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NegóciosMPOL
20/10/2026
11 min

Ele apostou em livros de papel na era da IA para faturar R$ 70 milhões com clubes de literatura

Com operações no Brasil e nos EUA, a BARCA investe em estrutura compartilhada, assinaturas de longo prazo e novos produtos culturais para crescer

Ele apostou em livros de papel na era da IA para faturar R$ 70 milhões com clubes de literatura
RESUMO +

A empresa gaúcha de clubes de assinatura cultural BARCA projeta faturar mais de R$ 70 milhões em 2026, seu primeiro ano como grupo, com 13 clubes e cerca de 65 mil assinantes. Fundada por Lorenzo Fioreze, a companhia aposta em estrutura compartilhada, inteligência artificial e produtos físicos para lançar novos selos no Brasil, nos Estados Unidos, na Europa e na Argentina.

O empresário gaúcho Lorenzo Fioreze gosta de filosofia. Formado na área pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ele cita pensadores, discute teorias científicas e procura encontrar explicações filosóficas até mesmo para as decisões mais práticas de seu negócio.

Em uma entrevista de meia hora à EXAME, o empreendedor de barba e cabelo escuro falou sobre Aristóteles, Karl Popper e o Princípio de Pareto (segundo o qual 80% dos resultados vêm de 20% dos esforços). Entre uma reflexão e outra, Fioreze, com 32 anos de idade, dava tragadas em um cigarro eletrônico.

Por trás do discurso filosófico, porém, existe um empresário que gosta de números. Fioreze é fundador e CEO da BARCA, uma companhia gaúcha que reúne 13 clubes de assinatura de livros, cartas e outros produtos culturais. Com cerca de 65 mil assinantes, a empresa projeta encerrar dezembro com faturamento superior a R$ 70 milhões, completando seu primeiro ano de operação como grupo.

O negócio já alcançou uma receita mensal de R$ 8 milhões em setembro e emprega mais de 140 pessoas, distribuídas entre escritórios em Porto Alegre, Gravataí e Dois Irmãos, no Rio Grande do Sul, além de Belo Horizonte, em Minas Gerais.

A estratégia é vender produtos físicos em um mercado cada vez mais digital, aproveitando uma estrutura compartilhada para criar clubes destinados a diferentes públicos. Há assinaturas de filosofia, psicologia, direito, negócios, literatura infantil e até correspondências que simulam viagens pelo mundo.

Fioreze resume a ambição com uma comparação pouco convencional. "Nosso propósito é transformar a BARCA em um YouTube físico", afirma.

A ideia é reunir especialistas, intelectuais e criadores de conteúdo capazes de desenvolver produtos culturais recorrentes, enquanto a empresa assume as atividades necessárias para transformar essas ideias em negócios.

Qual é a origem da BARCA

A trajetória de Fioreze no mercado editorial começou em 2021, quando ingressou como estagiário noClube de Literatura Clássica, empresa fundada também no Rio Grande do Sul.

Segundo o empresário, sua ascensão foi rápida. Em menos de um ano, passou por funções de ciência de dados, gestão de projetos, marketing e operações. Posteriormente, tornou-se sócio da companhia, após contrair um empréstimo de R$ 300 mil para adquirir sua participação.

"Sou uma pessoa que toma bastante risco", diz. O Clube de Literatura Clássica surgiu com a proposta de entregar mensalmente edições especiais de obras de autores como Dante Alighieri, Dostoiévski e Cervantes. A empresa faturou R$ 28 milhões em 2025 e projeta alcançar R$ 30 milhões em 2026, com cerca de 28 mil assinantes.

Fioreze permaneceu no negócio até 2025, quando decidiu vender sua participação para se dedicar a um projeto próprio. A ideia que daria origem à BARCA, no entanto, começou a ser testada antes da saída do executivo.

Em 2023, Fioreze e o designer Vicente Pessôa, hoje responsável pela direção criativa do grupo, criaram o Cartas do Mundo. O produto nasceu como um experimento para descobrir se seria possível administrar um clube de assinaturas dedicando pouco tempo à operação.

Mensalmente, o assinante receberia uma carta ilustrada de um viajante fictício, acompanhada de elementos gráficos, selos e informações sobre uma cidade. O clube conquistou cerca de 3 mil assinantes e mostrou aos fundadores que o modelo poderia funcionar em outros segmentos.

