Duas frentes de problemas: as ameaças a Friedrich Merz na Alemanha
Entre incidentes com a Rússia e a ascensão da direita na Alemanha, mandato de Merz segue incerto e com baixa aprovação — e os imbróglios podem estar relacionados

O mandato do chanceler alemão, Friedrich Merz, enfrenta uma guerra de duas frentes: por um lado, alegações de que a Rússia está por trás de um possível atentado em um aeroporto alemão tensionam as relações diplomáticas e suscitam pouco apoio entre líderes europeus; por outro, uma frente interna, cuja maior ameaça vem da AfD, partido de direita que simboliza cidadãos insatisfeitos com o governo — e que alegadamente tem laços com Moscou.
No dia primeiro de setembro, a Alemanha acusou a Rússia de estar por trás de uma tentativa de ataque com drone contra o aeroporto de Leipzig/Halle, na região da Saxônia. O episódio, que envolveu um artefato equipado com explosivos de uso militar, é tratado como parte de uma crescente campanha russa de guerra híbrida contra países europeus.
O drone foi encontrado por um funcionário do aeroporto próximo a uma aeronave cargueira ucraniana, ainda em agosto. Segundo informações de inteligência dos Estados Unidos, o incidente já havia sido associado a Moscou antes mesmo da confirmação pelo governo alemão.
O caso ocorre em meio ao aumento das operações atribuídas à Rússia no continente, que incluem campanhas de desinformação, incursões de drones, ataques cibernéticos e atos de sabotagem. Para o Council on Foreign Relations (CFR), a combinação dessas ações representa uma pressão crescente sobre a segurança europeia.
Em um novo estudo, o think tank aponta que, apesar do discurso de que Moscou precisa ser dissuadida, os governos europeus têm adotado respostas cautelosas, temendo provocar uma escalada ainda maior.
"Apesar da retórica de dissuadir tais ataques, os líderes europeus têm adotado uma postura cautelosa em sua resposta, temendo uma escalada por parte da Rússia. Na Alemanha, a resposta do governo tem sido modesta até o momento. Autoridades enfatizaram que não consideram a Alemanha em guerra com a Rússia e anunciaram medidas predominantemente diplomáticas, como o fechamento do consulado-geral da Rússia em Bonn", diz o estudo.
O governo de Merz também procura evitar que o episódio seja caracterizado como um confronto direto entre Berlim e Moscou. As autoridades alemãs enfatizam que o país não está em guerra com a Rússia, mesmo diante do aumento de ações consideradas parte da ofensiva híbrida russa.
Intriga
Alice Weidel, co-líder da AfD: ascensão do partido significa revitalização da direita na Alemanha
A reação de Berlim é ainda mais complexa devido ao cenário político doméstico. Eleições estaduais no leste da Alemanha registram avanços importantes da Alternativa para a Alemanha (AfD), partido considerado de extrema direita que mantém posições favoráveis à Rússia e pode ampliar sua influência na política nacional. A ascensão do AfD representa uma popularidade que a direita alemã não alcança desde a Segunda Guerra Mundial.
A primeira dessas disputas ocorreu em 6 de setembro, na Saxônia-Anhalt, onde está localizado o aeroporto onde o incidente ocorreu. Pesquisas apontadas pelo CFR indicam que a AfD supera 40% das intenções de voto no estado, uma vantagem expressiva sobre a União Democrata-Cristã (CDU), de Merz.
E o crescimento do partido não se limita aos estados do leste: uma pesquisa nacional recente apontou a AfD como a legenda mais popular, com 28% de apoio, contra 21% para a CDU e sua aliada bávara, a União Social-Cristã (CSU). O Partido Social-Democrata (SPD), integrante da coalizão de governo, aparece com 12%.
Apesar da popularidade renovada e do ímpeto perigoso da sigla, os partidos de centro reafirmam que pretendem manter o chamado “cordão sanitário” contra a AfD:
"Até o momento, todos os partidos de centro se comprometeram a manter o chamado 'cordão sanitário' contra a AfD, o que significa não formar coalizão com o partido nem permitir que ele apoie um governo de minoria. No entanto, caso a AfD tenha um desempenho tão forte quanto as pesquisas indicam, será um desafio para os partidos de centro formarem um governo que exclua a legenda. Na pior das hipóteses, a AfD poderia até conquistar a maioria absoluta e emplacar seu próprio chefe de governo estadual. Nesse cenário, seu principal candidato, Ulrich Siegmund, se tornaria o primeiro líder de extrema-direita a chefiar um estado alemão desde a Segunda Guerra Mundial", diz o CFR.
Criada há 13 anos, a AfD deixou de ser apenas uma legenda eurocética e radicalizou-se progressivamente, segundo o estudo. O partido defende políticas duras contra a imigração, é contrário a medidas de proteção aos direitos LGBTQ+ e critica políticas climáticas, além de manter relações próximas com a Rússia e a China.
A plataforma de Siegmund incorpora essas posições. A deportação de imigrantes é um dos principais temas de sua campanha, enquanto a AfD também propõe mudanças no currículo de história do estado e pretende reduzir o destaque dado ao período nazista em favor de uma abordagem mais ampla do século anterior às duas guerras mundiais.
Uma vitória na Saxônia-Anhalt daria à AfD uma importante base regional para ampliar sua influência e dificultar a governabilidade em Berlim. O partido foi classificado como organização de extrema direita confirmada pela inteligência doméstica alemã em 2025, embora um tribunal tenha suspendido provisoriamente a designação em fevereiro de 2026 após uma ação judicial da legenda.
Merz no fogo cruzado
Friedrich Merz: premiê alemão enfrenta incidentes desconfortáveis e baixíssimas taxas de aprovação (Christian Marquardt/NurPhoto/Getty Images)
A ascensão da extrema direita ocorre em um momento especialmente delicado para Merz. Pesquisas mostram forte insatisfação com o chanceler, associada principalmente ao baixo crescimento econômico, ao aumento dos custos de energia e à percepção de que o governo não consegue responder aos problemas do país.
Uma pesquisa apontou que cerca de 85% dos alemães estavam insatisfeitos com a atuação de Merz, o maior índice registrado para um chanceler alemão na história recente. O desgaste também chegou à própria CDU: em um levantamento, mais da metade dos entrevistados ligados ao partido desaprovava a liderança do partido.
O cenário pode se agravar em 20 de setembro, quando eleitores de Berlim e de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental irão às urnas. Novos avanços da AfD nesses pleitos poderiam enfraquecer ainda mais a posição de Merz e reduzir sua capacidade de conduzir respostas tanto aos problemas domésticos quanto às crises externas.
O desgaste político de Merz já foi agravado por uma remodelação ministerial mal conduzida. Um eventual desafio à liderança do chanceler poderia provocar instabilidade na CDU justamente quando a Alemanha é pressionada a demonstrar unidade perante seus parceiros europeus e os Estados Unidos.
Para o CFR, a combinação entre o avanço da extrema direita e a intensificação da guerra híbrida russa representa um teste de grandes proporções para o governo alemão. O desafio ultrapassa a capacidade de Merz de reagir a Moscou e põe em questão a resiliência das instituições democráticas da Alemanha.
