Economia do frio: quem ganha com o inverno de quase R$ 6 bilhões do Rio Grande do Sul
Hotéis, restaurantes, vinícolas e parques faturam mais com a queda dos termômetros; após as enchentes de 2024, o estado projeta nova alta do turismo em 2026

Na rede de restaurantes Di Paolo, conhecida pela sequência de massas e galetos, as três casas localizadas na Serra Gaúcha costumam faturar cerca de R$ 3 milhões somente no mês de julho. Nos outros meses do inverno, a receita gira em R$ 2 milhões. Em Bento Gonçalves, cidade em que o negócio surgiu há mais de 30 anos, a fábrica que produz alimentos congelados da marca também sente a chegada das temperaturas baixas: o faturamento mensal, normalmente na casa de R$ 1 milhão, chega a R$ 3 milhões entre maio e julho.
“O inverno, para nós, é a alta temporada. Julho é o mês mais forte do ano”, diz Paulo Geremia, empresário à frente da Di Paolo. Segundo ele, o movimento triplica em relação a períodos comuns do ano e, nos fins de semana mais disputados, chegar a cinco vezes o normal.
A conta ajuda a mostrar, em pequena escala, uma indústria que se espalha por hotéis, restaurantes, vinícolas, parques, comércio, transporte e atrações turísticas no Rio Grande do Sul.
O turismo gaúcho movimentou R$ 5,79 bilhões durante a temporada de inverno de 2025, segundo estimativa da Secretaria de Turismo do Rio Grande do Sul obtida pela EXAME. Somente em julho, período das férias escolares e auge da temporada na Serra, foram R$ 1,32 bilhão em consumo — 13% acima do registrado em junho.
Para 2026, o governo estadual trabalha com a projeção de avançar em até 15% sobre o ano passado, diz o secretário estadual de Turismo, Raphael Ayub. O clima tem ajudado. A Serra teve uma temperatura média de 9,33°C em junho, abaixo dos 13,39°C registrados no ano passado. Dependendo do horário do dia, algumas regiões chegam a registrar temperaturas negativas.
Os primeiros números também mostram um começo de temporada mais forte. Entre junho e a primeira quinzena de julho, as atividades turísticas movimentaram R$ 2,16 bilhões no estado, avanço de 6,4% em relação ao mesmo intervalo de 2025, segundo a Secretaria de Turismo.
É essa combinação entre uma característica climática difícil de reproduzir em grande parte do Brasil e uma cadeia de negócios construída ao redor dela que forma o que empresários e representantes do setor chamam de economia do frio.
Como o frio virou um produto turístico
O inverno, evidentemente, não movimenta sozinho quase R$ 6 bilhões.
Na prática, o que o Rio Grande do Sul vende é um pacote construído ao redor dele: gastronomia italiana e alemã, vinho, hotéis, pousadas, lareiras, chocolates, parques, eventos, paisagens serranas e experiências que ficam mais atraentes — ou ao menos mais fáceis de vender — quando os termômetros caem.
A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Rio Grande do Sul (Fecomércio-RS) encontrou sinais desse efeito nos dados de consumo de junho. Enquanto o valor total das vendas por nota fiscal cresceu 0,92% no Rio Grande do Sul na comparação anual, o avanço chegou a 2,95% na Serra Gaúcha. No acumulado do primeiro semestre, a região avançou 0,83%, enquanto o estado recuou 0,67%.
Quando a lupa vai para atividades mais relacionadas à experiência turística, a diferença aparece de outra forma. Em junho, as vendas dos hotéiscresceram 14,6% em relação a 2025. Catering, bufês e comida preparada avançaram 17,4%; restaurantes, 3,1%; e atividades de recreação e lazer, 46,8%.
O comportamento não foi uniforme, já que vestuário caiu 7,5% e calçados e artigos de viagem recuaram 12,3%. Por este motivo, Gustavo dos Santos Fernandes, economista da Fecomércio-RS, recomenda cautela antes de atribuir todo o resultado ao termômetro.
