'É um desafio para muitas pessoas chegar até o fim do mês', diz CEO do maior supermercado do Brasil

Quem comanda a maior varejista de alimentos do Brasil descreve o momento do consumidor sem rodeios. "Sem dúvida, o consumidor está sofrendo a situação econômica a nível de endividamento e juros altos. É um desafio para muitas pessoas no Brasil chegar até o final do mês", diz Pablo Lorenzo, CEO do Grupo Carrefour Brasil.
A frase vem de quem lidera uma operação de 123,5 bilhões de reais em vendas. Ela também resume bem o cenário que hoje define a estratégia da rede.
O Grupo Carrefour Brasil lidera o Ranking ABRAS pelo décimo ano consecutivo, com faturamento de 123,5 bilhões de reais em 2025 — à frente de Assaí e Grupo Mateus.
Dono das bandeiras Carrefour, Atacadão e Sam's Club, o grupo é a maior operação de varejo alimentar do país e a segunda mais relevante do Carrefour no mundo, atrás apenas da França.
Mesmo nesse porte, a companhia enfrenta a mesma pressão que atinge o setor inteiro: vender barato para um cliente que compra menos e mais devagar.
Juros altos, endividamento e inflação corroeram o poder de compra das famílias ao longo de 2025, e o reflexo aparece no carrinho. O brasileiro tem levado menos itens por ida ao mercado e concentrado o gasto no essencial.
Para Lorenzo, a resposta do varejo a esse consumidor passa por duas palavras: acessibilidade e simplicidade. É delas que sai a aposta em preço competitivo, via corte de custo, marcas próprias e ganho de escala.
E aqui a leitura do consumidor encontra a lógica de gestão do grupo. "Ninguém é eficiente no preço de venda se não é eficiente nos custos", afirma Lorenzo.
A frase explica por que a maior rede do país passou o último ano concentrada menos em crescer com abertura de novas lojas e mais em cortar o que gasta para operar.
O que a empresa promete daqui pra frente é continuar nesse caminho. O grupo apresentou um plano até 2030 que prioriza a eficiência sobre a expansão acelerada e concentra a abertura de lojas no Atacadão. A disputa dos próximos anos, na leitura do CEO, é operar cada uma das lojas gastando menos.
Por que a margem virou o centro do jogo
Durante mais de uma década, o varejo alimentar brasileiro cresceu abrindo lojas.
Foi o ciclo de expansão do atacarejo, que multiplicou unidades de Atacadão, Assaí e concorrentes pelo país. Segundo Lorenzo, esse ciclo perdeu velocidade. Não parou, mas desacelerou.
O que veio depois é uma etapa diferente, em que a competição se desloca da abertura de lojas para a eficiência de quem já está operando.
A conta é simples de entender. Quando as vendas crescem devagar e o consumidor resiste a preço, o varejista não consegue repassar aumentos sem perder cliente.
Sobra apenas um caminho para preservar a rentabilidade: gastar menos para vender. É por isso que a frase de Lorenzo sobre custo e preço virou o eixo da estratégia. Sem cortar o custo, não há como sustentar o preço baixo que leva o cliente à loja.
Qual é o perfil do consumidor
O pano de fundo dessa disputa é um consumidor sob pressão.
Juros altos, endividamento e inflação corroeram o poder de compra das famílias ao longo de 2025, e o reflexo aparece no carrinho: o brasileiro tem levado menos itens por ida ao mercado e concentrado gasto no essencial.
Para o varejo, isso significa competir por um bolso que encolheu.
A resposta do Carrefour combina frentes que convergem para o mesmo objetivo de acessibilidade. As marcas próprias, que oferecem preço mais baixo por cortarem etapas de intermediação, são uma delas. A eficiência operacional é outra. E a integração entre as bandeiras — que permite ganho de escala na compra com fornecedores — fecha o conjunto.
Todas apontam para a mesma direção: chegar mais barato a um cliente que não pode pagar mais.
Quais são os 10 maiores supermercados do Brasil em 2025
O Ranking ABRAS 2026, elaborado pela Associação Brasileira de Supermercados em parceria com a NielsenIQ, mede o faturamento bruto das redes no ano anterior. Em 2025, o setor movimentou 1,14 trilhão de reais, o equivalente a 9,02% do PIB brasileiro. Veja as dez maiores redes e quanto cada uma faturou:
- Carrefour (SP): faturamento de 123,5 bilhões de reais
- Assaí Atacadista (SP): faturamento de 84,7 bilhões de reais
- Mateus Supermercados (MA): faturamento de 43,5 bilhões de reais
- Supermercados BH (MG): faturamento de 25,7 bilhões de reais
- GPA (SP): faturamento de 20,6 bilhões de reais
- Irmãos Muffato (PR): faturamento de 20,3 bilhões de reais
- Grupo Pereira (SP/SC): faturamento de 17,5 bilhões de reais
- Koch Hipermercado (SC): faturamento de 12,9 bilhões de reais
- Novo Mateus (PE): faturamento de 12,5 bilhões de reais
- Mart Minas (MG): faturamento de 12,5 bilhões de reais
Juntas, as dez maiores redes faturaram 374 bilhões de reais em 2025.
O que esperar de 2026
A tendência que atravessa o ranking é a mesma que Lorenzo aponta na frase sobre custo e preço.
Num setor em que a margem operacional se mede em frações de ponto e o consumidor resiste a repasses, a competitividade se decide na eficiência. A
s redes que conseguirem operar com custo mais baixo terão espaço para sustentar preço — e é esse o teste central do varejo alimentar brasileiro no próximo ano.
