Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
CarreiraBDR
25/08/2026
7 min

Ela virou CEO da Uber aos 33 anos e ainda é motorista pelo aplicativo

A engenheira Silvia Penna entrou na Uber em 2016 como gerente de operações e chegou ao comando da operação brasileira seguindo um conselho de um líder

Ela virou CEO da Uber aos 33 anos e ainda é motorista pelo aplicativo

Silvia Penna tinha 33 anos quando assumiu o comando da Uber no Brasil, em outubro de 2021. Engenheira civil de formação, a mineira entrou na companhia em 2016, como gerente de operações em Belo Horizonte, e não imaginava que chegaria tão cedo à principal cadeira da empresa no país.

Hoje, mesmo como CEO, Penna mantém um hábito pouco convencional para quem ocupa o topo da companhia: de vez em quando, liga o aplicativo e dirige como motorista parceira da Uber.

A prática não é uma obrigação, mas é estimulada entre as lideranças, inclusive pelo CEO global, Dara Khosrowshahi, como uma forma de conhecer o produto pelo outro lado da tela.

Usando o serviço, você identifica oportunidades e entende dificuldades. Quando você entende a experiência, é muito mais fácil traduzir isso em números na sua cabeça, conciliar as oportunidades e entender quais são os desafios”, afirma Penna, em entrevista exclusiva ao De Frente com CEO, da EXAME.

Veja também: Presidente da Petrobras: ‘Um dia cheguei na obra e pararam tudo, porque diziam que mulher dava azar’

A experiência que veio com a corrida da CEO

A experiência já levou a mudanças no próprio aplicativo.

Em uma das vezes em que dirigiu recentemente, Penna iniciou uma corrida e, sem querer, encerrou a viagem logo em seguida ao apertar duas vezes o botão. Ao tentar resolver o problema pelo suporte, percebeu que não encontrava um caminho simples para aquela situação.

Eu fui acionar o suporte para tentar voltar a viagem, e não consegui. A gente voltou e falou: ‘Como podemos melhorar essas situações que não são tão comuns, mas acontecem?’”, afirma.

O episódio resume uma característica que a executiva tenta levar para a liderança: não depender apenas dos dados para entender um negócio que acontece, todos os dias, na rua.

Veja também: ‘Você trabalha de casa, mas não cresce de casa’, diz CEO sobre home office

Silvia Penna, CEO da Uber Brasil: “Eu não imaginava no cargo de CEO, não foi algo planejado” (Leandro Fonseca /Exame)

De engenheira civil à tecnologia

A trajetória de Penna até a presidência da Uber não começou com um plano de chegar ao setor de tecnologia.

Penna escolheu a engenharia civil por afinidade com matemática e física. No início da carreira, trabalhou com construção pesada e chegou a fazer cálculos de estruturas.

Quando eu me tornei engenheira civil, nem imaginava que iria para o setor de tecnologia”, diz.

A formação, porém, acabou se tornando uma vantagem em uma companhia movida por algoritmos e grandes volumes de informações.

Aqui na Uber são tantos dados que esse raciocínio cartesiano, essa capacidade analítica, é uma base muito importante para decisões estratégicas.”

Ao longo da carreira, Penna percebeu que seu caminho estava migrando da parte técnica para a gestão. Depois da engenharia, passou por consultoria, onde ganhou contato maior com estratégia, antes de chegar à Uber.

Veja também: O melhor líder é o 'líder desnecessário’, diz CEO da Amazon Brasil

Seis meses de teste antes da cadeira de CEO

Em 2021, surgiu uma oportunidade que não estava nos planos. Com a saída de sua antecessora, Claudia Woods, Penna assumiu interinamente a liderança da Uber no Brasil enquanto a companhia procurava um novo nome para o cargo.

Inicialmente, ela própria não estava na disputa.

Eu não imaginava no cargo de CEO, não foi algo planejado”, diz.

Foram cerca de seis meses comandando a operação de maneira interina. Nesse período, Penna passou a lidar diretamente com áreas que antes não estavam sob sua responsabilidade.

Eu aprendi muito com todas as áreas da Uber. Outras áreas que eu não gerenciava diretamente, fui aprendendo e me tornando mais completa.”

A experiência mudou sua percepção sobre a vaga.

Eu vi que estava funcionando e vi que tinha o apoio das pessoas, o apoio da liderança”, afirma Penna. “Foi fundamental construir um time unificado e ver esse time traduzindo uma visão única, todos com uma visão estratégica igual e trazendo valores culturais em que eu acreditava.

No fim do processo, Penna decidiu se candidatar à posição ao lado dos demais concorrentes.