“É difícil afirmarmos categoricamente que é por causa do turismo de inverno”, diz Fernandes. “Mas é um bom indicativo, tendo essas atividades que são mais ligadas ao turismo, principalmente hotéis e alimentação fora do domicílio, performando bem nesse período.”
A sazonalidade, porém, existe. A própria série histórica usada pela Fecomércio mostra dois picos recorrentes na atividade turística gaúcha: julho, no inverno, e dezembro, no começo do verão.
É em julho que também aparece o maior interesse por passagens aéreas para o estado. Para o inverno de 2026, foram contabilizadas 9,4 milhões de buscas por voos, das quais 3,1 milhões somente para o mês.
São Paulo lidera as origens nacionais, seguido por Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte, Recife, Fortaleza e Salvador. Entre os visitantes pesquisados, 56% pretendem permanecer entre quatro e sete noites no estado.
Para o período entre junho e setembro, a projeção é de 1,6 milhão de desembarques aéreos, 11,7% acima da temporada passada.
Gramado, na Serra Gaúcha: destino é um dos mais procurados por turistas brasileiros e estrangeiros. (Leandro Fonseca /Exame)
Como o RS recuperou público perdido na enchente
Esses números ganham outro peso quando comparados ao que aconteceu dois anos antes.
As enchentes de maio de 2024atingiram cidades, estradas e empresas e comprometeram um dos principais acessos ao turismo gaúcho justamente às vésperas da temporada de inverno.
Naquele mês, o volume de atividades turísticas do Rio Grande do Sul despencou 32,3% em relação a abril e 39,4% na comparação com maio de 2023, segundo o IBGE. O instituto atribuiu boa parte da queda à destruição de infraestrutura, aos danos aos estabelecimentos e à redução da mobilidade provocados pelas enchentes.
O Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre, ficou mais de 160 dias sem receber voos comerciais. Os pousos e decolagens só voltaram em outubro de 2024, inicialmente com capacidade reduzida. A pista completa e a operação 24 horas foram retomadas em dezembro daquele ano.
A diferença aparece até nos números históricos da Fecomércio-RS. O índice de volume das atividades turísticas do estado marcava 116,8 pontos em julho de 2023 e caiu para 88,6 em julho de 2024. Em julho de 2025, já havia voltado a 106,5.
Fernandes, da Fecomércio, lembra ainda de uma distorção provocada pela reconstrução. A compra de móveis e eletrodomésticos após as enchentes elevou artificialmente parte das vendas em 2024, o que torna algumas comparações posteriores menos simples.
Na Serra, porém, os números resistiram melhor. Em junho de 2025, as vendas da região cresceram 3,34%, enquanto o total do estado caiu 3,11%.
Para onde vai o dinheiro dos turistas no inverno
Poucos negócios enxergam essa sazonalidade tão de perto quanto a Rede Dall’Onder.
O grupo familiar nasceu há 47 anos e hoje opera hotéis em Bento Gonçalves e Garibaldi, além de parques turísticos como a Casa da Ovelha. O maior hotel do grupo tem 230 apartamentos e um centro de eventos com capacidade para 2.000 pessoas.
Para Maitê Dall’Onder Michelon, diretora da rede e integrante da terceira geração da família, não há muita dúvida sobre a estação que paga mais contas.
“A nossa altíssima temporada é no inverno. As férias de julho são o melhor mês do ano, sem dúvida nenhuma”, diz.
Os parques do grupo recebem aproximadamente 7.000 visitantes por mês no inverno, ante cerca de 2.500 no verão. Para 2026, a expectativa é aumentar o movimento de inverno em 10%. Nos hotéis, são cerca de 25.000 hóspedes por mês durante a estação mais fria, contra 15.000 nos meses de verão. A expectativa também é crescer 10% neste ano.
