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InvestMercados
19/08/2026
7 min

Economistas decretam morte dos juros zero e alertam para mundo de incerteza permanente

Especialistas apontam mais choques, dívida pública e juros altos como marcas de uma nova era global, mas veem oportunidades para o Brasil

Economistas decretam morte dos juros zero e alertam para mundo de incerteza permanente

O mundo entrou em uma mudança estrutural que tende a manter juros mais altos, maior volatilidade e um nível elevado de incerteza por mais tempo, na avaliação das economistas-chefes que participaram nesta terça-feira, 18, da 27ª Conferência Anual do Santander, em São Paulo. De acordo com as especialistas, o período marcado por globalização, inflação baixa e juros muito reduzidos ficou para trás.

Fernanda Guardado, economista-chefe do BNP Paribas, identificou duas mudanças estruturais. A primeira é o aumento da incerteza e, principalmente, a mudança na natureza dos choques que atingem a economia global. Segundo a especialista, a incerteza deixou de ser um episódio pontual e passou a ser uma característica recorrente do cenário.

"Hoje nós estamos num mundo que é muito mais propenso a choques e choques de uma natureza diferente", afirmou, lembrando que, nos últimos anos, a fonte da incerteza foi mudando. Primeiro, os problemas de oferta de chips; depois, a guerra na Ucrânia; mais recentemente, os choques relacionados ao petróleo e aos conflitos geopolíticos com a eclosão da guerra entre Estados Unidos e Irã. Na avaliação de Guardado, a sucessão de episódios tornou o cenário econômico menos previsível.

"É um mundo que é mais incerto, um mundo que é mais marcado por questões geopolíticas, que torna um pouco menos previsível o cenário prospectivo, disse.

Os choques de oferta, por sua vez, vêm exigindo maior cautela das autoridades monetárias. É nesse contexto que aparece a segunda mudança estrutural apontada pelas economistas, a volta de um ambiente de juros mais altos.

"Hoje o mundo é um mundo marcado por juros mais altos", afirmou. A economista lembrou que, até 2019, economias desenvolvidas ainda enfrentavam dificuldades para deixar para trás um cenário de inflação muito baixa, com juros negativos em países como Suécia, Japão e Suíça e também na zona do euro.

O cenário mudou com o retorno da inflação, mas Guardada ressaltou que a pressão sobre os juros não decorre apenas da inflação. O aumento do endividamento soberano global também passou a pesar sobre as condições financeiras. "É um mundo mais perigoso e mais sensível a novos choques".

Menos globalização, mais incerteza

Cecília Machado, economista-chefe do BBM, acrescentou ao diagnóstico uma mudança na organização da economia mundial. Segundo a especialista, as cadeias produtivas, que durante décadas avançaram em direção a uma maior integração comercial e mobilidade do trabalho, passam agora por uma espécie de regressão.

"Países de repente tentando se fechar um pouquinho mais ou com uma maior restrição na direcionalidade desse tipo de política internacional", afirmou.

Para a economista, ainteligência artificial representa um contraponto potencialmente positivo nesse processo. O avanço tecnológico pode elevar a produtividade e o crescimento potencial, mas a transição também traz dúvidas sobre o mercado de trabalho e sobre os efeitos inflacionários no curto prazo.

O ponto de convergência entre as economistas, segundo Cecília, é que as mudanças em curso são acompanhadas por uma"enorme incerteza", como classificou, que envolve dimensões geopolíticas, tecnológicas e institucionais.

"É um mundo novo, é um mundo novo de muita incerteza e que temos um juro longo que é muito distinto dos períodos anteriores", afirmou.

Segundo Machado, a combinação de maior incerteza e aumento do endividamento público tem sido incorporada principalmente na parte longa das curvas de juros. Nos Estados Unidos, por exemplo, a economista-chefe do BB avalia que, mesmo que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) altere sua política monetária no curto prazo, esse componente estrutural tende a continuar afetando o custo de financiamento.

IA muda o ciclo de investimentos

A economista-chefe do Morgan Stanley, Ana Madeira, chamou atenção para outro elemento da transformação estrutural: o forte ciclo de investimentos privados associado àinteligência artificial. De acordo com a especialista, o fenômeno pode representar um choque de produtividade comparável, em escala, à revolução provocada pelo computador.

