Ela viu o pai fabricar portas no quintal de casa. Hoje é CEO de uma indústria de R$ 59 milhões
Giordania Tavares ajudou a transformar a Rayflex, um negócio que nasceu em casa, em uma fabricante de portas industriais usadas por empresas como Nestlé, JBS e AstraZeneca. Agora, prepara vendas para os EUA

RESUMO +
A fabricante de portas rápidas industriais Rayflex foi selecionada para a edição 2026 do EXAME Negócios em Expansão após faturar R$ 59,1 milhões em 2025, alta de 23,30% ante 2024, segundo o levantamento. Criada há cerca de 38 anos, a empresa produz em Mogi das Cruzes. A Rayflex exporta para a América Latina e prepara projetos para os Estados Unidos.
Durante décadas, muitas fábricas precisaram resolver um problema simples: como controlar melhor a passagem de pessoas, veículos e mercadorias sem interromper a operação. Foi nesse espaço entre logística, higiene e segurança industrial que surgiu o mercado de portas rápidas, equipamentos que abrem e fecham em alta velocidade para separar ambientes dentro das empresas.
A Rayflex entrou nesse mercado depois de começar com outro produto. A empresa nasceu há cerca de 38 anos, quando João Batista Tavares vendia e fabricava portas de PVC usadas em açougues e supermercados. A produção começou no quintal de casa e cresceu até chegar a uma fábrica em Mogi das Cruzes, na região metropolitana de São Paulo.
A história volta a ganhar atenção agora porque a empresa foi uma das selecionadas para a edição 2026 do EXAME Negócios em Expansão, o maior prêmio para empreendedores do Brasil. A Rayflex aparece na categoria de empresas com receita entre R$ 30 milhões e R$ 150 milhões. Em 2025, registrou receita líquida de R$ 59,1 milhões, contra R$ 47,9 milhões em 2024, uma expansão de 23,30%, segundo os dados do levantamento.
O próximo passo da empresa é ampliar a atuação fora do Brasil. A Rayflex já vende para países da América Latina e iniciou movimentos para entrar em novos mercados, como Chile e Argentina. Ao mesmo tempo, prepara projetos para os Estados Unidos, segundo a executiva.
Do quintal de casa para a indústria
Antes de criar a Rayflex, João Batista trabalhava como representante comercial de uma empresa do Rio de Janeiro que vendia portas de PVC. O contato com o produto mostrou uma oportunidade de negócio.
Quando a empresa representada passou por dificuldades, ele decidiu começar a produzir as portas por conta própria. Na época, a estrutura era pequena. O escritório cuidava das vendas, enquanto a fabricação acontecia no quintal da família.
Giordania acompanhou esse início. Ela começou a trabalhar com o pai aos 13 ou 14 anos, ajudando em atividades como orçamento, faturamento, cobrança e vendas internas.
Com o aumento dos pedidos, a empresa deixou o quintal de casa e passou por outros espaços até chegar à estrutura atual. O crescimento também trouxe uma mudança na forma de olhar para o mercado.
"O mercado também sinaliza muito. Você vai indo para o seu produto e o empresário tem que estar atento a isso", afirma Giordania Tavares, CEO da Rayflex e filha de João Batista.
A chegada das portas rápidas
A mudança mais importante na trajetória da Rayflex veio a partir de uma conversa com um cliente. Ele contou a João Batista que a matriz da empresa, na Alemanha, usava outro tipo de equipamento e sugeriu que ele conhecesse a tecnologia.
O empresário viajou para entender o funcionamento das portas rápidas industriais. Naquele momento, o produto ainda era pouco conhecido no Brasil e tinha custo elevado, o que restringia as vendas principalmente às multinacionais que já conheciam a tecnologia em suas operações no exterior.
A Rayflex passou a representar a fabricante alemã e trabalhou com os dois produtos: as portas de PVC e as portas rápidas.
A virada seguinte veio com uma crise cambial em 1999. A desvalorização do real aumentou o custo da importação e pressionou o caixa da empresa. Foi quando a parceira alemã autorizou a Rayflex a produzir as portas rápidas no Brasil, fornecendo conhecimento técnico, fornecedores e orientações para a fabricação.
