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Sacre Investimentos
EXAME AgroCMDT
16/08/2026
4 min

El Niño pode ser o mais forte desde 1950 — e ameaça até metade da soja no Brasil

Fenômeno deve ganhar força durante a safra 2026/27 e pode provocar seca no Matopiba e excesso de chuva no Sul

El Niño pode ser o mais forte desde 1950 — e ameaça até metade da soja no Brasil

A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) elevou para 93% a probabilidade de o El Niño atingir intensidade “muito forte” entre setembro e novembro, quando o aquecimento das águas do Pacífico equatorial fica pelo menos 2°C acima da média.

Para oagronegócio brasileiro, o alerta chega em um momento decisivo: o fenômeno deve ganhar força justamente durante o plantio e o desenvolvimento da safra 2026/27.

A perspectiva se torna ainda mais relevante no trimestre seguinte. Entre outubro e dezembro, a NOAA calcula em 95% a chance de um El Niño muito forte. Há ainda 69% de probabilidade de o evento estar entre os mais intensos registrados desde 1950, início da série histórica utilizada pela agência americana.

O fenômeno também deve atravessar a virada do ano. Entre novembro e janeiro de 2027, a probabilidade de permanecer muito forte é de 90%. O enfraquecimento mais significativo aparece apenas entre janeiro e março, quando a chance dessa intensidade cai para 35%.

Isso significa que os efeitos podem acompanhar boa parte do calendário agrícola brasileiro — e não apenas a safra de verão.

Para Carlos Cogo, sócio-diretor da Cogo Inteligência em Agronegócio, esse é um ponto especialmente importante para o Brasil, onde produtores conseguem colher duas e, em algumas regiões, até três safras na mesma área.

Segundo o analista, o El Niño começou a se formar em julho e deve avançar nos próximos meses. O problema, segundo ele, não está apenas na intensidade, mas na maneira desigual como o fenômeno altera o regime de chuvas pelo país.

No Matopiba — região formada por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — e no Norte, o principal risco é de estiagem. O norte de Mato Grosso também pode ser afetado, enquanto Centro-Oeste e Sudeste tendem a enfrentar redução mais moderada das precipitações.

No Sul, ocorre o contrário: a tendência é de chuvas acima da média. Água em excesso, porém, também pode representar perdas, especialmente para culturas como o arroz.

“É desigual porque, quando prejudica uma área, acaba ajudando outra. O Brasil tem essa característica e, por isso, a perda total não costuma ser tão grande”, disse Cogo.

A própria NOAA ressalta que um El Niño mais intenso aumenta a probabilidade dos efeitos normalmente associados ao fenômeno, mas não significa que todos eles necessariamente ocorrerão.

A intensidade do aquecimento do Pacífico, portanto, não pode ser traduzida automaticamente em tamanho da quebra de safra.

El Niño na soja

É na soja que a distribuição das chuvas ganha peso. O Centro-Oeste concentra 47% da área plantada no país, seguido pelo Sul, com 27%, e pelo Matopiba, com 14%. Pelos cálculos de Cogo, entre 45% e 50% da área brasileira da oleaginosa pode ficar sob influência do El Niño.

O histórico ajuda a dimensionar o risco. No último episódio intenso citado pelo analista, entre 2015 e 2016, a produção de soja nas regiões afetadas caiu de 47,6 milhões para 30,2 milhões de toneladas.

Isso não significa que o cenário vá se repetir. Cogo afirma que as projeções atuais ainda não incorporam uma eventual perda provocada pelo fenômeno.

“Não se estima quebra de safra. Só após os efeitos do fenômeno é que contabilizamos”, afirmou.

Há também uma diferença importante entre perda de produção e impacto sobre preços. No caso da soja, os estoques globais equivalem a cerca de 28% do consumo mundial, segundo Cogo. Esse colchão pode amortecer uma eventual redução da oferta brasileira e limitar uma reação das cotações internacionais.

Para o produtor, essa combinação é particularmente sensível: uma eventual perda de produtividade não necessariamente seria compensada por preços proporcionalmente maiores.

“Com preços deprimidos e margens apertadas no Brasil, uma eventual redução da produção tende a ter impacto mais limitado sobre as cotações”, disse.

Outras commodities enfrentam equações diferentes. No arroz, o excesso de chuva no Sul pode prejudicar as lavouras. Café, feijão e açúcar também estão expostos às alterações de temperatura e precipitação. No milho, o risco pode avançar para 2027, especialmente se problemas na primeira safra atrasarem o calendário da segunda.

AutorCésar H. S. Rezende
FonteExame
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