Dona do colégio mais antigo de São Paulo fatura R$ 2,2 bilhões e não vai parar de comprar escolas
Escola passou por troca de donos, Revolução Paulista e chegou a ser invadido pelo quartel-general das tropas do general isidoro Dias Lopes

O colégio mais antigo em atividade contínua na cidade de São Paulo começou a funcionar em 1858, num prédio de taipa de pilão na região da Luz.
Hoje, a rede que administra a escola tem97 unidades, mais de 100 mil alunos, receita anual de cerca de 2,2 bilhões de reais e prepara uma nova fase de expansão.
O Marista Brasil, responsável pelo Colégio Marista Arquidiocesano desde que os Irmãos Maristas assumiram sua administração em 1908, está estruturando uma área de fusões e aquisições para buscar escolas em diferentes regiões do país.
A estratégia faz parte da revisão do planejamento da organização até 2030. A rede pretende combinar aquisições com investimentos nas unidades atuais e deve ultrapassar a marca de 100 escolas já no próximo ano.
“Eu posso te garantir que o apetite é grande e a gente quer crescer rápido”, diz Alessandro Marques da Luz, novo superintendente do Marista Brasil, em entrevista à EXAME, a primeira concedida à imprensa desde que assumiu o cargo.
Nos próximos quatro anos, a expansão deve ocorrer em duas frentes. De um lado, a rede quer comprar escolas. De outro, pretende ampliar capacidade e modernizar unidades existentes, inclusive colégios com mais de 100 anos de operação.

Qual é a história
O Colégio Marista Arquidiocesano ajuda a explicar o tamanho dessa trajetória. Fundado em 1858 como Colégio Diocesano, ele começou a funcionar na Avenida Tiradentes, no bairro da Luz, em uma construção de taipa de pilão.
Na época, a escola era administrada por freis capuchinhos e padres seculares. Os Irmãos Maristas assumiram a direção em 1908.
A escola ainda ocupava sua sede original quando a Revolução Paulista de 1924 mudou temporariamente sua função. O prédio foi invadido e usado como quartel-general pelas tropas comandadas pelo general Isidoro Dias Lopes durante cerca de um mês.
Poucos anos depois, o colégio iniciou a mudança para a Vila Mariana. A construção da nova sede começou em 1929 e o prédio foi inaugurado em 25 de janeiro de 1935, no aniversário da cidade de São Paulo.
Durante décadas, funcionou como internato e recebeu principalmente alunos homens, muitos deles filhos de famílias do interior paulista. O regime de internato terminou em 1968. Em 1970, a escola passou a aceitar alunas e adotou turmas mistas.
Ao longo da história, passaram por suas salas nomes como o ator Paulo Autran e o ex-presidente Jânio Quadros.
Hoje, o Arquidiocesano integra um grupo de 17 escolas centenárias do Marista Brasil.
Qual é a estrutura da Marista hoje
O tamanho atual do Marista Brasil é resultado da consolidação, feita em 2023, das escolas básicas das três províncias Maristas que atuam no país. A organização passou a administrar 97 unidades, sendo 63 colégios pagos e 34 escolas sociais.
São mais de 100 mil alunos e cerca de 18 mil funcionários, considerando professores, equipes escolares, escritórios regionais e estrutura corporativa. A receita anual gira em torno de 2,2 bilhões de reais.
Segundo Luz, a rede reinveste cerca de 60% do caixa nas próprias operações. Parte desses recursos vai para reformas, modernização e aumento de capacidade de unidades existentes.
Qual o próximo passo do Marista
A próxima etapa será mais agressiva.
O Marista está estruturando uma área específica de M&A para buscar oportunidades no mercado de educação básica. O olhar será nacional.
No caso das escolas pagas, um dos critérios será a capacidade de pagamento das famílias em cada região. A rede não divulga uma meta exata de aquisições até 2030, mas o superintendente diz que a intenção é acelerar. Hoje são 97 escolas. A expectativa, segundo ele, é superar 100 já no próximo ano.
A estratégia acontece em um mercado ainda pulverizado. Luz estima que existam mais de 20 mil escolas particulares no país. “O mercado de Educação Básica no Brasil não vai se consolidar, ele vai se concentrar”, afirma.
De onde vem a receita
As mensalidades continuam sendo a principal fonte de faturamento, mas deixaram de responder sozinhas pelo negócio. Segundo Luz, cerca de 20% da receita já vem de serviços adicionais, como esportes no contraturno, ensino bilíngue, robótica e outras atividades complementares.
O avanço desses serviços acompanha a busca das famílias por jornadas mais longas dentro das escolas.
A rede também monitora outro ponto que pesa sobre o setor: a inadimplência. Segundo o superintendente, os índices variam entre as regiões e são acompanhados localmente.
“A inadimplência hoje é um drama da sociedade”, diz.
A expansão do ensino pago também tem outro objetivo para a organização. Das 97 escolas, 34 são sociais e atendem cerca de 15 mil estudantes sem cobrança de mensalidade. Outros 2 mil alunos recebem bolsas nas unidades pagas.
A intenção da gestão é ampliar os dois braços ao mesmo tempo. “Quanto mais escolas pagas eu tiver, mais escolas sociais naturalmente eu vou ter”, diz Luz.
Nas escolas sociais, o foco de expansão é diferente. A rede vê maior necessidade na região Amazônica, especialmente em áreas do interior.
Em março, o Marista abriu uma escola social em Porto Walter, no Acre, a quase 600 quilômetros de Rio Branco. A unidade atende mais de 400 estudantes em parceria com a prefeitura.
