Dona do Google divulga balanço hoje: Gemini atrasado pode ofuscar receita recorde

A Alphabet, controladora do Google, divulga o balanço do segundo trimestre nesta quarta-feira, 22, após o fechamento do mercado americano. A companhia abre, junto com a Tesla, a temporada de resultados das chamadas "Sete Magníficas" e deve dar o tom para os resultados de Microsoft, Meta, Amazon e Nvidia nas semanas seguintes.
O consenso de mercado projeta lucro por ação entre US$ 2,87 e US$ 2,95, o que representaria um crescimento de até 24% ante o mesmo período do ano passado. Para a receita bruta, as estimativas variam entre US$ 116,9 bilhões e US$ 117 bilhões, alta de 21% a 24% na comparação anual. Descontados os repasses que o Google faz a parceiros por direcionamento de buscas e anúncios, os chamados custos de aquisição de tráfego (TAC), a receita líquida projetada é de cerca de US$ 101 bilhões. No mesmo trimestre do ano passado, a Alphabet reportou lucro líquido de US$ 28,2 bilhões, com EPS de US$ 2,31 sobre receita de US$ 96,4 bilhões.
Nuvem segue como o principal motor de crescimento
O Google Cloud continua sendo a métrica mais observada pelos investidores. As projeções de receita para a divisão variam entre US$ 22,4 bilhões e US$ 22,79 bilhões, o que representaria um crescimento entre 63% e 67% ante o mesmo trimestre de 2025. As casas mais otimistas apontam para uma aceleração ainda maior, de até 70% no trimestre, favorecida por um uso mais eficiente da capacidade computacional própria da empresa. Já a receita de publicidade deve crescer a um ritmo bem mais lento, de cerca de 13,7%.
Outro indicador que deve chamar atenção é o volume de contratos ainda não entregues pela companhia, as chamadas obrigações de performance remanescentes (RPOs). A expectativa é de que esse número, ainda não reconhecido como receita, ultrapasse US$ 488,1 bilhões, alta de 351% ante o mesmo trimestre do ano passado. É um sinal do tamanho da fila de contratos de nuvem e inteligência artificial ainda por cumprir.
A companhia já havia surpreendido o mercado no primeiro trimestre deste ano, quando o Google Cloud cresceu 63% na comparação anual, a maior taxa desde que a empresa passou a divulgar os números da divisão separadamente, em 2020.
Atraso do Gemini 3.5 Pro preocupa Wall Street
Um dos temas mais sensíveis da teleconferência de resultados deve ser o atraso no lançamento do Gemini 3.5 Pro, modelo que a empresa vinha preparando para competir com rivais em ferramentas de programação por inteligência artificial e tarefas autônomas mais complexas. Segundo reportagem da Bloomberg, o lançamento, inicialmente previsto para junho, foi adiado por preocupações internas sobre se o modelo estava à altura da concorrência.
Um porta-voz do Google rebateu a informação, afirmando que a empresa está lançando modelos rapidamente e mantendo custos competitivos para os clientes. Segundo o porta-voz, o Gemini 3.5 Pro, uma versão atualizada do modelo Flash e outros modelos estão sendo testados com parceiros.
O suposto atraso ganha peso porque coincide com a saída de nomes importantes da equipe de inteligência artificial da empresa. A Alphabet perdeu para concorrentes uma das principais lideranças do Gemini, Noam Shazeer, e o executivo John Jumper, vencedor do prêmio Nobel e figura-chave do Google DeepMind. "Google está perdendo terreno em programação por IA, uma preocupação real e crescente", disse Dave Wagner, gestor de portfólio da Aptus Capital Advisors, à Reuters.
Do lado positivo, a Alphabet ganhou fôlego na semana depois que a publicação The Information revelou que o Google desenvolve um novo chip, batizado internamente de "Frozen v2", capaz de rodar modelos do Gemini com mais eficiência ao incorporar partes da arquitetura do modelo diretamente no hardware. Essa tecnologia poderia processar de 6 a 10 vezes mais tokens de inteligência artificial por unidade de energia do que as atuais unidades de processamento (TPUs) da empresa, com previsão de uso a partir de 2028.
Capex bilionário e nova rodada no mercado de dívida
O ritmo de investimentos em infraestrutura de inteligência artificial segue como o principal fator de risco para a ação. A companhia já havia elevado a projeção de capex para 2026 para uma faixa entre US$ 175 bilhões e US$ 185 bilhões, ao divulgar o balanço do quarto trimestre de 2025, em fevereiro. Essa projeção subiu ainda mais em abril, para uma faixa entre US$ 180 bilhões e US$ 190 bilhões.
Para o trimestre, a estimativa é que o capex tenha somado cerca de US$ 45 bilhões. Anni Sen, sócia-gerente da BluBird Capital, citada pelo MarketWatch, avalia que esse número pode surpreender para cima, já que gargalos no fornecimento de memória vêm pressionando o custo dos componentes de data center.
Para sustentar esse volume de investimento, a Alphabet tem recorrido cada vez mais ao mercado de dívida. A companhia levantou cerca de US$ 40 bilhões em captações neste ano e anunciou um plano de captar outros US$ 85 bilhões por meio de uma oferta de ações, que inclui um aporte da Berkshire Hathaway. A companhia já havia ampliado uma captação global de dívida em fevereiro, movimento inédito no setor de tecnologia desde a bolha da internet.
Rebecca Wetteman, CEO da consultoria de tecnologia Valoir, resume a preocupação do mercado ao afirmar, segundo o MarketWatch, que a Alphabet e as demais provedoras de inteligência artificial precisam mostrar que suas ferramentas estão sendo adotadas em escala dentro das empresas, e não apenas em uso individual, sob risco de o retorno sobre o investimento em infraestrutura não se confirmar como o mercado espera.
Como a ação da Alphabet chega ao balanço
Apesar das incertezas em torno da inteligência artificial, a ação da Alphabet tem performado melhor que a de suas rivais recentemente. Os papéis subiram cerca de 4% nos últimos três meses, enquanto a Amazon ficou estável, a Meta caiu quase 6% e a Microsoft recuou 5% no mesmo período.
No acumulado do ano, a ação da Alphabet tem alta nominal de 9%. A companhia ultrapassou os US$ 4 trilhões em valor de marcado e chegou a disputar com a Nvidia o posto de empresa mais valiosa do mundo.
Na avaliação da Zacks Research, a ação negocia a um múltiplo de 24 vezes o lucro projetado, patamar considerado razoável frente às pares de tecnologia e próximo da média do S&P 500. A companhia acumula 13 trimestres consecutivos de lucro acima do consenso, com surpresa média de 34,43% nos últimos quatro balanços, o que ajuda a explicar por que a casa de análise independente atribui à ação sua classificação mais otimista, de "compra forte".
Resta saber se o resultado desta quarta-feira vai repetir essa sequência positiva ou se o atraso do Gemini e o volume crescente de investimento em inteligência artificial vão pesar mais na decisão dos investidores.
*com agências internacionais
