Duas décadas depois do 11 de Setembro, EUA seguem vulneráveis ao terrorismo
Segundo instituto, país enfrenta agora uma nova era de riscos relacionados ao terrorismo, e deve aprender do passado em preparação para o terror em uma era globalizada

Duas décadas e meia depois dos ataques de 11 de setembro, os Estados Unidos enfrentam um cenário de ameaças terroristas mais amplo e sofisticado, mas ainda apresentam lacunas importantes na preparação para novos ataques, afirma um estudo do Council on Foreign Relations (CFR), assinado pelos especialistas Bruce Hoffman e Farah Pandith.
Segundo a pesquisa, a ameaça terrorista evoluiu ao longo dos anos e, atualmente, os drones estão entre os principais riscos emergentes para o território americano.
A tecnologia ganhou espaço tanto em guerras convencionais quanto em operações de grupos terroristas durante os conflitos entre Rússia e Ucrânia, no Oriente Médio e na guerra entre EUA e Irã.
Apesar da expansão desse tipo de ameaça, a capacidade dos EUA de proteger cidades, infraestrutura crítica, instalações militares e outros alvos permanece insuficiente, segundo o CFR. Apenas no primeiro trimestre de 2025, a Administração Federal de Aviação registrou mais de 400 voos ilegais de drones sobre aeroportos dos EUA.
As Forças Armadas americanas também registraram 350 incursões de drones em mais de cem bases, enquanto o Departamento de Segurança Interna detectou cerca de 150 drones por dia cruzando a fronteira entre os Estados Unidos e o México no primeiro semestre de 2025. Para os autores, a resposta governamental ainda não corresponde à dimensão do problema.
Novas fronteiras, velhos erros
Ex-combatentes talibãs mostram suas armas: atualmente, grupo rebelde governa o Afeganistão (Aref Karimi/AFP)
Um episódio do podcast do CFR destaca que o medo após o 11 de Setembro era generalizado e ajuda a explicar as decisões subsequentes do governo de George W. Bush. Embora a Al-Qaeda não tenha conseguido repetir um ataque da mesma dimensão e as medidas adotadas tenham evitado novas tragédias, na época havia o temor de ataques ainda mais graves, agravado pelos atentados com antraz.
Segundo o CFR, a chamada guerra ao terror não produziu uma vitória decisiva porque seus objetivos extrapolavam o que o poder americano era capaz de alcançar.
Ao contrário de uma guerra convencional contra um Estado, Washington enfrentava uma crise de natureza política e cultural, mas subestimou a complexidade do problema e superestimou sua capacidade de impor a democracia e a liberdade.
O episódio também ressalta que prevenir crises é mais eficaz do que tentar resolvê-las depois que acontecem: para Walter Russell Mead, professor da Universidade da Flórida e especialista entrevistado no podcast, os Estados Unidos estariam em melhor situação caso tivessem impedido o 11 de Setembro, Israel tivesse evitado o ataque de 7 de outubro ou o Ocidente tivesse dissuadido a invasão russa da Ucrânia.
O desafio, portanto, é identificar ameaças com antecedência e preparar respostas adequadas.
Nesse âmbito, em um mundo interconectado, o CFR destaca a dificuldade das autoridades em integrar diferentes elementos do ambiente de ameaças e em prevenir possíveis ataques.
Atualmente, o cenário é mais difícil: em vez de um único adversário claramente definido, como foi a Al-Qaeda, os EUA precisam lidar com organizações terroristas, grupos extremistas domésticos, indivíduos radicalizados e redes que combinam ideologia, crime e tecnologia.
Essa fragmentação também mudou a forma como a radicalização ocorre. Segundo Hoffman e Pandith, grupos terroristas passaram a explorar indivíduos que agem inspirados por organizações, líderes ou causas, mesmo sem integrar formalmente estruturas extremistas.
As redes sociais ampliaram esse fenômeno. O Estado Islâmico foi particularmente eficaz no uso dessas plataformas para recrutamento e arrecadação de recursos, chegando a atrair cerca de 53 mil combatentes estrangeiros de 80 países, segundo o estudo.
Para os pesquisadores, algoritmos e campanhas digitais permitem que grupos extremistas adaptem suas mensagens a diferentes públicos e explorem emoções, desinformação e ressentimentos.
As gerações que cresceram após o 11 de Setembro, altamente familiarizadas com ambientes digitais, também se tornaram um público mais suscetível a estratégias de radicalização.
A guerra desse ano entre os Estados Unidos e o Irã pode ampliar esse risco, avalia o CFR. Conflitos no Oriente Médio historicamente alimentaram a narrativa de grupos extremistas de que o Ocidente estaria em guerra contra o Islã, criando condições para novos processos de radicalização e para possíveis ações de retaliação contra alvos americanos e israelenses.
Outro fator de preocupação é a inteligência artificial. O estudo aponta que grupos terroristas já começam a utilizar a tecnologia para produzir conteúdo falso e propaganda, e que seu uso pode avançar para deepfakes, recrutamento, vigilância, seleção de alvos e aprimoramento de campanhas de comunicação.
Ao mesmo tempo, os governos também poderão utilizar a IA para identificar vulnerabilidades, antecipar atividades terroristas e desenvolver mecanismos de defesa. A tendência, segundo os autores, é de uma competição tecnológica crescente entre governos e organizações extremistas.
O CFR alerta, porém, que os EUA correm o risco de repetir um erro observado antes dos atentados de 11 de Setembro: reduzir a prioridade dada ao combate ao terrorismo. A Estratégia de Segurança Nacional de 2025, segundo o estudo, sequer incluiu o contraterrorismo entre suas oito principais prioridades de segurança.
A estratégia nacional de contraterrorismo, divulgada em maio de 2026, identificou narcoterroristas e gangues transnacionais, extremistas islâmicos e extremistas violentos de esquerda como principais ameaças, mas, segundo o CFR, tratou de forma limitada outras ameaças relevantes, como terrorismo patrocinado por Estados, ciberterrorismo e extremismo violento de direita.
Para o CFR, portanto, os Estados Unidos deveriam ampliar os investimentos em contraterrorismo, retomar programas destinados a reduzir a atração por ideologias extremistas e fortalecer iniciativas comunitárias de prevenção.
O país também poderia adotar mecanismos semelhantes aos criados pela União Europeia para estabelecer limites aos riscos associados às plataformas digitais.
