Ela liderou vendas na Microsoft e criou um método contra o burnout depois de pedalar até o Everest
Após passar por GPA, Google e Microsoft, ela fez o ABP-W da Saint Paul e hoje pesquisa o tema do descanso estratégico

Foi a 5.200 metros de altitude, no trecho final da Estrada da Amizade rumo ao acampamento base do Everest, que Carolina Rocha entendeu algo sobre o próprio corpo: ali, tentar acelerar era inútil.
O único jeito de seguir era devagar, com pausas táticas ao longo do caminho. A cena, vivida durante um sabático de três anos, se tornaria o ponto de partida de um método que ela hoje leva a palestras, mentorias e a um capítulo de livro: a Arquitetura da Pausa.
Antes da pausa, porém, houve quase duas décadas de carreira construídas entre marketing, negócios e tecnologia. Formada em administração pública, Rocha não chegou a atuar na área, pois os concursos eram espaçados demais no início de sua trajetória.
Entrou no mercado privado como trainee de marketing em uma indústria de laticínios, passou por uma startup de telefonia e, há 20 anos, ingressou no Grupo Pão de Açúcar para estruturar a marca de produtos saudáveis do grupo, onde ficou oito anos e meio.
Do varejo à tecnologia, sempre em marketing estratégico
Foi no Google que Rocha montou o time analítico da operação brasileira, uma estrutura que se tornou referência interna. "Outras diretorias do Brasil e também Estados Unidos, Canadá adotaram essa mesma prática, esse mesmo processo", diz.
Depois de cinco anos em uma área comercial ligada à publicidade digital no varejo, ela migrou para a Microsoft, onde passou a atender clientes de varejo e indústria em projetos de transformação digital, com foco em nuvem e infraestrutura.
"Trabalhar no varejo é muito importante para você ter noção de negócios muito complexos e dinâmicos", afirma. Segundo ela, foram os quase 20 anos somados entre Grupo Pão de Açúcar, Google e Microsoft que, aos poucos, a aproximaram de uma atuação mais estratégica e ligada à governança corporativa.
O curso que ampliou o repertório
Essa aproximação levou Rocha à Saint Paul Escola de Negócios, onde cursou o Advanced Boardroom Program for Women (ABP-W), programa voltado a conselheiras e executivas que buscam atuar em conselhos de administração. "Eu queria conseguir discutir finanças, eu queria discutir M&A, mas não com os casos de M&A das empresas em que eu trabalhava, ter outras noções de outros setores", conta.
Para ela, o valor do curso não esteve apenas na carga horária, de 240 horas em sua turma, mas na composição da sala. "Essa magia da seleção das pessoas, de diferentes setores, com diferentes bagagens, fez com que a troca dentro das aulas fosse muito rica", diz.
"O mesmo problema, quando eu olho para o ponto de vista de logística, tem uma abordagem. Quando eu olho para uma pessoa que trabalha no escritório jurídico, quando eu olho para uma pessoa que trabalha com marketing, essa troca era muito rica", complementa.
O módulo internacional da turma, planejado para a Dinamarca, acabou dividido entre dois países por causa da pandemia: metade em Copenhague, na Kaos Pilot, e metade em Tel Aviv, na Tel Aviv University.
"A Dinamarca e Israel tiveram modelos absolutamente opostos de aprendizado", descreve. De um lado, uma escola conhecida por modelos livres e pouco estruturados; do outro, uma universidade tradicional, com professores renomados e formato programático.
Passado o curso, Rocha diz notar diferença na forma como conduz conversas com executivos mais seniores.
"Quando você tem a cabeça aberta dessa maneira para disciplinas que não estão no seu dia a dia, mas que você já entendeu com a profundidade necessária, o nível de interlocução que você tem com executivos mais sêniores é outro"
Carolina Rocha, criadora do método Arquitetura da Pausa e ex-aluna do ABP-W da Saint Paul
Neste ano, o ABP-W completa dez anos, marco que ela associa ao aumento gradual da presença feminina em conselhos de administração no país. "Ainda somos muito poucas, mas eu acho que a BPW tem uma contribuição importante para mudar esse cenário."
Do cansaço no sabático à Arquitetura da Pausa
Foi durante o próprio sabático, e não antes dele, que Rocha diz ter percebido a origem de um cansaço que não desaparecia mesmo com a agenda livre. "Quando eu estava no sabático e tinha todo o tempo livre, eu ainda assim me sentia cansada", relata.
A partir daí, passou a pesquisar a relação entre tempo, trabalho e energia, tema que estuda há mais de dois anos e que deu origem ao método Arquitetura da Pausa.
"Do ponto de vista de processos, governança e dentro de uma própria empresa, pausa é parte da performance", diz. Rocha cita o crescimento dos casos de burnout, com CID própria reconhecida há poucos anos e expansão de três dígitos percentuais ao ano, como sinal de que a forma como as empresas lidam com o cansaço já afeta os resultados.
O método é também o tema de seu capítulo no livro colaborativo "Carreira é Ação", escrito ao lado de 22 coautores, muitos deles ex-colegas do Google. No texto, ela descreve sete tipos de cansaço e formas de identificá-los no dia a dia, testados também em uma autoavaliação gratuita disponibilizada em um site sobre o método.
Para o cansaço mental, por exemplo, ela recomenda reduzir a atividade mental antes de dormir, com respiração ou meditação guiada. Para o cansaço criativo, sugere incluir música, arte ou contato com a natureza na rotina, "sem precisar fazer um retiro para isso, dentro da cidade, dentro da sua sacada, dentro do seu escritório".
"A gente está passando por um processo que certamente afeta o resultado das empresas", resume Rocha, ao conectar a discussão sobre a pausa às mesmas ferramentas de governança e estratégia que buscou no ABP-W.