Em outubro de 2021, aos 33 anos, assumiu oficialmente o comando da Uber no Brasil.

Veja também: O ano sabático fez esse CEO repensar o sucesso e a forma de liderar: ‘O glamour pode te desviar’

O conselho do líder que ajudou a chegar ao topo da Uber

Penna atribui parte dessa ascensão a uma lógica de carreira que aprendeu com um antigo chefe: em vez de pensar apenas no próximo cargo, procure aquilo que ainda falta aprender.

Eu tive um chefe que falava: ‘Procure sempre os espaços brancos da sua carreira’. Qual é aquele espaço que você não conhece, em que você não trabalhou? Vá sempre pensando em preencher aqueles espaços brancos e se tornando mais completa.

Na prática, isso significou acumular experiências diferentes em vez de construir uma trajetória totalmente linear: engenharia, construção, consultoria, operações, estratégia e liderança.

Ela afirma que não estava se preparando especificamente para ser CEO. O objetivo era ampliar o repertório profissional para estar pronta para oportunidades que ainda nem sabia quais seriam.

A preparação a gente sempre faz pensando em como pode desenvolver alguma coisa que ainda não sabe”, diz.

Silvia Penna, CEO da Uber: “Às vezes a gente escuta mais feedback do usuário. Por isso é importante também dirigir e sentir” (Leandro Fonseca /Exame)

Qual é o ‘superpoder’ de uma CEO?

Quando questionada sobre quais habilidades a ajudaram a chegar ao comando da empresa tão jovem, Penna evita apontar apenas a capacidade analítica herdada da engenharia.

Para ela, sua principal característica está em conseguir unir diferentes equipes em torno do mesmo objetivo.

Todo mundo talvez tenha um superpoder ou uma característica. Onde eu tenho mais animação é nessa capacidade de coesão, de trazer todos os times, uni-los num objetivo e ter essa visão em que todo mundo se vê chegando lá”, afirma.

A habilidade ganhou ainda mais importância em uma operação que precisa equilibrar decisões locais com uma estrutura global.

Penna diz que parte de seu trabalho é comandar o Brasil e outra parte é “advogar” internamente pela operação brasileira, disputando prioridade para produtos, investimentos e desenvolvimento tecnológico.

Veja também: CEO da Nestlé Brasil: 'Às 18h eu vou embora do escritório, não importa o que aconteça'

Maternidade ensinou a dizer ‘não consigo’

Outra transformação na maneira de liderar aconteceu fora do escritório.

A maternidade, segundo Penna, obrigou a executiva a reconhecer algo que, até então, tinha dificuldade em admitir: nem sempre é possível dar conta de tudo.

A maternidade me colocou nessa posição em que sou obrigada a falar: ‘Não consigo hoje’ ou ‘Isso não vai dar’.

Para ela, assumir vulnerabilidades acabou fortalecendo sua relação com a equipe.

Fui aprendendo que uma coisa que eu achava que era uma fraqueza, que eu não queria expor, se torna, de alguma maneira, uma fortaleza.”

Veja também: “A vida é sobre prioridades, não equilíbrio”, diz Ana Bógus, CEO da Nivea Brasil

O que uma CEO descobre no volante

É também na prática que Penna tenta continuar encontrando os “espaços brancos” da própria gestão.

Ao dirigir pelo aplicativo, a CEO passa a ocupar a posição de um grupo muito menor do que a base de consumidores da plataforma: são mais de 2 milhões de motoristas parceiros, diante de 140 milhões de brasileiros que já fizeram uma viagem pela Uber, segundo a companhia.

Essa diferença, diz ela, pode fazer com que os executivos tenham contato mais frequente com a experiência do passageiro do que com a de quem está ao volante.

Às vezes a gente escuta mais feedback do usuário. Por isso é importante também dirigir e sentir”, afirma.

Para uma engenheira acostumada a tomar decisões a partir de dados, dirigir para a própria plataforma funciona como uma forma de adicionar uma camada que uma planilha não consegue reproduzir: a experiência.

Na carreira, Penna também descobriu que nem tudo cabe em cálculos ou segue uma rota prevista. Da engenharia civil à cadeira de CEO, foi preciso recalcular o caminho algumas vezes, e enxergar oportunidades justamente onde o plano original terminava.

O conselho que recebeu anos atrás de um líder continua resumindo bem o seu percurso na Uber: procure os espaços ainda em branco e preencha-os antes que a próxima oportunidade apareça.

Veja a entrevista completa no "De frente com CEO", programa da EXAME que entrevista os líderes das maiores empresas do Brasil:

AutorLayane Serrano
FonteExame
Distribuído por