Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
19/10/2026
7 min

Elas deixaram a moda para investir R$ 2 milhões em uma nova tendência de bebidas

Ines Nespoli e Stephania Egli fundaram a Tintin com o propósito de explorar o mercado de drinques sem álcool e com baixo teor alcoólico, apostando na coquetelaria brasileira e em um consumidor que busca beber com mais consciência

Elas deixaram a moda para investir R$ 2 milhões em uma nova tendência de bebidas

Duas profissionais do ramo da moda decidiram empreender no mercado de bebidas. A motivação é a crescente queda no consumo de bebidas alcoólicas pelos brasileiros. Segundo pesquisa da Ipsos-Ipec para a publicação Álcool e a Saúde dos Brasileiros: Panorama 2025, 64% dos brasileiros declararam não beber, número consideravelmente maior que o registrado em 2023, quando a proporção era de 55%.

“Eu parei de beber álcool. Percebi que ficar sem beber me fazia muito bem: eu tinha mais energia, disposição e clareza mental. Foi a partir dessa experiência que percebemos que havia uma demanda reprimida no Brasil e decidimos criar a Tintin”, diz Ines Nespoli, cofundadora da Tintin.

A marca foca em drinques prontos para beber das categorias No&Low Alcohol, ou seja, sem álcool ou com teor alcoólico reduzido, de até 3%. A empresa começou a ser idealizada em março de 2025 e acaba de chegar ao mercado com a primeira fórmula da marca: Carysma, com 2,8% de álcool e ingredientes como catuaba, marapuama e jurubeba.

As empreendedoras não revelam a expectativa de faturamento para o primeiro ano, mas contam que esperam dobrar a receita do primeiro para o segundo ano e, depois, crescer 50% ao ano até o quinto ano de operação. Para isso, a empresa aposta nos mercados B2C e B2B.

Da moda às bebidas sem álcool

Stephania Egli construiu sua carreira nos mercados de moda, luxo e lifestyle, trabalhando no marketing de marcas internacionais. Ines Nespoli tem experiência em agências publicitárias e também atuou como diretora de arte nas áreas de moda e beleza.

Ambas tinham o desejo de empreender e passaram a observar o mercado de wellness. “O wellness já fazia parte da nossa vida. E, por trabalharmos com criatividade e comunicação, temos as antenas muito ligadas às tendências e conseguimos identificar o que o mercado está buscando, muitas vezes a partir das nossas próprias demandas e experiências”, diz Ines.

A partir do desejo pessoal das empreendedoras de reduzir o consumo de álcool e da percepção de que havia poucas marcas de drinques sem álcool, surgiu a ideia de desenvolver a Tintin.

As principais marcas de cerveja, como Heineken, Brahma e Itaipava, já apostaram no lançamento de versões sem álcool, mas outras categorias de drinques ainda são pouco exploradas no mercado brasileiro.

“Nunca quisemos ser uma marca ativista ou militante contra a bebida. Por isso, trabalhamos também com a categoria low álcool. Nosso primeiro lançamento segue essa proposta, mas teremos um portfólio mais amplo, incluindo opções de drinques sem álcool”, afirma Stephania.

A ideia surgiu em março de 2025, e o investimento inicial foi de R$ 2 milhões. Para desenvolver a fórmula, as empreendedoras contrataram mixologistas que pudessem criar uma bebida com baixo teor alcoólico, mas com um perfil sensorial complexo.

“Pesquisamos os mercados brasileiro e internacional, mas queríamos valorizar a nossa identidade, explorando a riqueza da coquetelaria brasileira e do universo da cachaça, inclusive os nomes mais descontraídos dos rótulos”, diz Ines.

Carysma, primeiro drinque lançado pela Tintin, tem 2,8% de teor alcoólico e leva bitter amazônico, catuaba, marapuama, jurubeba, frutas tropicais brasileiras e especiarias (Alexandre Furcolin)

O responsável pelo desenvolvimento das fórmulas é Jean Ponce, do Guarita Bar. Até chegar ao resultado final, foram testadas cerca de 100 fórmulas. O primeiro drinque foi batizado de Carysma. Com 2,8% de álcool, a bebida é feita com um bitter amazônico desenvolvido exclusivamente para a receita, que leva catuaba, marapuama e jurubeba. A fórmula combina esses botânicos com frutas tropicais brasileiras e especiarias.

