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Sacre Investimentos
Mercado ImobiliárioACSFII
29/07/2026
6 min

Dos Correios a hotéis falidos, Moura Dubeux compra ativos para reviver Salvador

Além do prédio dos Correios, a Moura Dubeux tem um plano mais amplo para a capital da Bahia, atuando na recuperação de outros imóveis emblemáticos, incluindo hotéis abandonados

Dos Correios a hotéis falidos, Moura Dubeux compra ativos para reviver Salvador

Salvador, Bahia – Quando era criança, Diego Villar, CEO da Moura Dubeux, passava pelo imponente prédio dos Correios no bairro da Pituba, em Salvador, e se impressionava com a altura da estrutura, incomum para a cidade, que se destacava na paisagem urbana. Mais de três décadas se passaram e agora, à frente da incorporadora, ele arrematou o imóvel em leilão por cerca de R$ 98 milhões, após 28 tentativas anteriores.

"O bairro da Pituba era de classe média alta. Por conta de todos os terrenos já estarem ocupados, ele foi perdendo a vocação imobiliária. A própria crise dos Correios, por exemplo, fez com que o ativo se deteriorasse, necrosando ainda mais o entorno. Afinal, ninguém quer um prédio abandonado e sem uso na vizinhança. Ver hoje a Moura Dubeux comprar esse ativo me deixa bastante feliz", afirma o CEO à EXAME.

O prédio ocupa um terreno de cerca de 35 mil metros quadrados, com potencial construtivo estimado em 140 mil metros quadrados de área privativa. O plano é implodir a estrutura atual de 20 andares para aproveitar ao máximo o potencial do terreno, permitindo a construção de um empreendimento residencial integrado ao bairro.

"Do ponto de vista de desenvolvimento imobiliário, se apenas fizéssemos o retrofit do prédio para transformá-lo em apartamentos, não seria possível pagar o valor que desembolsamos pelo terreno, porque isso deixaria muito potencial na mesa. O ideal é, como o prédio apesar de bonito não é histórico, provavelmente implodi-lo e desenvolver um novo grande projeto na cidade, aproveitando todo o potencial do terreno da melhor forma possível", explica Villar.

A operação se insere em um contexto mais amplo. Salvador passou por uma década de crise no mercado imobiliário, combinando efeitos da Lava-Jato,fenômenos de distrato e a própria crise interna dos Correios, que resultou em prédios abandonados e bairros parcialmente desvalorizados.

"Acresce a isso fatores naturais, como a maresia em áreas de beira-mar, que aceleram a degradação dos imóveis", diz o executivo.

prédio ocupa um terreno de cerca de 35 mil metros quadrados, com potencial construtivo estimado em 140 mil metros quadrados de área privativa

O prédio ocupa um terreno de cerca de 35 mil metros quadrados, com potencial construtivo estimado em 140 mil metros quadrados de área privativa (Divulgação)

Os Correios passam por uma crise financeira marcada por prejuízos bilionários, patrimônio líquido negativo e alta nos gastos administrativos e judiciais. A estatal acumula 14 trimestres seguidos de resultados negativos, impulsionada pelaconcorrência no setor de encomendas, queda nas postagens internacionais e provisões para precatórias e processos trabalhistas.

O prédio da estatal em Salvador encerrou as atividades em 2018, permanecendo sem uso e sofrendo degradação e furtos de materiais. Os Correios tentaram vendê-lo em mais de 20 licitações, mas os leilões falharam sucessivamente devido ao valor elevado de avaliação inicial e à complexidade de requalificação da grande estrutura.

Moura Dubeux e as perolas de Salvador

Diego Villar explica que, embora hoje a Moura Dubeux tenha uma grande projeção até mesmo no Sudeste, o reconhecimento é recente, de menos de cinco anos para cá. O executivo atribui isso à ambição da companhia de ser a referência nacional em incorporação e engenharia, mesmo mantendo sua atuação focada exclusivamente na região Nordeste.

