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Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
03/11/2026
6 min

Ela veio estudar moda em SP, ficou sem emprego e hoje faz até R$ 300 mil por mês com um pão baiano

Nascida na cozinha de um apartamento, a Oxe Pãozinho adaptou recheios e formatos de venda para conquistar consumidores além da comunidade baiana

Ela veio estudar moda em SP, ficou sem emprego e hoje faz até R$ 300 mil por mês com um pão baiano
RESUMO +

A empreendedora baiana Juliana Sena criou a fabricante de pão delícia Oxe Pãozinho durante a pandemia, após perder uma vaga de trabalho, e hoje mantém duas lojas em São Paulo. A empresa chega a faturar R$ 300 mil por mês, com variações. Antes de franquear, Sena planeja investir em uma fábrica maior e ampliar as vendas corporativas.

Juliana Sena havia pedido demissão para assumir uma vaga em outra empresa de moda quando a pandemia interrompeu a contratação. Faltava o exame admissional, mas até os locais que faziam o procedimento fecharam. Formada em design de moda, a baiana tinha saído de Salvador para cursar uma pós-graduação em São Paulo. Sem trabalho e sem previsão de contratação, começou a cozinhar para ocupar a cabeça.

Uma das receitas era o "pão delícia", iguaria presente nas festas de sua terra natal. Da cozinha do apartamento nasceu a Oxe Pãozinho, que hoje mantém duas lojas na capital paulista e chega a faturar R$ 300 mil por mês. Sustentado por 12 meses, esse patamar equivaleria a cerca de R$ 3,6 milhões — a receita mensal, porém, varia, segundo a fundadora.

Entre uma ponta e outra, Juliana precisou aprender a produzir em escala, atender empresas e vender um alimento conhecido pelos baianos a consumidores que nunca tinham ouvido falar dele. A saudade ajudou a encontrar os primeiros compradores. Para crescer, foi preciso ir além desse público. 

“A gente precisa conquistar o público paulista, não adianta vender só para baiano”, diz Juliana Sena, fundadora da Oxe Pãozinho.

Como uma receita de casa virou uma empresa

A cozinha já tinha aparecido nos planos de Juliana antes da moda. Gastronomiaera sua primeira opção de faculdade, mas os pais se opuseram por receio das perspectivas profissionais. Anos depois, com a carreira interrompida, ela voltou às receitas.

O pão delícia foi primeiro para uma rodada de testes entre primos baianos. Juliana queria saber se o produto estava bom ou se a saudade estava influenciando sua avaliação. Recebeu elogios e críticas que ajudaram a ajustar a receita antes de começar a vender.

O lançamento veio antes do planejamento: uma prima publicou o pão nas redes sociais e marcou o contato pessoal de Juliana. Três interessados apareceram. Ela ainda não tinha estrutura para receber os pedidos, mas criou a marca, comprou embalagens e começou a produzir.

No apartamento, fazia tudo sozinha. Batia a massa e ralava o queijo à mão, fotografava os produtos e cuidava das vendas. Uma batedeira de R$ 300, comprada com dinheiro da rescisão do emprego anterior, ajudou a reduzir o trabalho manual.

As recomendações trouxeram novos clientes, até que o espaço de casa se tornou insuficiente. Juliana alugou um imóvel para a produção e contratou o primeiro funcionário. A decisão aumentava as despesas quando o negócio ainda tinha pouco caixa, mas permitia produzir mais e separar a rotina doméstica da empresa.

“A maior parte dos investimentos que a gente fez, na hora, não fazia sentido financeiramente. A gente não tinha caixa para isso”, afirma Juliana.

A chegada de compradores corporativos exigiu outro avanço. Para fornecer a empresas, era necessário cumprir exigências sanitárias e de documentação. A empreendedora investiu R$ 40 mil na reforma de um espaço para estruturar a fábrica.

O negócioganhava capacidade, mas ainda enfrentava uma dificuldade comercial: explicar o produto a quem não o conhecia.

Como um pão baiano passou a disputar espaço com brownies

A menor caixa da Oxe tinha 12 unidades. Para quem já conhecia o pão delícia, a quantidade fazia sentido. Para um consumidor diante de um alimento desconhecido, representava uma barreira à primeira compra.

Juliana percebia isso nas perguntas dos vizinhos da central de produção, instalada na Vila Olímpia. Eles viam as caixas saindo, queriam saber o que havia dentro e iam embora sem experimentar. Um espaço vazio no imóvel virou uma pequena loja, inaugurada em agosto de 2023, onde passou a ser possível comprar uma unidade.

A entrada no iFoodampliou essa mudança. O pãozinho deixava de depender apenas de encomendas e passava a disputar compras menores, feitas para consumo imediato. “Eu vou concorrer com cookie, eu vou concorrer com brownie, eu vou concorrer com a fatia de bolo”, diz Juliana.

Também foi necessário adaptar o cardápio. Juliana passou a combinar o pão baiano com sabores conhecidos do consumidor local. Um deles foi a carne louca, que se tornou um dos recheios mais vendidos da marca.

A escolha provocou estranhamento entre baianos acostumados à versão tradicional de queijo. Para Juliana, porém, a adaptação ajudava a ampliar o mercado: quem não tinha memória afetiva ligada ao produto precisava encontrar outros motivos para comprá-lo.

A unidade de Pinheiros levou essa estratégia para o café da manhã e os sanduíches. O pão delícia passou a ser servido com ovos mexidos e com catupiry na chapa, entre outras preparações. A proposta era inseri-lo em refeições que o cliente já fazia.

As duas lojas mantêm funções diferentes. A Vila Olímpia segue como loja de fábrica, com uma operação menor. Pinheiros oferece um cardápio mais amplo e espaço para apresentar novas formas de consumir o produto.

“Não, a gente quer que seja algo que vire uma rotina, que vire parte dessa rotina do paulista”, afirma Juliana.

Como crescer antes de abrir franquias

A loja de Pinheiros também funciona como uma porta de entrada para encomendas maiores. O cliente experimenta um sanduíche ou toma café e pode passar a considerar o pão delícia para uma reunião de trabalho ou uma festa.

É nesse mercado que Juliana concentra agora seus esforços. Em Salvador, o produto circula em casamentos, encontros familiares e eventos corporativos. A empreendedora quer ampliar esse hábito entre seus clientes em São Paulo, onde empresas já compram da Oxe.

“No final das contas, a gente quer atrair esse público que compra em quantidade”, diz a empresária.

Novas lojas continuam nos planos. A marca recebe pedidos para chegar a bairros e regiões como Mooca e Alphaville, inclusive de clientes que gostariam de consumir mais, mas esbarram no custo do frete.

Juliana também relata receber interessados em franquias. Antes de oferecer esse modelo, porém, quer ampliar a estrutura que abastecerá a rede.

A prioridade é investir em uma fábrica maior, concentrar a produção e organizar os processos. A expansão por franquias viria depois dessa etapa, com a operação preparada para fornecer às unidades e reproduzir o padrão dos produtos.

“Franquear, a gente precisa estar estruturando essa empresa internamente”, afirma Juliana. “Não só pessoas, a questão de processos acho que é muito importante.”

AutorGuilherme Gonçalves
FonteExame
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