“O bitter amazônico traz as nuances mais amargas ao drinque, enquanto os demais ingredientes contribuem para essa sensação de vitalidade, disposição e energia”, afirma Ines.

A aposta em uma nova categoria

O primeiro produto lançado pela Tintin é um drinque low álcool, uma categoria ainda pouco conhecida no Brasil, que engloba bebidas com teor alcoólico reduzido.

A escolha de começar por essa categoria foi uma estratégia para ocupar um espaço ainda pouco explorado no país. Embora os drinques sem álcool também tenham pouca variedade no mercado brasileiro, algumas marcas já atuam nesse segmento. Por isso, as empreendedoras decidiram apostar em uma categoria que consideram ainda mais incipiente no país.

Para elas, as bebidas com baixo teor alcoólico também podem ser uma alternativa para quem não quer deixar de consumir álcool por completo.

“Existe uma grande oportunidade tanto entre quem não quer consumir álcool quanto entre quem busca beber com mais consciência, reduzir o consumo e ter mais qualidade. As pessoas estão lendo mais os rótulos e querem saber a origem dos ingredientes, o que estão consumindo e até os efeitos no dia seguinte”, diz Stephania.

As empreendedoras revelam que uma fórmula sem álcool e outra com teor alcoólico reduzido já estão encaminhadas para lançamento nos próximos meses.

“Um dos principais desafios é educar o consumidor, porque essa ainda é uma categoria muito nova no Brasil. Quando falamos em drinques sem álcool, por exemplo, ainda surgem dúvidas sobre o que eles são e como se diferenciam de outras bebidas. Mas não é uma barreira impossível de superar, até porque existe uma demanda muito grande”, afirma Ines.

A estratégia para ganhar escala

Com fórmula própria, as bebidas são produzidas em uma fábrica terceirizada. O primeiro lote foi o Friends & Family, criado para apresentar a bebida a amigos antes do lançamento oficial.

O sucesso do primeiro lote levou as sócias a antecipar a comercialização do produto e investir em uma estratégia de experimentação. Para apresentar a bebida ao público, elas passaram a participar de eventos já consolidados, especialmente nos segmentos de arte, design, moda e lifestyle, áreas com as quais já tinham familiaridade e acesso a públicos específicos.

As vendas iniciais estão sendo realizadas por meio de um e-commerce próprio e também no bar Guarita. “Agora que entendemos melhor o nosso consumidor e estamos com a operação estruturada, vamos investir em uma estratégia mais agressiva para impulsionar as vendas on-line, com foco no digital nesta nova fase”, afirma Stephania.

Além da participação em eventos, a marca também distribuiu unidades entre criadores de conteúdo.

Ainda neste ano, a Tintin pretende avançar no mercado B2B. Inicialmente, o foco está na venda para restaurantes, bares e hotéis. Em um segundo momento, as empreendedoras esperam chegar a lojas especializadas e supermercados. A longo prazo, a comercialização em pontos de venda será o foco da Tintin.

“Neste primeiro momento, nosso foco está no digital e no e-commerce próprio. Mas, em cinco anos, queremos que esse canal represente, no máximo, 20% do faturamento — idealmente, 10% —, porque nossa ambição é construir uma rede ampla de pontos de venda”, diz Stephania.

A expansão da marca deve começar por São Paulo, mercado que as sócias conhecem melhor e que concentra uma parcela importante do consumo desse tipo de produto. A partir daí, a ideia é avançar para outras regiões do Sudeste e, gradualmente, alcançar o restante do país, respeitando as particularidades de cada mercado.

Embora o e-commerce próprio já atenda a todo o Brasil, a expansão para o varejo físico e o mercado B2B será feita de forma gradual, com foco no crescimento consistente da operação. Nos primeiros 12 meses de operação, a Tintin projeta alcançar cerca de 80 pontos de venda selecionados.

As empreendedoras não revelam a meta de faturamento, mas dizem que projetam dobrar a receita do primeiro para o segundo ano de operação e manter um crescimento de aproximadamente 50% ao ano entre o segundo e o quinto ano. No longo prazo, também planejam expandir a distribuição para além do Brasil.

AutorBianca Camatta
FonteExame
Distribuído por