convencional.

Segundo Rodrigo Oliveira, CEO da Green Mining, empresa especializada em gestão de resíduos e economia circular, o triturador não é o suficiente para eliminar a matéria orgânica. O equipamento apenas fragmenta os restos de alimentos, que passam a ser transportados pela água e seguem para a rede de esgoto.

"O volume de lixo orgânico não muda, ele só está pulverizado", afirma Oliveira, em entrevista à EXAME.

Nas cidades que possuem estações de tratamento de esgoto, a incorporação dos resíduos  aumenta a carga orgânica dos efluentes. Segundo o especialista, isso pode exigir maior utilização de produtos químicos e energia para o tratamento da água, elevando os custos operacionais do sistema.

O processo também gera lodo, resíduo sólido resultante do tratamento do esgoto. Com o acréscimo de restos alimentares, esse material pode apresentar uma carga orgânica maior e, posteriormente, ser encaminhado para aterros sanitários.

"Você vai ter um uso de energia maior, um uso de químicos maior e, no final, continua tendo carga orgânica", explica.

Oliveira reforça que a trituração não elimina o potencial de geração de metano, gás de efeito estufa produzido durante a decomposição da matéria orgânica em determinadas condições. Essas emissões podem ocorrer tanto nas etapas de tratamento quanto na destinação final do lodo.

"Os problemas que você teria se esse orgânico fosse direto para um aterro sanitário continuam existindo, mas ele pode estar mais pulverizado e se dissipar por toda a cadeia, com maior uso de energia e de químicos para tratamento", afirma.

O cenário pode ser ainda mais preocupante em municípios que não possuem tratamento adequado de esgoto. Nesses locais, os resíduos triturados podem chegar diretamente a córregos e rios, aumentando a quantidade de matéria orgânica lançada nos corpos d'água.

"Onde não há estação de tratamento, provavelmente há carga orgânica no meio ambiente. Então, ocorre o aumento da poluição quando esse material é diretamente lançado nos córregos", diz Oliveira.

O especialista ressalta que a avaliação ambiental depende também das condições de descarte já existentes em cada cidade. Em aterros sanitários equipados com sistemas de captação de biogás, parte do metano produzido pela decomposição dos resíduos pode ser capturada.

Já nos aterros sem esses sistemas, o gás pode ser liberado na atmosfera. Nos lixões a céu aberto, há ainda o risco de contaminação do solo e das águas subterrâneas pelo líquido produzido durante a decomposição dos resíduos, segundo estudo do Embrapa.

"Tudo depende muito do que existe na cidade em termos de coleta de resíduos e de coleta de esgoto", afirma.

Para Oliveira, uma das principais limitações ambientais do triturador é que o equipamento mistura à água uma matéria orgânica que poderia ser separada e aproveitada por outros processos.

"Triturar o orgânico dificulta essa captura e o uso desse material como potencial energético. Ele se mistura com a água, tornando-se um poluente que depois precisa ser retirado", explica.

Na avaliação do CEO da Green Mining, a compostagem e a biodigestão são alternativas ambientalmente mais adequadas para o tratamento de resíduos alimentares quando existem sistemas apropriados de coleta e processamento.

Na compostagem, a matéria orgânica é transformada em composto que pode ser utilizado no solo. Na biodigestão, a decomposição em ambiente controlado permite a produção e a captura de biogás, que pode ser aproveitado como fonte de energia.

Segundo Oliveira, essas duas alternativas permitem maior controle sobre a decomposição e as emissões associadas aos resíduos orgânicos, além de possibilitarem o aproveitamento do material.

"As duas operações são as melhores do ponto de vista ambiental, porque se tem maior controle das emissões", afirma.

O executivo argumenta que separar os resíduos alimentares antes de misturá-los ao esgoto também evita a necessidade de utilizar recursos adicionais para tratar uma carga orgânica que poderia receber outra destinação.

"Por que contaminar a água para depois descontaminar? Esse esquema vai gerar muito mais gastos, custos e emissões potenciais iguais ou até maiores por causa do uso de energia no tratamento".

AutorMateus Omena
FonteExame
Distribuído por