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10/10/2026
9 min

Ele ajudou a Heineken a dar um salto no Brasil. Agora tem um plano para fazer o mesmo com uma IPA

À frente da operação global da Lagunitas, na Califórnia, Bernardo Spielmann aposta em uma cerveja mais leve para conquistar consumidores brasileiros

Ele ajudou a Heineken a dar um salto no Brasil. Agora tem um plano para fazer o mesmo com uma IPA

Antes de se tornar uma marca global de cerveja, a Lagunitas nasceu no fogão de casa de um vendedor de impressoras na Califórnia. O fundador comprou um kit para produzir a própria bebida, começou a testar receitas e provocou até algumas explosões na cozinha.

Mais de 30 anos depois, aquela experiência caseira se transformou em uma empresa do portfólio da gigante de bebidas Heineken.

Quem comanda a Lagunitas hoje globalmente é o brasileiro Bernardo Spielmann.

A trajetória dele tem uma particularidade: antes de assumir o comando global da cerveja americana, Spielmann ajudou a construir a expansão da própria Heineken no mercado brasileiro, quando a marca ainda tinha uma operação muito menor no país.

Agora, o executivo acompanha uma nova fase de crescimento no Brasil.

A Lagunitas registrou alta de 57% no volume vendido entre janeiro e agosto de 2026, segundo dados da empresa. O resultado é puxado por uma aposta lançada em outubro de 2025: a DayTime, uma versão mais leve da tradicional IPA, estilo de cerveja conhecido pelo amargor mais acentuado.

Com ela, o Brasil já é o maior mercado da Lagunitas nas Américas, depois dos Estados Unidos, e está perto de ultrapassar a França como principal destino internacional da marca.

O brasileiro que ajudou a Heineken a crescer no país

Bernardo Spielmann tem a família toda no Brasil e passou boa para da vida por aqui. Durante os estudos, mudou-se para a Holanda, onde concluiu a graduação e o mestrado.

Foi nesse período que sua história começou a se cruzar com a Heineken. A cervejaria participou do desenvolvimento de sua tese de mestrado e, depois da formação, ele entrou na companhia.

O primeiro trabalho foi no escritório regional da Heineken para a América Latina, que funcionava no Rio de Janeiro. Depois de dois anos e meio, foi transferido para os Estados Unidos, onde passou pelas áreas de vendas e marketing.

Em janeiro de 2011, voltou ao Brasil. A Heineken havia adquirido, no ano anterior, a operação de cervejas da mexicana Femsa, negócio que ampliou a presença da companhia no mercado brasileiro.

Spielmann chegou para liderar a marca Heineken e permaneceu no país por cerca de cinco anos, passando por cargos de gerência e direção de marketing, além da área de patrocínios.

Na época, a cervejaria estava no começo de uma expansão que mudaria sua posição no mercado nacional.

Segundo o executivo, a Heineken vendia aproximadamente 300.000 hectolitros de cerveja no Brasil em 2010. Quando ele deixou o país, o volume se aproximava de 2 milhões de hectolitros.

Era um período em que a companhia tentava convencer o consumidor brasileiro a pagar mais por uma cerveja de uma categoria superior, em um mercado historicamente concentrado em marcas de grande volume.

Depois da passagem pelo Brasil, Spielmann voltou aos Estados Unidos para trabalhar novamente com a marca Heineken. Mais tarde, assumiu responsabilidades globais pelas marcas Amstel e Sol, antes de se mudar para o Panamá como diretor de marketing.

Há cerca de dois anos, chegou ao comando da Lagunitas, com base em Petaluma, na Califórnia, cidade onde a cerveja tem suas raízes. "Para mim é um motivo de grande orgulho poder representar o Brasil, ainda mais no principal mercado da Lagunitas, na Califórnia", afirma Spielmann.

Como uma cerveja feita em casa virou uma marca da Heineken

A história da Lagunitas começa em 1993, quando Tony Magee, que trabalhava com a venda de impressoras, resolveu produzir cerveja por conta própria.

O movimento acompanhava o crescimento das cervejarias artesanais nos Estados Unidos. Magee comprou um equipamento básico e começou a testar receitas no fogão de casa.

"Teve alguns aprendizados, algumas explosões em casa até aprimorar a receita", diz Spielmann.

Nos primeiros dois anos, a cervejaria produzia apenas chope. Foi em 1995, quando começou a vender cerveja em garrafas, que o cachorro passou a aparecer no rótulo. O animal se tornaria um dos principais símbolos da marca.

A Lagunitas ganhou espaço com sua IPA, cerveja de sabor mais intenso, e acompanhou a expansão das artesanais americanas nos anos 2000.

O avanço despertou o interesse da Heineken. Em 2015, o grupo holandês adquiriu 50% da empresa. Dois anos depois, comprou a participação restante, assumindo o controle integral da cervejaria.

A proposta, segundo Spielmann, era aproveitar a estrutura internacional da Heineken sem abandonar a identidade construída pela Lagunitas.

Mas o mercado americano mudou. Depois de anos de expansão, o segmento de cervejas artesanais perdeu fôlego, e a Lagunitas atravessou um período de dificuldades que incluiu os efeitos da pandemia.

É nesse contexto que Spielmann assume o negócio. Sua missão passa pela recuperação da marca nos Estados Unidos e pela expansão em outros países.

Segundo o executivo, a Lagunitas já acumula seis trimestres consecutivos de crescimento e, até agosto de 2026, havia registrado 13 meses seguidos de ganho de participação no mercado americano.