A distância aparece ainda mais no caixa.
“A gente chega a faturar três vezes mais no frio”, afirma Maitê. As diárias também podem dobrar ou até triplicar em relação à baixa temporada. Isso cria um problema típico de negócios sazonais: a estrutura precisa sobreviver durante 12 meses, embora uma fatia desproporcional do faturamento venha de poucos deles.
Sendo assim, a própria indústria turística tenta transformar as demais estações em produtos. No verão, a Serra vende a vindima (colheita da uva). No segundo semestre, eventos empresariais também ajudam os hotéis de Bento Gonçalves.
A tentativa é reduzir a dependência justamente daquilo que tornou a região famosa.
Maitê Dall’Onder Michelon, diretora da Rede Dall’Onder Hotéis: grupo chega a faturar três vezes mais no inverno, quando hotéis e parques recebem mais visitantes. (Dall'Onder/Divulgação)
A própria história do Grupo Casa, de Gramado, mostra como a Serra aprendeu a transformar sazonalidade em produto. A família Peccin, que está por trás da criação do Natal Luz, hoje reúne hotéis, gastronomia e projetos imobiliários e projeta faturar mais de R$ 100 milhões em 2026. O próximo passo é um investimento de R$ 60 milhões no Parador Vale dos Vinhedos, hotel de luxo que será construído em Bento Gonçalves.
O projeto terá 54 acomodações em uma área de 20 hectares, metade ocupada por vinhedos, e deve ser inaugurado no início de 2028. A proposta é levar para o Vale dos Vinhedos um modelo de hospedagem de alto padrão integrado à paisagem e à produção local.
A relação da família com a economia do frio vem de antes dos hotéis. O pai de Rafael Peccin, diretor de marketing do Grupo Casa, criou o famoso Natal Luz em 1986 quando era secretário de Turismo de Gramado. O objetivo era justamente reduzir a dependência da cidade dos meses frios.
“O Natal Luz nasceu da necessidade de criar uma nova alta temporada para Gramado. A cidade vivia somente do inverno”, afirma Peccin.
A estratégia acabou se repetindo nos negócios da família. Além dos hotéis em Gramado, o grupo opera o Parador Cambará do Sul, que ajudou a popularizar o conceito de "glamping" (glamour e camping) no Brasil. Agora, com o projeto em Bento Gonçalves, a família aposta novamente em experiências ligadas à paisagem serrana, desta vez entre vinhedos.
Parador Vale dos Vinhedos: novo hotel do Grupo Casa em Bento Gonçalves receberá investimento de R$ 60 milhões (Grupo Casa/Divulgação)
Como o principal destino turístico do RS se comporta neste cenário
Gramado continua sendo a vitrine mais conhecida desse modelo — a ponto de começar a enfrentar as consequências do próprio sucesso.
A cidade costuma receber mais de 8 milhões de visitantes na alta temporada. O município chegou a suspender temporariamente novos alvaráspara hotéis, restaurantes e fábricas de chocolate em algumas áreas enquanto revia sua capacidade urbana. Congestionamentos, preços imobiliários e saturação de serviços passaram a fazer parte do problema.
A resposta é um projeto de construir uma "outra Gramado".
A chamada "Nova Centralidade" prevê um novo polo urbano em uma área de 900 hectares, a 8 quilômetros da Rua Coberta, com hotéis, moradia, parques, comércio, hospital, teatro e centro de eventos. A expectativa municipal é de R$ 15 bilhões em investimentos privados ao longo de dez anos.
São previstos 9.000 novos leitos de hospedagem e 3.000 unidades de comércio e serviços.
Nova Centralidade: projeto prevê uma nova frente urbana a 8 quilômetros do centro de Gramado, com moradia, hotéis, parques e serviços (Prefeitura de Gramado/Divulgação)
Enquanto Gramado procura espaço para acomodar mais gente, municípios próximos tentam convencer parte desse público a seguir alguns quilômetros adiante.
