Ele acaba de abrir uma fábrica de R$ 400 milhões para erguer um império de bebidas no Paraná

A primeira coisa que o paranaense Márcio Mendes fez no mercado de bebidas foi vender o que os outros fabricavam. Comprava, revendia, comprava de novo. Foram sete anos assim, a partir de 2003, até comprar uma fábrica desativada de refrigerante.
Nesta terça-feira, 21, o grupo que ele criou, o RFK, inaugura sua maior unidade, num investimento de 400 milhões de reais no Paraná.
O grupo nasceu em Cambé, no norte do Paraná, e cresceu sem se prender a uma única categoria. Produz refrigerante, energético, cerveja, água mineral e bebidas quentes, com marcas como Refriko, Furioso, Moema, Bamboa, Bella Roma e Hidratar.
São mil funcionários diretos na operação e fábricas espalhadas por Paraná, Mato Grosso do Sul e Pará, além de presença na América Latina. Refrigerante, energético e cerveja respondem por cerca de 30% do faturamento cada; o restante fica com água e as demais linhas.
A nova fábrica, em São José dos Pinhais, na região metropolitana de Curitiba, é o maior investimento da história da companhia.

Fica num terreno de 300 mil metros quadrados que antes era plantio de soja, e foi projetada do zero em parceria com a alemã Krones, referência mundial em construção de plantas de bebida. A unidade tem capacidade para produzir até 2 milhões de unidades por dia — entre latas e garrafas PET — e, segundo Mendes, produz mais do que as outras quatro fábricas do grupo somadas. A capacidade total da companhia, com ela, mais que dobra.
"O grande desafio da gente nem é crescer, é como fazer cada vez melhor", diz Mendes, que fundou a empresa e hoje tem 48 anos.
A aposta tem alvo: 2 bilhões de reais em faturamento. A meta está no planejamento estratégico até 2030, mas Mendes quer antecipá-la para 2029.
A conta que ele faz é de espaço para crescer. O mercado brasileiro de bebidas movimenta mais de 250 bilhões de reais por ano, e a empresa hoje atende cerca de 30 mil pontos de venda num universo de 2 milhões. "A gente acredita que consegue encher essa planta em menos de três anos", afirma.
Qual é a história da RFK
Mendes começou em 2003 com uma pequena distribuidora. Comprava e revendia bebida de terceiros e, nesse processo, aprendeu a entender cliente e mercado antes de fabricar qualquer coisa. Foram sete anos só de distribuição, entre 2003 e 2010, antes de a primeira garrafa sair de uma linha própria.
Em 2008, comprou uma indústria desativada de refrigerante e levou dois anos para colocá-la para rodar. Foi aí que criou a marca Refriko — de onde vem a abreviatura do nome, do grupo, RFK. Como o grupo já vinha da distribuição, e não da indústria, a primeira fábrica, em Cambé, encheu rápido.
Em vez de ampliar a planta original, o grupo montou uma segunda unidade em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, em 2014. Depois vieram novas ampliações em Cambé, uma planta de água mineral e outra em Belém, no Pará. A de São José dos Pinhais é a quinta.
Desde o início, Mendes fez questão de não amarrar a empresa a um único produto. Hoje refrigerante, energético e cerveja dividem o faturamento quase em partes iguais, e ele resiste a deixar a cerveja crescer demais dentro do portfólio, mesmo com a nova cervejaria puxando o volume para cima. "A gente não quer que vire 70%, não é o foco", afirma.
Por que Curitiba
A decisão de parar de "correr" e planejar veio em 2023, quando as plantas existentes começaram a chegar no limite.
Segundo Mendes, o grupo não parou de construir de 2010 em diante, e ele mesmo já vinha cansado do ritmo. Em vez de repetir o padrão de sempre — encontrar terreno, erguer fábrica às pressas —, a empresa parou para estudar o mapa logístico do país.
A conclusão foi que precisava estar na região metropolitana de Curitiba. O terreno escolhido, uma área rural de plantio de soja, virou o ponto de partida de um projeto desenhado do zero, com a Krones envolvida desde a etapa arquitetônica.
A tese de crescimento é replicar em outras praças o que deu certo na origem. No norte do Paraná, onde nasceu, na região de Londrina e Cambé, a RFK tem participação de mercado alta. O plano é cobrir 100% do Paraná até o ano que vem e avançar sobre São Paulo, o segundo mercado mais importante da empresa, seguido pelo Mato Grosso do Sul.
