Dona do Google amplia queima de caixa e lucro vem abaixo do esperado; ação cai 9%
Google Cloud cresce 103%, mas busca fica aquém e empresa recorre a dívida

A Alphabet, dona do Google, fechou o terceiro trimestre de 2026 com o melhor desempenho da história do Google Cloud, mas também com segundo período seguido de queima de caixa. A receita somou US$ 127,6 bilhões, alta de 25% sobre o mesmo período de 2025. Segundo o CEO Sundar Pichai, a companhia já opera em um ritmo anualizado de meio trilhão de dólares em receita.
O número ficou ligeiramente abaixo dos US$ 128,2 bilhões projetados pelo consenso compilado pela LSEG. O lucro líquido disponível aos acionistas caiu 25%, para US$ 26,2 bilhões, e o lucro por ação diluído recuou de US$ 2,87 para US$ 2,12, frente a uma expectativa de US$ 3,02.
Boa parte da queda veio de fora da operação. O resultado financeiro passou de um ganho de US$ 12,8 bilhões para uma perda de US$ 8,2 bilhões, puxado por US$ 8,7 bilhões em perdas com participações acionárias. A própria Alphabet calcula que esse efeito reduziu o lucro líquido em US$ 6,7 bilhões e o lucro por ação em US$ 0,55. Mesmo somando esse valor de volta, o lucro por ação ficaria em US$ 2,67, ainda abaixo do consenso.
O lucro operacional cresceu 30%, para US$ 40,6 bilhões, com margem de 31,8%, acima dos 30,5% de um ano antes. Ainda assim, ficou aquém dos cerca de US$ 43,2 bilhões que o mercado projetava.
A reação do mercado foi imediata. No after market, negócios que ocorrem após o fechamento da bolsa, as ações caíam mais de 9%. Os papéis tinham fechado o pregão regular de hoje em alta.
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Nuvem responde por seis de cada dez dólares novos
O Google Cloud foi a linha que superou as projeções com folga. A receita da divisão saltou 103%, de US$ 15,2 bilhões para US$ 30,7 bilhões, acima dos US$ 28,7 bilhões esperados pela LSEG. Dos US$ 25,2 bilhões de receita adicional que a Alphabet gerou em relação ao terceiro trimestre de 2025, US$ 15,6 bilhões vieram da nuvem. A divisão já representa 24% do faturamento do grupo, ante 15% um ano antes.
A rentabilidade acompanhou. O lucro operacional do Cloud triplicou, de US$ 3,6 bilhões para US$ 11,1 bilhões, e a margem foi de 23,7% para 36,2%. A companhia atribui o desempenho à demanda corporativa por infraestrutura e soluções de inteligência artificial e aos serviços tradicionais do Google Cloud Platform. A venda de sistemas de TPU, os chips de IA desenvolvidos pelo próprio Google, também contribuiu de forma relevante, segundo o balanço.
Os indicadores de uso reforçam a leitura. Os modelos da Alphabet processam cerca de 32 bilhões de tokens por minuto via API, mais de quatro vezes o volume de um ano atrás, e o aplicativo Gemini passou de 1 bilhão de usuários mensais.
Busca cresce, mas abaixo do que o mercado esperava
O Google Services, que reúne busca, YouTube e assinaturas, faturou US$ 96,3 bilhões, alta de 11%. O consenso da Zacks Investment Research apontava US$ 98,4 bilhões. A busca, maior fonte de receita do grupo, avançou 12%, para US$ 63,4 bilhões, abaixo dos cerca de US$ 65 bilhões estimados pela mesma Zacks.
Pichai afirmou que o crescimento no volume de pesquisas, incluindo as comerciais, foi o maior dos últimos cinco anos e atribuiu o avanço aos investimentos em IA. O dado é relevante para quem acompanha o risco de a inteligência artificial reduzir o uso do buscador, ainda que o aumento de consultas não tenha se convertido em receita na mesma proporção que os analistas projetavam.
A publicidade no YouTube cresceu 9%, para US$ 11,2 bilhões, e a rede de anúncios em sites de terceiros ficou praticamente estável, com alta de 1%. Assinaturas, plataformas e dispositivos somaram US$ 14,3 bilhões, avanço de 11%, com o YouTube Music e o Premium chegando a 150 milhões de assinantes, incluindo períodos de teste. Mesmo com crescimento mais lento, o Google Services ampliou a margem operacional de 38,5% para 40,7%.
Por região, os Estados Unidos concentraram o avanço. A receita americana cresceu 39%, para US$ 67,7 bilhões, enquanto Europa, Oriente Médio e África subiram 9% e Ásia-Pacífico, 12%.
Quarenta centavos de cada dólar vão para infraestrutura
Os investimentos em ativos fixos somaram US$ 51,4 bilhões no trimestre, alta de 114%, o equivalente a 40% da receita. O valor ficou abaixo dos US$ 55,2 bilhões esperados pela FactSet. No acumulado de 2026, o capex chega a US$ 132 bilhões.
Esses gastos começam a aparecer no resultado. A depreciação subiu 49%, para US$ 8,4 bilhões, e as despesas com pesquisa e desenvolvimento avançaram 36%, para US$ 20,6 bilhões. Os custos de pesquisa em IA compartilhada foram de US$ 4,5 bilhões para US$ 7,7 bilhões.
O caixa gerado pelas operações caiu 13%, para US$ 42,3 bilhões, e não cobriu o investimento. O fluxo de caixa livre ficou negativo em US$ 9,1 bilhões, bem pior que a queima de US$ 2,3 bilhões que analistas ouvidos pela CNBC esperavam.
Em 12 meses, o fluxo de caixa livre encolheu 73%, de US$ 73,6 bilhões para US$ 19,7 bilhões.
Recompra sai, dívida e novas ações entram
A mudança mais significativa para o acionista está na estrutura de capital. A Alphabet não recomprou nenhuma ação no trimestre nem no ano, depois de ter destinado US$ 39,8 bilhões a recompras nos nove primeiros meses de 2025. Fez o caminho inverso este ano, emitiu 36 milhões de novas ações entre julho e setembro, levantando US$ 12,4 bilhões, e captou US$ 28,7 bilhões em títulos de dívida.
Em 2026, a empresa já levantou US$ 85,2 bilhões com dívida, US$ 42,9 bilhões com ações ordinárias e US$ 19,1 bilhões com ações preferenciais conversíveis.
A dívida de longo prazo passou de US$ 46,5 bilhões em dezembro para US$ 125,1 bilhões em setembro, e a despesa com juros no trimestre foi de US$ 143 milhões para US$ 967 milhões. O número de ações em circulação subiu de 12,09 bilhões para 12,29 bilhões no período, e ainda restam US$ 27,6 bilhões disponíveis no programa de emissão de ações a mercado.
O colchão financeiro segue robusto. A companhia encerrou setembro com US$ 265,1 bilhões em caixa e aplicações, mais que o dobro do fim de 2025, e seus ativos totais ultrapassaram US$ 1 trilhão. O dividendo trimestral foi mantido em US$ 0,22 por ação, a ser pago em 14 de dezembro a quem estiver na base em 7 de dezembro.