Além disso, a companhia persistiu no mercado soteropolitano, apesar da crise que afetou grandes construtoras nacionais, como Odebrecht e OAS, e o mercado imobiliário local entre 2010 e 2014. "Nos destacamos por ser uma das poucas incorporadoras a apostar na cidade, consolidando nossa posição no mercado de média e alta renda, com participação estimada entre 20% e 25%", afirma o executivo.

Além do prédio dos Correios, a Moura Dubeux tem um plano mais amplo para a capital da Bahia, atuando na recuperação de outros imóveis emblemáticos, incluindo hotéis que faliram. A proposta da empresa é substituir esses espaços por novos projetos capazes de movimentar bairros e atrair novos investimentos.

Montagem editorial reúne prédios icônicos de Salvador adquiridos ou requalificados pela Moura Dubeux, incluindo o antigo edifício dos Correios, o Bahia Othon Palace, o Pestana e outras construções da orla.

Moura Dubeux aposta na transformação de imóveis emblemáticos de Salvador, como o antigo prédio dos Correios, o Bahia Othon Palace e o Pestana, em novos empreendimentos residenciais.

Entre os principais projetos estão o Othon, em Ondina, considerado um dos maiores desafios de engenharia da companhia, no qual a empresa pretende preservar a estrutura original, tratada como uma “joia” arquitetônica, para criar um complexo com uso residencial, hoteleiro e corporativo.

Inaugurado em 1975, o hotel fechou as portas em novembro de 2018, quando a rede Hotéis Othon entrou com pedido de recuperação judicial. A Moura Dubeux foi a vencedora do leilão para a compra do ativo, ocorrido em dezembro de 2023, por por R$ 109 milhões, somados impostos, taxas e dívida.

Ao longo de quatro décadas, o hotel cinco estrelas hospedou diversas personalidades, como o ex-rei da Espanha Juan Carlos, o ex-presidente Juscelino Kubitschek e os cantores Caetano Veloso, Maria Bethânia e Milton Nascimento.

O Pestana, no Rio Vermelho, também passa por um processo de retrofit para se transformar no projeto residencial Ciano, classificado pelo CEO como um "sucesso de vendas". O hotel foi inaugurado na década de 1970 como Meridien.

Mais tarde, ele passou a ser administrado pelo grupo português Pestana, vivendo seu apogeu nas décadas de 1990 e 2000. A torre de 22 andares tinha vista para o mar, 433 quartos, piscinas, quadras de tênis, spa, academia e áreas para eventos, hospedando celebridades como Pelé, Luciano Pavarotti e Hillary Clinton.

Em 2016, o grupo desativou a torre principal e passou a operar em modelo reduzido, encerrando definitivamente as atividades em 2017. Desde então, o prédio permaneceu fechado.

Já o Sol Bahia, em Patamares, que será demolido após três anos de negociação para dar lugar ao Mood Patamares, um condomínio com três torres que deve homenagear a marca original do hotel. Antes da aquisição pela Moura Dubeux, o prédio estava abandonado e chegou a ser invadido, mas o proprietário original conseguiu retirar os ocupantes.

Enquanto o hotel permanecia sem operação, o entorno continuou recebendo novos empreendimentos e se desenvolvendo. A compra do imóvel foi resultado de uma negociação que durou pelo menos três anos com uma família proprietária do ativo.

"Muitos equipamentos hoteleiros envelheceram e tornaram-se inviáveis como um todo devido a mudanças no mercado, como o surgimento do Airbnb e a evolução para o conceito de hotelaria moderna. Isso fez com que hotéis em localizações excelentes perdessem sua função original e acabassem fechados", lamenta o CEO da Moura Dubeux, que agora tenta repaginar o mercado imobiliário da capital baiana.

A incorporadora também ocupará parte do terreno do antigo campus da Universidade Católica do Salvador (UCSal), localizado na Avenida Cardeal da Silva, com um novo empreendimento residencial da marca Ún1ca. O projeto, batizado de Ún1ca Cardial, terá mais de 650 unidades e um Valor Geral de Vendas (VGV) estimado em R$ 200 milhões, com lançamento previsto para o quarto trimestre de 2026.

*A reportagem viajou para Salvador a convite da Moura Dubeux

AutorLetícia Furlan
FonteExame
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