O raciocínio de expansão também define onde a empresa entra com força. A RFK depende do ponto de venda para chegar ao consumidor — e por isso mira os grandes centros, onde há mais PDVs, deixando as áreas mais distantes para distribuidores parceiros. "Os grandes centros, para a gente, são mais interessantes, porque têm mais PDV", afirma.
Uma nova cerveja
Junto com a fábrica, o grupo lança a Roma, uma cerveja puro malte que também vai se desdobrar na versão ultra, categoria em crescimento no mercado. A RFK entrou no segmento de cerveja há sete anos e passou esse tempo aprendendo a fazer cerveja comercial, não artesanal. Para a nova planta, trouxe cervejeiros alemães da Krones para ajustar as fórmulas.
O nome levou anos para ser definido. Mendes conta que a empresa buscava uma marca forte, com história por trás e fácil de contar — e chegou a Roma depois de descartar várias opções.
A empresa já tem a Moema, voltada ao consumo de massa, e a Bamboa. A Roma entra num padrão mais premium, mas Mendes diz que não pretende exagerar no preço, e liga isso a uma régua de qualidade que aplica a todas as marcas.
"Qualquer produto nosso, em teste cego, vai estar no mesmo nível de qualquer player do mercado", afirma.
A lógica, segundo ele, é cortar custo em tudo, menos no produto. A empresa mede o quanto o consumidor está disposto a pagar por cada marca e tenta entregar mais do que o preço cobrado. "Eu não faço produto para mim. Eu faço produto para o consumidor", diz.
Quais são os desafios no meio do caminho
No energético, a RFK diz estar entre as cinco maiores do país com a marca Furioso, ao lado de nomes como Red Bull e Monster, num mercado que ele estima ter 750 marcas — com novidades quase toda semana. A estratégia foi associar cada categoria a um universo: o energético foi para o mundo sertanejo, com um produto desenvolvido em parceria com a Agroplay, empresa da cantora Ana Castela.
No refrigerante, a lógica é outra. É a categoria da família, em que o bairrismo pesa e a linguagem de comunicação muda. Mendes trata o marketing como parte importante do negócio, mas não como o gargalo dos próximos anos.
Para ele, o maior desafio está no ponto de venda — a execução, a reposição, evitar que o produto falte na prateleira.
É o trabalho de merchandising dentro do supermercado, que hoje esbarra em falta de gente para fazer bem feito. "Talvez o marketing em si seja um pouco mais fácil. Você vai lá, pega uma boa agência, coloca um pouco de dinheiro", diz. "Agora, quando vai para a execução, é um mundo mais difícil."
Boa parte do desafio de execução passa pela distribuição, que a RFK opera em dois modelos ao mesmo tempo. A empresa tem CDs próprios no Paraná e no Mato Grosso do Sul e, ao mesmo tempo, trabalha com distribuidores parceiros em praças como São Paulo. São cerca de 10 centros próprios hoje, e a meta é chegar a 30 até 2028.
Na frota, o desenho é parecido. Cerca de 40% dos caminhões são próprios, por meio de uma transportadora dentro do grupo, e o restante é gerido pela própria equipe de logística, que subloca fretes para não rodar com caminhão vazio na volta.
Mendes trata a distribuição de bebida como um dos pontos mais difíceis do negócio, pela frequência das entregas. Enquanto um varejo de outros setores reabastece uma loja a cada duas semanas, a bebida exige um vendedor que tira dezenas de pedidos por dia para entregar no dia seguinte. "Acho que o setor de alimentos no Brasil é um desafio", afirma.
E a sustentabilidade
A planta foi desenhada para reduzir consumo. O setor de bebidas costuma usar cerca de 5 litros de água para produzir 1 litro de produto; a meta da nova fábrica é chegar a 2. Parte disso vem de escolhas de projeto, como uma estação de tratamento por gravidade, que dispensa bombas para levar a água até o tratamento.
A energia também entra na conta. Segundo a empresa, a nova planta reduz em mais de 60% o consumo por litro produzido em relação às unidades atuais, com sistemas de reaproveitamento em várias etapas.
Na cervejaria, o gás carbônico gerado na fermentação é capturado e reaproveitado na gaseificação da bebida, e o calor da fervura é armazenado para uso em etapas que exigiriam caldeira e água quente.
Mendes trata o projeto ambiental como parte da viabilidade financeira da fábrica, e não como discurso à parte. "Não é um desafio, é um sonho", diz sobre a meta de produzir cada litro de bebida com apenas 2 litros de água.
