Dona do parque de neve e de hotéis em Gramado aposta numa praia escondida na Bahia para crescer
Gramado Parks assume gestão do Tree Bies, em Subaúma, enquanto busca hotéis prontos para ampliar operação fora do Rio Grande do Sul

RESUMO +
A Gramado Parks, dona do parque de neve Snowland, assumiu a gestão do resort Tree Bies, em Subaúma, na Bahia, na primeira operação hoteleira do grupo fora do Rio Grande do Sul. A companhia aposta na administração de hotéis de terceiros e projeta faturar R$ 82 milhões com hotelaria neste ano, ante R$ 52 milhões em 2023.
Décadas atrás, um belga chegou ao litoral norte da Bahia, se encantou por uma praia pouco conhecida e comprou um grande terreno por ali.
Primeiro, construiu uma casa. Depois vieram flats e, com o tempo, um resort. A família continuou dona do negócio enquanto Subaúma, distante do circuito mais conhecido de resorts da região, permaneceu quase fora do radar do turismo nacional.
Agora, esse resort virou a porta de entrada da Gramado Parks, dona do parque de neve Snowland e de hotéis em Gramado, em uma nova fase da sua operação hoteleira.
O grupo assumiu a gestão do Tree Bies Beach Resort, que continua pertencendo às duas famílias belgas fundadoras. É a primeira operação de hotelaria da companhia fora do Rio Grande do Sul.
A escolha acontece num momento em que a Gramado Parks tenta transformar a gestão de hotéis de terceiros em uma nova avenida de crescimento.
Desde que Ronaldo Costa Beber assumiu a gestão da companhia, em 2023, o faturamento da hotelaria passou de 52 milhões de reais para uma projeção de 82 milhões de reais neste ano. Agora, o grupo procura outros ativos prontos para administrar e negocia novas operações no Nordeste.
“Estamos focando em expandir em hotelaria, pegando imóveis prontos que possam passar por uma transformação. Hoje em dia é muito difícil operar um hotel autônomo”, diz Beber.
O plano para os próximos anos é aumentar o número de hotéis administrados, ganhar escala nas compras e na distribuição e diluir despesas corporativas entre mais empreendimentos. E
m alguns casos, a empresa também poderá avaliar a transformação dos ativos em multipropriedade, modelo em que diferentes compradores possuem frações de um mesmo imóvel e dividem seu período de uso.
Por que a Gramado Parks quer administrar hotéis de terceiros
A aposta em hotéis que já estão de pé nasce de uma mudança iniciada dentro da própria Gramado Parks.
Quando Beber assumiu a gestão da companhia, em 2023, ele diz ter encontrado uma operação hoteleira com espaço para crescer. A Gramado Parks nasceu com forte ligação com a incorporação de empreendimentos de multipropriedade, e seus hotéis funcionavam também como parte desse modelo.
O primeiro passo foi tratar a hotelaria como um negócio que precisava se sustentar por conta própria.
A empresa criou uma escola interna de hotelaria e passou a dedicar mais atenção à operação dos empreendimentos. Segundo Beber, três hotéis administrados pelo grupo passaram a figurar entre os dez mais bem avaliados do país no TripAdvisor.
O resultado também apareceu no faturamento. A frente hoteleira saiu de 52 milhões de reais, em 2023, para uma projeção de 82 milhões de reais.
Foi esse desempenho que levou a companhia a procurar negócios fora de sua base tradicional.
Um dos primeiros movimentos foi assumir a gestão doDivisa Experience Resort, em São Francisco de Paula, no Rio Grande do Sul. O empreendimento pertence a outro grupo. Depois dessa experiência, a Gramado Parks começou a receber e buscar propostas em outros estados.
“Por ter dado certo essa estratégia, demos um passo adiante, que foi comprar hotéis fora do estado ou assumir a gestão de terceiros”, diz Beber.
A lógica é financeira. Uma rede maior consegue negociar compras de alimentos, produtos de limpeza e itens de hospedagem em condições diferentes de um hotel independente. Também pode dividir equipes corporativas, sistemas e estrutura comercial entre várias unidades.
