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Sacre Investimentos
Bolsa e dólarACS
25/08/2026
8 min

É o fim da sangria? Por que ainda não é hora para otimismo com a bolsa brasileira, segundo especialistas

Depois da queda, a bolsa brasileira está barata? Entenda o que pode fazer o Ibovespa voltar a subir e o que ainda assusta o mercado

É o fim da sangria? Por que ainda não é hora para otimismo com a bolsa brasileira, segundo especialistas

A bolsa brasileira atravessa agosto sob forte pressão. Foram 11 pregões seguidos de queda e R$ 306,3 bilhões evaporaram do valor de mercado das empresas listadas na B3. A sangria perdeu força nos últimos dias, mas os motivos que levaram o Ibovespa ladeira abaixo continuam no radar — e há poucos sinais de alívio até o fim do ano.

Guerra no Oriente Médio, juros elevados, eleições e risco fiscal não nasceram em agosto. Então por que todos esses problemas pareceram explodir ao mesmo tempo — e produziram a pior semana do Ibovespa em 18 anos?

O Ibovespa acumula queda de 3,55% em agosto. E, daqui para a frente, existem gatilhos que podem fazer a bolsa voltar a subir? Com a desvalorização dos ativos, é hora de comprar barato?

O gringo virou as costas

Embora a entrada de capital vinda de fora tivesse sido mais forte no início do ano, 2026 ainda conta com saldo positivo. Até 31 de julho, o Ibovespa acumulava alta de 10,47% apoiado pela volta dos investidores estrangeiros, com saldo de R$ 41 bilhões no ano.

Em agosto, o fluxo se inverteu. Até o dia 18, os investidores estrangeiros retiraram R$ 20,5 bilhões da bolsa brasileira, a terceira maior saída mensal desde 2008, segundo o JP Morgan.

Mas a saída do gringo é o sintoma, e não a causa, diz João Mamede, sócio e equity portfolio manager na AZ Quest Investimentos.

O que aconteceu foi que a visão do estrangeiro para o Brasil se deteriorou durante o mês.

O dia de pior saída foi 11 de agosto, dia em que o JP Morgan rebaixou a recomendação do Brasil de overweight (exposição acima da média do mercado, equivalente a uma recomendação de compra) para neutro.

As justificativas para o corte na recomendação, segundo a instituição norte-americana, são a proximidade do fim do ciclo de cortes de juros, a desaceleração do crescimento econômico e a deterioração do ciclo de crédito no país.

A maior liquidez do mercado brasileiro em relação a outros emergentes da região funciona para os dois lados, diz Luciano Franca, gestor de renda variável da Paramis: favoreceu o Brasil na entrada do capital estrangeiro no início do ano e agora amplifica os efeitos da saída.

A eleição saiu do horizonte e entrou no pregão

Com o início da campanha eleitoral, aumentou também o peso das eleições sobre os ativos brasileiros.

Com a proximidade do pleito, "aumenta o prêmio de risco doméstico. A preocupação do mercado é a política econômica, de gastos e os impactos para a inflação e os juros", diz Franca.

Pesquisas mostram que o segundo turno ainda não está totalmente decidido, com empate técnico entre os dois principais candidatos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL).

A preocupação de investidores é com o já conhecido risco de descontrole fiscal, a diferença entre os gastos e as receitas do governo, incluindo pagamento de juros. No acumulado em 12 meses até junho, o déficit nominal alcançou R$ 1,38 trilhão, ou 9,99% do PIB, com previsão de chegar a 8,79% do PIB em resultado nominal até o fim do ano, segundo o Boletim Focus.

A maior parte desse déficit vem do pagamento de juros, que não devem encolher tão cedo.

Nem os dados bons ajudaram

Apesar dos dados positivos de agosto, com a prévia do PIB vindo abaixo do esperado no mês e o IPCA de julho dentro da meta de inflação, isso não foi o suficiente para causar impacto nas curvas longas de juros. Nem os dados mais benignos de atividade e inflação foram suficientes para aliviar os juros longos.

A prévia do PIB veio abaixo do esperado e o IPCA de julho trouxe algum alívio, mas o mercado continua olhando para o risco fiscal e para a trajetória das taxas nos próximos anos.

A desaceleração da economia e da inflação pode abrir espaço para cortes da Selic, mas a trajetória dos gastos públicos continua pressionando os juros longos — justamente os que mais pesam sobre os preços das ações.

Mais do que isso: um cenário ainda mais desafiador para a economia brasileira pode piorar as perspectivas de crescimento das empresas.