A questão, porém, é que o contexto atual é diferente daquele observado décadas atrás, especialmente por causa da situação fiscal dos governos. "Eu só colocaria um ponto aqui principal, a situação fiscal principalmente é muito diferente", afirmou.

Madeira destaca que na década de 1990 os EUA tinham uma trajetória de queda da dívida e registravam superávits, enquanto hoje o setor público disputa recursos com empresas que também precisam de capital para financiar o novo ciclo de investimentos.

"Tem muita gente querendo dinheiro, o dinheiro tá valendo muito, não é Então isso se reflete do ponto de vista de taxa de juros", disse.

A economista afirmou que essa combinação ajuda a explicar a pressão observada sobre as curvas de juros globais. Ao mesmo tempo, Madeira ponderou que ainda há dúvidas sobre a dimensão e os vencedores da transformação tecnológica. "Estamos no meio de uma revolução com uma série de desafios de curto prazo também", afirmou.

E o Brasil nesse novo mundo?

As economistas também discutiram como o Brasil se posiciona nesse ambiente de juros globais mais elevados e maior incerteza. O diagnóstico foi menos uniforme, mas houve consenso sobre a existência de vantagens estruturais e desafios domésticos.

De acordo com a economista do Morgan Stanley, a deterioração fiscal observada em diversas economias melhorou a posição relativa do Brasil aos olhos de investidores estrangeiros. Isso, porém, não significa que o país esteja protegido do cenário de juros globais mais altos. "A situação fiscal do Brasil em termos relativos, ela melhorou", afirmou.

Ao mesmo tempo, o aumento dos juros globais reduz o espaço para uma queda muito acentuada das taxas brasileiras, segundo a economista. Ela também afirmou que investidores estrangeiros começaram a voltar a olhar com mais atenção para a situação fiscal brasileira.

Natalie Victal, economista-chefe da SulAmérica, também destacou que o país parte de uma posição relativamente favorável diante das transformações da economia global. A economista chamou atenção para a abundância de recursos naturais e para o tamanho do mercado doméstico, fatores que podem ganhar importância em um mundo mais marcado por conflitos geopolíticos e pela busca por segurança no fornecimento de commodities.

"O Brasil continua sendo o eterno aluno nota cinco", afirmou Victal. Segundo a especialista, o país é forte justamente em áreas que tendem a ser demandadas em um cenário global mais complexo. "Do ponto de vista, a gente é muito forte em coisas que o mundo demanda muito", disse.

Victal citou a pecuária, as reservas de petróleo, ominério de ferro e as terras raras como exemplos dos ativos brasileiros. "O Brasil tem ativos e são ativos muito valorizados", afirmou, destacando a posição do país como exportador de petróleo, que favoreceu as contas brasileiras por meio da valorização do produto e o tamanho da economia doméstica.

O principal obstáculo, porém, também está dentro do próprio país. Para a econonista-chefe da SulAmérica, justamente por serem internos, os desafios brasileiros devem ser enfrentados por meio de decisões domésticas. Em sua avaliação, isso passa por  uma melhora nos fundamentos, que poderia reduzir o prêmio de risco exigido pelos investidores e abrir espaço para uma reprecificação dos ativos brasileiros.

"Se fizermos o dever de casa, tem espaço para esse prêmio de risco do Brasil diminuir um pouquinho e gerar alguma oportunidade", disse. "Dependendo do prêmio dos ativos de risco global, podemos ficar mais bonito, podemos virar um aluno nota cinco que passa direto, ou um aluno nota cinco que precisa fazer prova final", afirmou.

Já a economista do BNP apresentou uma visão mais cautelosa sobre a percepção dos investidores estrangeiros. Para ela, a melhora relativa do Brasil não deve ser confundida com uma mudança definitiva na percepção de risco. "A complacência existe no mundo com o Brasil exatamente porque todo mundo piorou", afirmou.

Segundo Guardado, a elevação dos juros globais aumenta a disputa por capital e pode tornar os emergentes mais vulneráveis. O Brasil, por não emitir uma moeda de reserva como dólar ou euro, teria menos margem para absorver uma deterioração das condições financeiras internacionais. "O Brasil fica mais suscetível à crise de confiança fiscal no atual cenário", concluiu.
AutorClara Assunção
FonteExame
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