Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
Economia
05/11/2026
5 min

Economistas veem pausa prolongada no ciclo de cortes de juros após decisão do Copom

Analistas projetam manutenção da Selic em 13,75% até o fim do ano e apontam que a piora do cenário inflacionário pode adiar a retomada das reduções em 2027

Economistas veem pausa prolongada no ciclo de cortes de juros após decisão do Copom

A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de interromper o ciclo de cortes da Selic reforçou a perspectiva de que os juros devem permanecer elevados por mais tempo, segundo economistas consultados pela EXAME.

Após manter a taxa básica em 13,75% ao ano nesta quarta-feira, 4, o Banco Central abriu espaço para uma pausa prolongada, enquanto a piora do cenário inflacionário também coloca uma eventual nova alta dos juros entre os riscos apontados pelos analistas.

A avaliação predominante entre os especialistas consultados é de que o Copom deve manter a Selic no atual patamar na última reunião de 2026, em dezembro. A retomada das reduções em 2027 dependerá de uma melhora das expectativas de inflação, do cenário fiscal e da confirmação da desaceleração da atividade econômica.

A decisão interrompeu uma sequência de cinco cortes consecutivos, iniciada em março. Apesar de reconhecer uma desaceleração mais intensa da economia e sinais de perda de força do mercado de trabalho, o BC destacou a aceleração da inflação, a deterioração das expectativas e o aumento das incertezas no cenário internacional.

O comunicado também mostrou uma piora nas projeções de inflação da autoridade monetária. A estimativa para 2027 passou de 3,9% para 4,7%, enquanto a projeção para o segundo trimestre de 2028, atual horizonte relevante da política monetária, ficou em 3,5%, acima da meta de 3%.

Selic deve permanecer em 13,75% até o fim do ano?

Para Cristiano Oliveira, diretor de pesquisa econômica do Banco Pine, o comunicado indica que a interrupção do ciclo de cortes pode durar mais do que uma reunião.

O economista destaca que o Copom retirou do texto a referência à "magnitude total do ciclo de calibração", utilizada anteriormente para indicar que a extensão das reduções dependeria da evolução dos dados econômicos.

Na avaliação dele, a mudança reforça a possibilidade de uma pausa prolongada.

"A retirada da referência à 'magnitude total do ciclo de calibração' indica que a pausa poderá se estender além da reunião de dezembro", afirma Oliveira.

O cenário do Banco Pine é de manutenção da Selic em 13,75% na última reunião do ano, com a retomada dos cortes em 2027 condicionada à melhora das expectativas de inflação, à evolução da política fiscal e à desaceleração da economia.

Felipe Rodrigo de Oliveira, economista-chefe da MAG Investimentos, também projeta a manutenção dos juros em dezembro.

Para ele, o comunicado apresentou um tom cauteloso ao reconhecer a perda de força da atividade, mas destacou que a inflação corrente voltou a acelerar e que as expectativas permanecem distantes da meta.

A avaliação é de que a combinação entre maior incerteza, pressões inflacionárias e riscos fiscais limita a possibilidade de novas reduções da Selic no curto prazo.

Segundo o economista, a mensagem central do BC é de que os juros precisarão continuar em patamar restritivo até que existam evidências mais consistentes de convergência da inflação para a meta.

Desaceleração da economia reduz espaço para alta da Selic

Natalie Victal, economista-chefe da SulAmérica Investimentos, avalia que o comunicado trouxe sinais de maior preocupação do Banco Central com a desaceleração econômica, o que reduz a disposição para uma nova alta dos juros.

A economista classifica o tom da comunicação como entre neutro e dovish, termo utilizado para caracterizar uma postura mais favorável à flexibilização monetária.

Ela destaca que o Copom passou a reconhecer uma desaceleração mais acentuada da atividade e sinais de desaquecimento do mercado de trabalho.

Outra mudança observada por Victal foi a retirada da palavra "mais" na qualificação do cenário alternativo para o hiato do produto, indicador que mede a distância entre a atividade econômica efetiva e seu potencial de crescimento sem gerar pressões inflacionárias adicionais.

Para a economista, a alteração sugere que o BC vê uma economia operando com menor pressão sobre os preços do que anteriormente.

Ainda assim, Victal ressalta que o comunicado também apresentou elementos de cautela, especialmente diante da aceleração dos núcleos de inflação, que procuram captar a tendência dos preços ao reduzir o peso de oscilações temporárias, e da deterioração do ambiente internacional.

"Ou seja, entrega a manutenção, mas mostra que a barra para debater alta é elevada. Ou seja, estratégia que ele tem em mente é higher for longer", disse.

Banco Central deixa espaço para uma nova alta dos juros?

Apesar da avaliação predominante de manutenção, o economista-chefe da Genial Investimentos, José Márcio Camargo, considera que a deterioração recente das condições financeiras pode exigir uma reação mais dura do Banco Central.

O economista chama atenção para a desvalorização do real, a queda no mercado acionário e a elevação das taxas de juros futuros nos dias anteriores à decisão.

"Sem dúvida, esse movimento dos preços dos ativos vai continuar persistindo durante algum tempo e deve inclusive afetar a taxa de inflação nos próximos meses, o que muito provavelmente deverá fazer com que o próximo Copom tenha que elevar a taxa de juros", afirma.

A última reunião do Copom em 2026 está marcada para os dias 8 e 9 de dezembro. Até lá, novos dados de inflação e atividade econômica poderão alterar as avaliações sobre a duração da pausa e os riscos para a trajetória da Selic.

AutorAndré Martins
FonteExame
Distribuído por