“Reduz custos do empreendimento e, ao mesmo tempo, dilui despesas corporativas, porque está rateando em mais empreendimentos”, diz Beber.
A escala também pesa na gestão das diárias. A empresa usa sistemas de tarifa flutuante, modelo em que o preço dos quartos varia de acordo com demanda, período, ocupação e outros fatores.
Para Beber, essa estrutura se tornou difícil de sustentar para hotéis independentes que operam sem rede ou escala.
O que a Gramado Parks encontrou em Subaúma
O Tree Bies reúne diferentes modelos de hospedagem numa mesma propriedade.
Segundo Beber, são 32 quartos de hotelaria tradicional, 28 unidades de multipropriedade e cerca de 30 flats. A Gramado Parks pretende organizar essas unidades em um pool hoteleiro, sistema em que apartamentos de diferentes proprietários entram numa operação conjunta de hospedagem.
O imóvel continua nas mãos das famílias fundadoras. A Gramado Parks entra como operadora.
Inicialmente, a empresa pretende rever enxoval, decoração, cardápio e amenities, os itens de uso oferecidos nos quartos e banheiros.
Na avaliação de Beber, o hotel atendia principalmente o público baiano e explorava pouco a possibilidade de alcançar visitantes de outras regiões.
A companhia também pretende conectar o Tree Bies à sua rede de operadores, agentes de viagens e canais comerciais.
O desafio é fazer isso sem transformar o resort em uma versão dos grandes complexos que já existem no litoral norte baiano.
Beber acredita que Subaúma pode ocupar outro espaço: uma região em que a hospedagem serve como ponto de partida para praias, lagoas e outros atrativos naturais, em vez de concentrar toda a experiência dentro do resort.
“O mercado de hotelaria do norte da Bahia tem muito resort em que você entra e não sai. Aqui existe potencial para fomentar os atrativos turísticos da região”, diz Beber.
Uma praia que começou a atrair novos investimentos
A Gramado Parks não está chegando sozinha.
Recentemente, outro investidor belga também passou a colocar dinheiro em Subaúma.
Antoine Painblanc, empresário que começou no setor de hospitalidade trabalhando como barman na Bélgica, está investindo cerca de 120 milhões de reais na construção do Nanö Beach Hotel Subaúma.
O projeto terá 30 bangalôs à beira-mar e previsão de inauguração em 2026. A diária média deve ficar próxima de 3.000 reais, dependendo da categoria.
Painblanc chegou à região em 2017 e começou com um beach club. Com o tempo, percebeu que havia clientes interessados em permanecer mais dias na praia, mas poucas opções de hospedagem de alto padrão.
A resposta foi construir o hotel.
O movimento ajuda a explicar o interesse recente pela região. Subaúma fica no município de Entre Rios e está a cerca de 99 quilômetros de Salvador. Também está depois de destinos que já concentram resorts e hotéis conhecidos, como Praia do Forte e Costa do Sauípe.
Para Beber, justamente o fato de a região ainda não ter o mesmo volume de empreendimentos cria espaço para novos formatos de hospedagem.
A aposta da Gramado Parks é que Subaúma passe a atrair projetos menores, mais ligados à natureza e às experiências no destino.
Como está a Gramado Parks
A nova estratégia começa três anos depois de uma das fases mais delicadas da história da Gramado Parks.
Em 2023, empresas do grupo entraram em recuperação judicial depois de um período de expansão marcado por novos empreendimentos e pelo modelo de multipropriedade.
Na época, a dívida total do grupo chegou a ser estimada em cerca de 1 bilhão de reais. Esse número, porém, reúne obrigações diferentes e não corresponde ao valor atualmente sujeito à recuperação judicial.
Segundo Beber, a companhia está próxima de encerrar o período de fiscalização posterior à homologação do plano de recuperação. A saída formal da recuperação judicial, porém, depende de decisão da Justiça.
Esse contexto influencia a estratégia de crescimento.
A Gramado Parks ainda tem obras próprias para concluir e projetos anunciados que exigem capital. Operar ativos de terceiros permite avançar em outra direção: crescer em número de quartos administrados sem necessariamente precisar construir cada hotel.