Garibaldi, com cerca de 37.000 moradores, recebeu 906.458 visitantes em 2025, segundo a prefeitura. Nos quatro primeiros meses de 2026, o movimento passou de 315.000 pessoas, avanço de aproximadamente 22% sobre o ano anterior.
A cidade aposta em vinho, espumante, gastronomia e eventos. O Garibaldi Vintage, por exemplo, reuniu mais de 20.000 pessoas em março, enquanto o Festival do Grostoli recebeu cerca de 80.000 durante três dias. A cidade ainda se apoia no fluxo de turistas que buscam experiências do enoturismo no Vale dos Vinhedos. e Caminhos de Pedra.
“Estamos investindo na qualificação da experiência dos visitantes, fortalecendo nossos eventos e valorizando aquilo que temos de mais autêntico”, afirma Sérgio Chesini, prefeito de Garibaldi.
Mas ainda há destinos pouco explorados pelos turistas. São Francisco de Paula, na mesma região serrana, oferece ao seus visitantes cachoeiras e turismo de natureza. Mais distante do eixo tradicional, Cambará do Sul vende os cânions e ganha até uma vantagem climática curiosa: o portal oficial de turismo do estado aponta julho como uma das melhores épocas para visitar os cânions porque há menor incidência de neblina.
A estratégia do governo estadual é justamente fazer o visitante que chega atraído por nomes consolidados circular por mais destinos e permanecer mais dias no Rio Grande do Sul.
Projeto gigante em um destino ainda pouco explorado
Essa expansão começa a chegar também a um lugar distante da imagem clássica da Serra.
A cerca de 30 quilômetros da fronteira com o Uruguai, o empresário paulista Luiz Eduardo Batalha prepara um investimento de R$ 380 milhões na região da Campanha Gaúcha, no sul do estado.
Batalha, fundador da Azeite Batalha e conhecido como "rei do azeite brasileiro", está construindo o Grand Terroir 31, empreendimento turístico-imobiliário de 370 hectares com valor geral de vendas estimado acima de R$ 1 bilhão. A primeira etapa prevê 51 casas em meio a olivais, 49 vinhedos privados e um hotel de luxo com 80 cabanas.
Batalha chama sua aposta de uma “Toscana gaúcha”. O projeto fica entre Bagé e a fronteira uruguaia e reúne vinícola, lagar para produção de azeite, spa, gastronomia, arte, hípica, trilhas e, mais adiante, campo de golfe. A lógica é outra, mas usa alguns dos mesmos ativos que fizeram a Serra transformar território em produto: clima, gastronomia e produção local.
“Um lugar onde o silêncio é luxo, onde o vento é luxo”, diz.
A Campanha já tem produção de vinhos e azeites, mas ainda está longe de receber o volume de visitantes de Gramado ou Bento Gonçalves. Para Batalha, aí está justamente a oportunidade: participar da construção de um destino, em vez de entrar em um mercado turístico já saturado.
Luiz Eduardo Batalha, empresário e fundador da Azeite Batalha: projeto Grand Terroir 31 reúne vinho, azeite, hotelaria e imóveis de luxo na Campanha Gaúcha. (Azeite Batalha /Divulgação)
O movimento ajuda a mostrar a próxima fronteira da economia do frio gaúcha.
Depois de aprender a vender o inverno em Gramado, Canela e Bento Gonçalves, o desafio do Rio Grande do Sul passa a ser fazer com que o turista fique mais tempo, viaje por mais cidades e deixe uma fatia maior de seus gastos fora dos endereços que já aparecem nos cartões-postais.
E há mercado para isso. Das 9,4 milhões de buscas por passagens para o inverno de 2026, mais da metade envolve viagens planejadas para durar de quatro a sete noites. São dias suficientes para que o frio deixe de ser apenas temperatura e vire roteiro.