E o Brasil entrou nessa estratégia como um dos mercados com maior espaço para expansão.

A cerveja mais leve que responde por 72% do crescimento

A Lagunitas desembarcou no Brasil em 2019. A ideia era reforçar o portfólio de cervejas de maior preço da Heineken, que já contava com marcas como Baden Baden.

O produto escolhido para apresentar a marca foi a Lagunitas IPA, com sabor mais intenso e amargor característico.

Havia, porém, uma barreira para aumentar o consumo. Segundo Renan Ciccone, a empresa percebeu que parte dos clientes gostava da IPA original, mas não necessariamente a escolhia durante toda a permanência em um bar ou churrasco. Depois de uma garrafa, alguns consumidores migravam para cervejas mais suaves.

A companhia buscou uma alternativa dentro do portfólio americano e encontrou a DayTime.

O produto pertence à categoria session IPA, uma versão de IPA com menor teor alcoólico e proposta mais leve que a receita tradicional.

A DayTime também tem 28 calorias por 100 mililitros, de acordo com a empresa. Com isso, a Lagunitas passou a disputar espaço entre consumidores interessados em bebidas com menos calorias, sem abrir mão das características de uma IPA.

A aposta começou a dar resultado. Lançada no mercado brasileiro em outubro de 2025, a DayTime já responde por pelo menos 22% do volume total da Lagunitas no país.

O impacto sobre o crescimento é ainda maior. Entre janeiro e agosto de 2026, cerca de 72% do volume adicional vendido pela marca veio da nova cerveja.

Ao mesmo tempo, os executivos afirmam que a IPA original continua crescendo. Para a companhia, isso é importante porque indica que o lançamento está acrescentando volume ao negócio, em vez de apenas substituir as vendas da versão tradicional.

A estratégia também acompanha uma transformação no mercado de bebidas: a busca por opções com menos calorias e menor teor alcoólico.

Spielmann afirma que a DayTime já ocupa a quarta posição no portfólio da Lagunitas nos Estados Unidos e está entre as apostas da companhia para ampliar suas vendas. No Brasil, a cerveja também entrou na plataforma de produtos de consumo mais equilibrado da Heineken, ao lado de opções sem álcool e de menor teor calórico.

O desafio agora é transformar o desempenho inicial em crescimento sustentado.

Por que o Brasil pode ultrapassar a França

O Brasil ocupa uma posição cada vez mais relevante nos planos internacionais da Lagunitas.

Há quatro ou cinco anos, segundo Spielmann, o mercado brasileiro representava aproximadamente metade do volume vendido pela marca na França. Essa distância diminuiu.

A França ainda é o maior mercado internacional da Lagunitas, excluindo os Estados Unidos. Mas a expectativa dos executivos é que o Brasil termine 2026 muito próximo do volume francês.

O plano é assumir a liderança entre os mercados internacionais em 2027.

"Não tem como não passar", afirma Renan Ciccone, diretor de marketing, ao comentar a expectativa de ultrapassar a França com a manutenção do crescimento atual.

Parte desse avanço depende de uma expansão geográfica.

Hoje, a IPA tradicional da Lagunitas já conta com distribuição nacional. A DayTime, no entanto, está presente principalmente em São Paulo e nos estados da região Sul.

O próximo passo é avaliar como levar o lançamento para outras regiões do país.

A decisão envolve um desafio comercial. Uma cerveja com posicionamento de preço superior precisa encontrar consumidores dispostos a pagar mais por um produto que ainda está conquistando espaço no mercado.

Também há uma questão de hábito. A IPA costuma ter um sabor mais amargo do que as cervejas mais populares no Brasil. A DayTime tenta reduzir essa distância, mas a companhia ainda precisa convencer o consumidor a experimentar a categoria.

Cachorros, música e a disputa pelo consumidor

A Lagunitas também tenta crescer por caminhos que vão além do sabor da cerveja. A marca procura se conectar a dois universos: música e animais de estimação.

A relação com os cachorros vem desde 1995, quando o animal apareceu pela primeira vez nas garrafas da cervejaria. Nos Estados Unidos, a empresa patrocina até uma competição de surfe para cães.

Na sede de Petaluma, mantém um anfiteatro onde promove apresentações musicais para cerca de 1.000 pessoas por evento.

No Brasil, essa estratégia aparece em parcerias com estabelecimentos que recebem animais, feiras de adoção e ações de marketing ligadas ao universo dos pets.

Durante o Rock in Rio de 2026, a Lagunitas fez uma parceria com a Petlove para oferecer descontos em hospedagens para cães enquanto seus donos participavam do festival. A marca também aproveitou o evento para dar visibilidade à DayTime. Renan Ciccone afirma que o objetivo é criar uma ligação com consumidores mais jovens, que podem ainda não ter o hábito de beber cervejas do estilo IPA.

Essa construção de marca será importante para os próximos passos da empresa.

A Lagunitas precisa disputar espaço em um mercado brasileiro dominado por cervejas de sabores mais leves, ao mesmo tempo em que tenta preservar a identidade artesanal que ajudou a torná-la conhecida nos Estados Unidos.

Para Spielmann, o desafio reúne duas experiências de sua carreira: a expansão da Heineken no Brasil e a recuperação de uma marca americana que agora encontra no consumidor brasileiro uma de suas principais oportunidades de crescimento.

AutorDaniel Giussani
FonteExame
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