Ela ergueu 1,2 milhão de m² de galpões e foi a 1ª de real estate da Amazon no Brasil: ‘É um silo’
Ex-Prologis, Amazon e Goodman, Mara Afetian conta por que buscou o ABP-W, da Saint Paul, ao virar executiva estatutária e o que aprendeu sobre o olhar dos conselhos

Na primeira aula da turma, cada aluna precisou contar às colegas algo que tivesse marcado a própria vida. Mara Afetian, arquiteta com 20 anos de carreira no mercado imobiliário logístico, escolheu falar dos filhos.
“Foi muito difícil ter os meus filhos. Eu tenho gêmeos, hoje eles têm 22 anos. É a maior conquista da minha vida”, diz. Para ela, a dinâmica fez o grupo se conhecer pelo lado mais humano logo no primeiro contato.
A turma é a do ABP-W, Advanced Boardroom Program for Women, programa da Saint Paul para executivas que atuam ou querem atuar em conselhos de administração. Hoje Sr. Head of Development Advisory da EREA Galpões, Mara Christine Burr Afetian chegou ao curso depois de ajudar a implantar o padrão classe A de galpões logísticos no país, de ser a primeira profissional de real estate da Amazon no Brasil e de assumir uma diretoria estatutária na Goodman.
Da fábrica ao galpão
A curiosidade a levou a buscar estágio ainda na graduação em arquitetura, na USP. Foi parar em uma construtora de projetos industriais, caminho que não estava nos planos.
“Você entende os processos das empresas e tenta traduzir numa arquitetura o que melhor funciona dentro daquela indústria, para a operação ter mais resultado”, diz. Ali, trabalhou com indústrias química, farmacêutica, automobilística, de papel e celulose e até uma cervejaria.
Depois de coordenar na W Torre o projeto Águas Claras, da Vale, foi convidada em 2010 pela Cyrela para uma nova área, em parceria com americanos, dedicada a portfólios logísticos. Segundo ela, o país ainda não tinha um portfólio classe A. Os primeiros parques saíram em Cajamar, Jundiaí e no Rio de Janeiro.
A operação se transformou na Prologis, onde Mara foi a funcionária número 3. “A gente começou do zero. Não tinha nada, comprou um terreno e desenvolveu projetos”, conta. Em 13 anos, chegou a 1,2 milhão de metros quadrados e 23 galpões entregues em São Paulo e no Rio de Janeiro.
Ali também liderou o plano piloto de energia solar. O entrave, conta, era definir quem responderia por um vazamento na cobertura: o instalador dos painéis ou o dono do galpão. A saída foi prever essa possibilidade já na contratação das coberturas, para proteger o cliente.
A primeira de real estate da Amazon no Brasil
A Amazon era a maior cliente global da Prologis quando convidou Mara para sua área de real estate, de perfil mais comercial. Até então, as negociações de galpões no Brasil eram conduzidas a partir dos Estados Unidos. “A gente tropicalizou muita coisa e conseguiu quebrar vários paradigmas, porque conhecia muito bem o mercado do Brasil”, afirma.
Após três anos e meio, seguiu para a Goodman, com foco no raio de 15 quilômetros de São Paulo: retrofit de imóveis para a última milha do e-commerce, numa região onde é difícil encontrar terreno e obter aprovação.
Por que deixar a multinacional
A mudança para a consultoria, explica, veio da sensação de não usar todo o repertório. “A Amazon é, digamos, um silo. Você vai trabalhar na área de real estate e não consegue usar a sua expertise. De alguma forma você usa, mas fica a sensação de poder oferecer mais”, diz.
Na EREA, ela recebe clientes que chegam com um terreno e define qual produto logístico faz sentido, quanto tempo a aprovação deve levar e quanto vai custar. “Numa empresa menor, posso proporcionar ao meu cliente todo o know-how que tenho, não só de legislação ou de projeto, mas também de construção”, afirma.
O olhar do conselho
O ABP-W entrou na trajetória quando Mara se tornou diretora de desenvolvimento e estatutária na Goodman.
O objetivo não era só se preparar para uma futura cadeira em conselho, mas entender como atuar como executiva para atender ao que os conselhos esperam.
O programa tem 300 horas de aulas mensais presenciais na unidade Jardins, em São Paulo, com transmissão ao vivo, e uma comunidade de mais de 600 mulheres. Na turma de Mara há executivas de RH, marketing e indústria alimentícia. “Você consegue ter olhares diferentes sobre a governança, sobre as empresas, sobre como o povo trabalha”, diz.
No módulo internacional, em Milão, com professores da Bocconi, as aulas trataram de inteligência artificial, do cenário europeu e de imigração. Uma delas marcou Mara: a de uma palestrante que, segundo ela, foi uma das responsáveis por conquistar a obrigatoriedade de mulheres nos conselhos das empresas.
Sobre as competências que pesam no board, ela observa que os conselhos costumam buscar perfis das áreas financeira e jurídica, formação que não é a dela. Para Mara, o ponto central é entender o momento da empresa e o que ela precisa.
“É a sensibilidade do soft skill, de entender os outros conselheiros e ver onde você pode dar um apoio maior”, afirma.
Um tempo só dela
O ABP-W está completando dez anos. Mara descreve a comunidade como uma comunhão de ideias, com liberdade para discutir perspectivas diferentes sem críticas. Ela, que se define como intensive learner, diz que as amizades criadas ali vão seguir no futuro. E dá ao curso um lugar próprio na agenda.
“Esse tempo que eu venho ao ABP-W é o tempo da Mara, de desenvolvimento pessoal. É o meu hobby, de alguma forma”
Mara Afetian, Sr. Head of Development Advisory da EREA Galpões