A produção nacional reduziu o custo do equipamento e permitiu que a tecnologia chegasse a mais empresas.
De uma porta para um projeto industrial
Com o passar dos anos, a Rayflex mudou a forma de vender seus produtos. Em vez de apenas comercializar um equipamento pronto, a empresa passou a trabalhar com projetos adaptados à operação de cada cliente.
Uma indústria farmacêutica, uma fábrica de alimentos ou um centro de distribuição podem ter necessidades diferentes de tamanho, velocidade de abertura e controle do ambiente. Por isso, a venda envolve análise técnica, definição do equipamento e acompanhamento da instalação.
"É projeto, a gente vende projeto. Por mais que seja um equipamento, ele tem uma configuração um pouco padrão, mas cada cliente tem uma especificação diferente, uma medida diferente, uma necessidade diferente", afirma Giordania.
A empresa mantém vendedores próprios, representantes e parceiros de negócio. Também criou uma área de serviços para acompanhar as instalações. Como as portas chegam desmontadas ao cliente, equipes homologadas fazem a montagem e a manutenção.
Segundo a executiva, essas equipes são treinadas e monitoradas pela empresa para manter o padrão de instalação.
Onde estão os clientes da Rayflex
A expansão da tecnologia levou a empresa para diferentes setores industriais. Hoje, as portas rápidas são usadas por empresas de alimentos, farmacêuticas, automotivas, centros logísticos e outros negócios que precisam controlar o fluxo dentro das instalações.
Entre os clientes estão Eurofarma, Sanofi, AstraZeneca, Instituto Butantan, Nestlé, JBS e Mondelēz.
A pandemia foi um momento de maior atenção para esse tipo de equipamento. Segundo Giordania, as empresas passaram a olhar mais para controle de processos, segurança dos funcionários e qualidade dos produtos.
A porta rápida passou a ser vista como parte da estrutura de controle de ambientes, ajudando a reduzir a entrada de poeira e outros elementos externos em áreas de produção.
Expansão para outros países
Depois de consolidar a operação no Brasil, a Rayflex passou a buscar clientes fora do país. A empresa já exporta para mercados como Uruguai, Paraguai, Bolívia, Colômbia e México, além de ter iniciado operações em Chile e Argentina.
A estratégia internacional envolve adaptar produtos e criar estruturas de atendimento em cada mercado. A empresa também trabalha em um projeto voltado aos Estados Unidos.
Para sustentar essa expansão, a companhia mantém uma área de engenharia e pesquisa e desenvolvimento, responsável por adaptar produtos, estudar novos materiais e avaliar mudanças nos processos de fabricação.
Os desafios de crescer em um mercado de nicho
Apesar da expansão, a empresa enfrenta desafios ligados ao tamanho do próprio mercado. Segundo Giordania, o segmento de portas rápidas industriais tem poucos fabricantes e não conta com muitos dados públicos para orientar decisões.
"Você não tem dados de mercado. Não é como outras empresas que estão dentro da farmacêutica, que têm mais informações e dados entre eles. Nós não temos", afirma.
Para lidar com essa falta de informações, a empresa acompanha o histórico interno de vendas, analisa dados próprios e observa movimentos de outros mercados.
Além disso, a Rayflex acompanha desafios relacionados a fornecedores, custos de matérias-primas, capacidade de produção e contratação de profissionais.
"A empresa está crescendo, então desafios de produção também. Mas sempre pensando no custo do produto, como diminuir esse custo, onde entra a engenharia para trabalhar em cima de matérias-primas", afirma Giordania.
O que é o ranking Negócios em Expansão
O ranking EXAME Negócios em Expansão é uma iniciativa da EXAME e do BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME).
O objetivo é encontrar as empresas emergentes brasileiras com as maiores taxas de crescimento de receita operacional líquida ao longo de 12 meses.
Em 2026, a pesquisa avaliou as empresas que mais conseguiram expandir receitas ao longo de 2025.
São 491 empresas que criam produtos e soluções inovadoras, conquistam mercados e empregam milhares de brasileiros.