Resultados das empresas

O mês também envolveu os resultados das principais empresas abertas na bolsa de valores, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos.

No Brasil, inadimplência, juros altos e atividade mais fraca pressionaram as companhias.

"Quando você olha para os setores voltados ao mercado interno, os resultados vieram fracos, em queda ou com desaceleração forte", afirmou Rodrigo Alvarenga, sócio da One. A exceção foram as empresas de petróleo, como a Petrobras e Prio.

Enquanto isso, nos EUA, as empresas de tecnologia e ligadas à inteligência artificial brilharam, afastando os receios do primeiro trimestre de uma bolha no setor.

Juros globais

Outra pressão vem dos juros norte-americanos. Para Alvarenga, o Brasil está no meio de um movimento de rotação de capital, que sai de países emergentes e se desloca para ações de inteligência artificial e para o juro norte-americano.

Os rendimentos dos Treasurys dispararam para níveis próximos de 5% ao ano, entre os maiores patamares das últimas décadas. O título de 30 anos do Tesouro norte-americano — referência para o custo de hipotecas de longo prazo nos EUA — rompeu a barreira de 5,337%, enquanto o de 10 anos atingiu 4,748% no início desta semana.

Mais do que ser um atrativo para investidores globais, "o juro norte-americano próximo das máximas até acende um sinal de alerta", diz Marco Bril, gestor de renda variável e multimercado da MAG Investimentos.

Guerra no Oriente Médio

A guerra no Oriente Médio, que se arrasta desde o final de fevereiro sem perspectivas de solução no horizonte, também traz mais instabilidade para os mercados emergentes.

O cessar-fogo alimentou as expectativas de que o conflito e a pressão sobre o preço do petróleo estivessem perto do fim. No entanto, isso ainda não ocorreu, e Washington continua ameaçando Irã e qualquer um que se alie ao país.

O gancho da Inteligência Artificial

E o dinheiro que sai do Brasil não está indo apenas para os Treasurys. Parte dele está correndo atrás da inteligência artificial.

O principal índice da bolsa de Taiwan está em alta de 86% nos últimos 12 meses, impulsionado pela Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC). Já o Kospi, principal índice da Coreia do Sul, subiu 110% no mesmo período; ele concentra empresas como a Samsung Electronics e a SK Hynix, de semicondutores.

E, como o Brasil tem poucas empresas de tecnologia na bolsa, acaba sendo mais prejudicado. "Enquanto tivermos um otimismo ao redor da tecnologia, o Ibovespa vai ficar para trás", afirmou Bril.

Barata ou apenas arriscada?

Depois de tanta queda, a bolsa está barata? É difícil dizer.

Os múltiplos da bolsa estão abaixo da média histórica, o que poderia significar que as ações estão "baratas" e que é uma boa hora para comprar.

No entanto, há poucos gatilhos para uma alta no curto ou médio prazo. Com isso, os investidores continuam exigindo um retorno maior pelo risco alto, o que pressiona os papéis para baixo.

"A queda cria uma assimetria interessante, mas não significa necessariamente que a bolsa está barata. Se o prêmio de risco continuar, vai ser barata por muito tempo", diz Franca, da Paramis.

"Pode ser um bom momento para alocação, mas não dá para pensar que não teremos volatilidade daqui até o segundo turno", diz Alvarenga, da One.

Para Mamede, da AZ Quest, essa resposta depende do resultado das eleições. No caso de vitória de um governo mais comprometido com o ajuste fiscal — tanto de esquerda quanto de direita, embora a magnitude do ajuste faça diferença —, pode haver um upside na bolsa.

"Mas, no caso de um governo sem esse comprometimento, não sei se a bolsa está barata ou se já não condiz com esse cenário", declara o sócio.

O final da guerra no Oriente Médio é outro gatilho positivo para a bolsa brasileira. Com um preço do petróleo mais próximo do patamar pré-conflito, ao redor dos US$ 70, os custos de energia e combustíveis em todo o mundo também ficam menores. Isso pode levar bancos centrais internacionais a reduzir juros, impulsionando a vinda de investimentos para países emergentes, como o Brasil.

O principal impulsionador, no entanto, continua sendo o mais conhecido: o fechamento da curva de juros, ou seja, a queda das taxas no futuro. Segundo Bril, da MAG Investimentos, a visibilidade de uma queda das taxas no futuro é o principal gatilho para alta na bolsa brasileira.

AutorKarin Salomão
FonteSeu Dinheiro
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