É difícil entender por que a Ânima quis comprar a FMU: “não compensou”, diz BTG ao cortar recomendação para ANIM3

Depois de anos focada em reduzir dívida, melhorar a geração de caixa e convencer o mercado de que havia deixado para trás o ciclo de grandes aquisições, a Ânima (ANIM3) anunciou que irá recomprar 100% da FMU (Faculdades Metropolitanas Unidas), em recuperação judicial, por R$ 410 milhões na última terça-feira (14).
O BTG, no entanto, vê a decisão como uma alocação de capital difícil de defender e rebaixou o papel para uma recomendação neutra.
O ativo fazia parte do portfólio da Laureate, grupo americano de ensino superior cujos ativos brasileiros foram adquiridos pela Ânima em uma operação bilionária em 2021. Na época, a companhia foi obrigada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) a vender a FMU por questões concorrenciais.
A operação anunciada ontem ainda depende da autorização da autarquia.
Do total, R$ 240 milhões serão pagos no fechamento da transação e o valor será corrigido pelo CDI caso a conclusão ocorra após 31 de dezembro de 2026. Os R$ 170 milhões restantes serão quitados até 31 de dezembro de 2029 ou três anos após a aprovação definitiva do Cade, o que acontecer primeiro, também corrigidos pelo CDI.
Por que a Ânima quis reconquistar a FMU?
Segundo a companhia, a aquisição tem muito a agregar ao grupo, uma vez que a FMU é uma das instituições de ensino mais tradicionais de São Paulo, com 58 anos de história, seis campi na capital paulista, cerca de 51 mil alunos, nota máxima (5) do MEC e forte presença em cursos de Direito e Saúde. A instituição também opera no ensino presencial, semipresencial e EAD.
A empresa sustenta que o ativo tem passado por uma profunda reestruturação financeira, preservou uma marca forte em São Paulo e reúne condições para voltar a crescer sob seu ecossistema, especialmente após a recuperação judicial.
O principal atrativo é a presença da FMU em São Paulo, estado que concentra o maior número de estudantes do ensino superior brasileiro é forte em segmentos considerados estratégicos por apresentarem alta demanda e maior valor agregado.
A aquisição acrescenta cerca de 51 mil alunos ao ecossistema da Ânima e aumenta em aproximadamente 15% sua base de estudantes e em 11% sua receita líquida consolidada.
Outro argumento da companhia é que a FMU chega à Ânima em um momento diferente daquele que marcou os últimos anos da instituição. Com a recuperação judicial e reestruturação do endividamento, a universidade teria voltado a concentrar esforços na operação e na retomada do crescimento.
A empresa também aposta no fortalecimento do ensino digital. De acordo com a Ânima, a FMU foi uma das instituições que mais cresceram no ensino a distância desde 2020 e possui uma marca reconhecida nacionalmente, além de uma ampla rede de polos parceiros.
Com isso, a empresa acredita que poderá ampliar em cerca de 60% sua rede de polos de EAD e em 25% sua base de alunos nessa modalidade.
A companhia enxerga potencial para converter parte desses estudantes para o modelo semipresencial, considerado um dos principais vetores de expansão do grupo, aproveitando a infraestrutura física já existente nos campi da FMU.
A administração também sustenta que a aquisição deverá gerar importantes ganhos de eficiência operacional. Hoje, a margem operacional da FMU gira em torno de 19%, enquanto universidades comparáveis da própria Ânima registram margens entre 34% e 47%.
A companhia espera capturar sinergias por meio da integração administrativa, do ganho de escala e da adoção de tecnologia em processos internos, elevando a rentabilidade da FMU para níveis semelhantes aos das demais instituições do grupo.
Por que o BTG torceu o nariz?
Segundo o BTG Pactual, ao considerar também a dívida de cerca de R$ 150 milhões da FMU, a aquisição passa a valer aproximadamente R$ 560 milhões.
O BTG Pactual, no entanto, avalia que essas justificativas não compensam o preço pago pela operação. O banco rebaixou a recomendação do papel de compra para neutra, com corte no preço-alvo de R$ 7 para R$ 4. A nova projeção implica em uma valorização de quase 40% em relação ao fechamento de ontem.
Pelas contas do banco, a Ânima pagou um preço equivalente a cerca de 10 vezes o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) anual da instituição (10 vezes EV/EBITDA), um múltiplo considerado elevado para um ativo que passa por recuperação judicial.
"Isso representa um múltiplo elevado, bem acima das cerca de 3,3 vezes EV/Ebitdaem que a própria Ânima negocia atualmente", diz o relatório.
Na visão do time, a aquisição altera de forma significativa a tese de investimento construída nos últimos anos, baseada em geração consistente de fluxo de caixa livre (FCF), maior capacidade de distribuir dividendos e melhor disciplina na alocação de capital após a aquisição da Laureate.
Na época, a operação bilionária elevou substancialmente a alavancagem da Ânima, que desde então vinha concentrando esforços para reduzir seu endividamento.
Após a aquisição, a relação dívida líquida sobre Ebitda da Ânima deve subir de 2,39 vezes para 2,73 vezes, considerando os números do primeiro trimestre.
"Segundo nossos cálculos, sem assumir grandes sinergias — cenário que, de forma conservadora, adotamos como base neste momento — nossa projeção de lucro para 2030 cairá mais de 20%", diz o banco.
O time de análise indica que é difícil entender a operação. Os analistas destacam que o custo de capital no Brasil segue próximo das máximas históricas, a Ânima ainda opera com um balanço pressionado, as empresas de educação — incluindo a própria companhia e seus principais concorrentes — negociam a múltiplos deprimidos na bolsa e o cenário para os juros continua cercado de incertezas.
"Por isso, enxergamos a operação como uma decisão frágil de alocação de capital. Teríamos visto com muito mais bons olhos um programa de recompra de ações ou até mesmo a aquisição de concorrentes listados em bolsa, mesmo pagando um prêmio, já que qualquer uma dessas alternativas provavelmente teria sido realizada a múltiplos substancialmente menores.", diz o relatório do BTG.
