Ela perdeu tudo nas enchentes do RS. Hoje fatura R$ 1,3 milhão com mercadinhos dentro de indústrias

Há pouco mais de dois anos, Márcia Lima tinha dois mercados autônomos recém-inaugurados, uma dívida crescendo e um contador pronto para encerrar seu CNPJ. As enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul haviam destruído as primeiras lojas da empreendedora.
Hoje, ela opera oito unidades dentro de grandes indústrias, prepara a inauguração da nona e fatura R$ 1,3 milhão por ano. O detalhe é que a ideia do negócio nasceu justamente dentro da Braskem, onde trabalhou por quase duas décadas — e que, num primeiro momento, descartou o projeto.
"Empreender tem dias em que você quer conquistar o mundo e tem dias em que quer jogar tudo para o alto", diz a empreendedora.
Como uma ideia rejeitada virou um negócio
Durante 19 anos, Márcia trabalhou no polo petroquímico de Triunfo, na região metropolitana de Porto Alegre. Nos últimos nove, ocupou uma função administrativa na associação de funcionários da Braskem, responsável por desenvolver iniciativas voltadas ao bem-estar dos colaboradores.
Foi nesse período que surgiu a oportunidade de empreender. A empresa buscava uma alternativa para substituir uma loja de conveniência tradicional instalada dentro de uma de suas plantas industriais. Coube a Márcia pesquisar soluções que pudessem atender essa demanda.
Ela visitou fornecedores, avaliou diferentes modelos de autoatendimento e chegou aos mercados autônomos, um formato que ainda dava os primeiros passos no Brasil.
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"Na época, acharam que era inovador demais. Havia receio de furtos e de que o modelo não funcionasse dentro de uma planta petroquímica", afirma.
Pouco tempo depois, a associação onde trabalhava iniciou o encerramento das atividades durante a reestruturação da Braskem. Sem a perspectiva de continuar na empresa, Márcia decidiu apostar justamente no projeto que havia sido rejeitado.
Investiu cerca de R$ 60 mil para abrir duas unidades da franquia Minha Quitandinha em condomínios residenciais na região de Montenegro, no interior gaúcho. A rede fundada em 2020, funciona com mercadinhos autonômos 24 horas por dia e soma 870 unidades vendidas.
O plano era aprender a operar o modelo antes de voltar a oferecê-lo para grandes empresas. Ela não imaginava que esse aprendizado seria interrompido poucos meses depois.
As enchentes destruíram as primeiras lojas
As duas unidades tinham apenas alguns meses de funcionamento quando foram atingidas pelas enchentes de 2024.
Márcia conseguiu retirar apenas alguns equipamentos antes que a água tomasse conta dos condomínios. Freezers e refrigeradores foram salvos. O restante do estoque foi perdido.
Quando a água baixou, percebeu que o problema não era apenas reconstruir as lojas.
Os condomínios haviam mudado completamente de realidade. Muitos moradores deixaram a região, o poder de compra caiu e os síndicos decidiram não retomar as operações.
Sem receita, a empreendedora acumulou uma dívida de R$ 22 mil com fornecedores. A própria casa também foi atingida e ela perdeu um carro.
"Entrei em contato com o meu contador e pedi para dar baixa no CNPJ", cointa.
A antiga empregadora virou fornecedora
Enquanto se preparava para desistir do negócio, Márcia recebeu uma ligação inesperada.
Durante as enchentes, funcionários da Braskem permaneceram isolados dentro das plantas industriais e a companhia voltou a discutir formas de oferecer alimentação e conveniência aos colaboradores.
O projeto recusado meses antes passou a fazer sentido. A empresa procurou Márcia para implantar cinco mercados autônomos.
O desafio era que ela praticamente havia perdido toda a estrutura financeira para atender ao contrato.
Sem capital para investir, procurou novamente a franqueadora. A Minha Quitandinha aportou R$ 20 mil para ajudá-la a recomeçar. Fornecedores concederam prazos maiores para pagamento e amigos participaram da montagem das unidades. Em apenas dois meses, as cinco lojas estavam em operação.
"Quando terminei esse período, todos os fornecedores estavam pagos e eu já tinha dinheiro para montar a quarta loja", diz Márcia.
O diferencial foi conhecer a rotina das indústrias
Hoje, Márcia não atua mais em condomínios. Toda a operação está concentrada dentro de empresas do polo petroquímico gaúcho.
Na prática, o conhecimento acumulado ao longo de quase duas décadas trabalhando nesse ambiente acabou se tornando um dos principais diferenciais do negócio.
Ela conhece os turnos de trabalho, entende o perfil de consumo dos funcionários e adaptou o mix de produtos para atender quem faz refeições rápidas durante o expediente.
As lojas também passaram a exercer um papel que vai além da conveniência. Em parceria com as empresas, recebem campanhas internas, ações de saúde, iniciativas de recursos humanos e eventos sazonais.
"Ela deixa de ser apenas uma loja. Funciona como um braço do RH."
Para abastecer as unidades, Márcia montou uma central de distribuição própria, onde recebe mercadorias, separa pedidos e organiza diariamente a reposição das lojas.
O foco agora é profissionalizar antes de crescer
A empresa encerrou o último ano com faturamento de aproximadamente R$ 1,3 milhão. Hoje, são oito lojas em operação e uma nona prevista para agosto.
Apesar da expansão, a prioridade deixou de ser abrir novas unidades a qualquer custo. Depois de crescer rapidamente, Márcia decidiu dedicar este ano à profissionalização da empresa.
A empreendedora está revisando a política de preços, processos e passou a acompanhar indicadores financeiros mais de perto para entender quanto a operação consegue absorver antes de acelerar novamente.
O próximo passo é comprar mais um veículo para reforçar a logística e preparar a expansão para outras empresas da região de Montenegro.
"O foco agora é organizar a casa. Crescer é importante, mas crescer com qualidade é mais importante", afimra.
Depois de quase perder tudo, a empreendedora diz ter aprendido que abrir novas unidades é apenas parte da equação. "O desafio não é crescer. É construir uma empresa capaz de sustentar esse crescimento", diz.
