Ela abriu um negócio com R$ 10 quando o marido morreu. Hoje a empresa fatura R$ 45 milhões

Quando o marido de Juliana Maena, um policial civil, foi assassinado, ela ficou sozinha com quatro filhos e pouco dinheiro. Os meninos brigavam por um pote de pasta de amendoim industrializada — um comprava, o outro comia tudo escondido.
Foi para economizar que ela começou a fazer a própria pasta, numa cozinha em Peruíbe, no litoral de São Paulo.
Ela pegou os 10 reais que tinha e comprou os primeiros ingredientes. Os meninos começaram a levar no trabalho e na academia, e colegas queriam comprar. As primeiras pastas saíram do liquidificador de casa e foram vendidas para pessoas próximas.
No começo, o amendoim vinha em quantidades mínimas, de 100 gramas, comprado em lojas de especiarias, porque era o que dava para pagar. Foi assim que nasceu a La Ganexa, uma indústria de pasta de amendoim de Peruíbe que hoje produz 10 toneladas por dia e faturou 45 milhões de reais em 2025.
A empresa completa 10 anos em 2026 e vive o momento de maior expansão da sua história. A La Ganexa está presente em todos os estados do país, passou a marca de 5.000 pontos de venda e começou a exportar para o quinto país.
“A gente sempre cresceu bastante, mas o salto mesmo, de a gente ficar reconhecido nacionalmente e ter que ir para uma fábrica maior, foi em 2021”, diz Allan Gomes de Souza, diretor administrativo e um dos filhos de Juliana.
Para os próximos anos, a empresa aposta em três frentes ao mesmo tempo: aumentar o consumo dentro dos clientes que já atende, abrir novos pontos de venda e ampliar o portfólio de produtos. A projeção da companhia é passar de 60 milhões de reais de receita em 2026.
Qual é a história da La Ganexa
A produção começou informal e ficou assim por dois anos. De 2016 a 2018, não havia CNPJ: eram vendas para pessoa física, degustações em academia e clientes que provavam e compravam.
A demanda cresceu a ponto de os próprios consumidores perguntarem onde encontrar o produto fora da casa da família.
Em 2018, a família decidiu formalizar o negócio. Allan conta que aprendeu a emitir nota fiscal no site do Sebrae e começou a bater na porta de supermercados, padarias e lojas de produtos naturais de Peruíbe, a partir dos clientes que já consumiam a pasta. Com o CNPJ, a empresa passou a vender também para pessoas jurídicas, e o faturamento subiu.
A virada de escala veio em 2021, quando dois fatos aconteceram quase juntos. A empresa lançou o sabor leitinho, até hoje a pasta de amendoim mais vendida da marca, e entrou no Shark Tank, um dos maiores programas de empreendedorismo do país. No fim daquele ano, começou a construir a fábrica onde opera atualmente.
“A gente teve ali uma sucessão de fatores que nos permitiram quadruplicar de tamanho em um ano só”, afirma Allan.
Nos primeiros anos, o esforço foi bruto. Segundo a família, foram quatro anos trabalhando sem retirar salário, com todo o dinheiro reinvestido no negócio. Os primeiros pagamentos aos sócios começaram apenas em 2020. Juliana relata jornadas de 15 a 20 horas em pé na produção, e um dia em que trabalhou 22 horas seguidas.
Uma família dentro da fábrica
À medida que a produção aumentou, os filhos assumiram diferentes áreas da empresa. Hoje, toda a família trabalha na operação. Juliana cuida da produção e da criação de produtos. Allan responde pela diretoria administrativa, fiscal, contábil e financeira. Allex, que largou a Marinha para entrar no negócio, cuida da área comercial e da equipe de vendedores externos. Alline é a diretora de marketing, responsável por redes sociais e e-commerce. Outro irmão cuida dos marketplaces, e o mais novo trabalha na produção com a mãe.
Juliana conta que a cozinha sempre foi a forma dela de cuidar dos filhos e de resolver o orçamento em casa, preparando versões mais baratas do que eles comiam na rua.
“A minha forma de dizer ‘eu te amo, estou pensando em você’ é preparando o prato que cada um gosta”, diz.

Qual foi a estratégia para crescer
Até 2024, a La Ganexa era só pasta de amendoim. A diversificação começou quando a empresa percebeu que lançar novos sabores de pasta não aumentava a receita como esperado, porque o consumidor mantinha a mesma quantidade consumida e apenas trocava um produto pelo outro.
A saída foi entrar em outros momentos de consumo. O primeiro passo foi um alfajor recheado com a pasta da marca, um snack de consumo rápido que o cliente leva na bolsa. O produto vendeu bem e abriu caminho para uma linha maior, que hoje inclui panqueca, suspiro, biscoito, salgadinho, doce de leite e brigadeiro de colher, entre outros.
Segundo a empresa, todo lançamento precisa passar por dois critérios que a família define como inegociáveis: sabor e saúde. A regra interna é não sacrificar um pelo outro, o que, segundo Allan, elimina ingredientes que melhorariam o sabor às custas da qualidade nutricional.
“O produto tem que ser muito gostoso e o produto tem que ser saudável. A gente não abre mão de um pelo outro”, afirma Allan.
Como o setor está agora
O crescimento da alimentação saudável atraiu multinacionais que antes não olhavam para o segmento. Para uma indústria do porte da La Ganexa, a chegada de concorrentes gigantes poderia ser uma ameaça. Segundo Allan, o efeito foi o contrário.
O argumento da empresa é o do atendimento. As grandes investem pesado em marketing e ensinam o consumidor a procurar produtos com mais proteína, mas colocam os itens na gôndola do supermercado sem montar a categoria nem orientar quem está começando.
No Brasil, avalia Allan, o consumidor que quer entrar nesse tipo de alimentação ainda busca instrução na loja especializada — de produtos naturais ou de suplementos —, e não no caixa do mercado.
É nesse ponto de venda especializado, com milhares de lojas pelo país, que a La Ganexa concentra a operação. Ao mesmo tempo, começa a entrar em varejistas que estão estruturando o atendimento e montando a categoria, caso da rede Mambo, em São Paulo, referência em suplementação e produtos naturais.
“A gente achou lá no início que ia trazer dificuldade. Pelo contrário, trouxe mais benefícios para nós do que dificuldades”, diz Allan.
Para onde a marca vai
A empresa projeta passar de 60 milhões de reais de receita em 2026, ante os 45 milhões de reais de 2025. Segundo Allan, o crescimento deve vir de um pouco de cada frente: mais marketing e geração de demanda, novos clientes e novos produtos que ocupem momentos de consumo diferentes, do café da manhã ao pós-treino.
A fábrica atual tem capacidade para produzir até 10 toneladas por dia, somando todos os produtos. A empresa tem 48 funcionários internos e outros 18 externos, ligados a vendas e promoção, e já ocupou um segundo galpão na cidade para ampliar a produção.

No mercado externo, os produtos chegam a Estados Unidos, Bolívia, Argentina, Paraguai e, mais recentemente, República Dominicana. Para o mercado americano, segundo a empresa, foi decisiva a certificação ABICAB, selo de qualidade para produtos à base de amendoim com exigências superiores às da Anvisa, agência que regula alimentos e medicamentos no Brasil.
Dez anos depois dos primeiros 10 reais, Juliana resume o que aprendeu no caminho. “Negócio que começou com nada, negócio que ‘é sorte’, não é. Não existe sorte, é muito trabalho, muita dedicação, e você faz a coisa acontecer”, diz.