Em dezembro de 2024, veio a Logos, editora dedicada à filosofia. Nos primeiros dois meses, o selo faturou R$ 300 mil. A experiência ajudou a consolidar o modelo que seria replicado nos negócios seguintes.

O capital inicial também veio de decisões pessoais. Fioreze destinou R$ 600 mil provenientes da venda de um apartamento da família ao projeto. Com recursos próprios, investidores-anjo e outros sócios, estima que os aportes acumulados tenham chegado a aproximadamente R$ 2 milhões.

A filosofia, segundo ele, continua presente na administração. Admirador de Karl Popper, Fioreze diz aplicar ao negóciouma lógica de experimentação: formular hipóteses, testá-las e abandonar rapidamente o que não funciona.

Como funcionam os clubes de assinatura da BARCA

A BARCA não funciona como uma única editora tradicional. O grupo reúne diferentes marcas, cada uma voltada a um público específico, mas todas apoiadas pela mesma estrutura administrativa, tecnológica e operacional.

O consumidor escolhe um clube de acordo com seus interesses e contrata uma assinatura para receber periodicamente os produtos selecionados ou desenvolvidos pela curadoria.

Na Logos, por exemplo, o foco está em obras filosóficas, com traduções e edições especiais. Um dos projetos é publicar as obras completas de Aristóteles em português, em edições bilíngues.

A ideia tem uma origem pessoal. Durante a graduação, Fioreze comprou uma edição de Ética a Nicômaco e ouviu de um professor que a tradução disponível era ruim. A recomendação foi procurar a obra em inglês.

Anos depois, o empresário transformou aquela frustração em uma oportunidade editorial. A Logos trabalha em um projeto de publicação das obras de Aristóteles, que também prevê a doação de exemplares a bibliotecas.

Outros selos atendem a públicos distintos. O Ciclo Jurídico reúne conteúdos de direito; a Pessoa Editora trabalha com literatura contemporânea nacional; a Biblioteca Pop aposta em edições de bolso; e o Clube Capital é dedicado a livros de negócios.

O grupo também oferece assinaturas de psicologia, literatura infantil e outros temas. No Cartas do Mundo, o produto não é propriamente um livro, mas uma correspondência ilustrada que permite ao assinante conhecer destinos sem sair de casa.

O que une os negócios é a curadoria. Em vez de oferecer um catálogo com milhares de opções, cada clube seleciona o conteúdo que considera relevante para determinado público.

Fioreze associa a estratégia ao chamado paradoxo da escolha, conceito popularizado pelo psicólogo americano Barry Schwartz. "Quanto mais alternativas, maior a dúvida sobre a escolha certa e maior a chance de paralisação do cliente", afirma.

Para o empresário, a seleção editorial permite vender não apenas um produto, mas a conveniência de receber algo escolhido por especialistas.

Cultura em casa: clubes da BARCA oferecem desde obras de filosofia até literatura infantil e cartas ilustradas. (BARCA/Divulgação)

Como a BARCE cresceu tão rápido

A principal diferença entre a BARCA a outros clubes de livros está na maneira como a empresa organiza seus negócios. Cada marca tem identidade e especialistas próprios, mas utiliza uma estrutura comum de tecnologia, marketing, logística e distribuição.

A BARCA desenvolve seus produtos, cuida da edição, prepara os pedidos e administra a operação. A impressão gráfica e a entrega final aos consumidores ficam com fornecedores externos.

Isso permite lançar novos clubes sem precisar construir uma empresa independente para cada um. Segundo o executivo, o compartilhamento das atividades reduz a necessidade de funcionários e melhora a eficiência operacional. A empresa também adota uma política de concentração de esforços nas atividades consideradas mais rentáveis.

O empresário também procura garantir receitas recorrentes por períodos mais longos. A BARCA prioriza assinaturas anuais e de três anos, que ajudam a financiar a aquisição de clientes.

Segundo Fioreze, conquistar um novo assinante custa, em média, R$ 200 em despesas de aquisição. O retorno líquido sobre esse investimento começa a aparecer por volta do quarto ou quinto mês. "É caro adquirir nosso cliente. O CAC (custo de aquisição de clientes) médio gera em torno de R$ 200", afirma.

Outra frente importante é a venda de diferentes produtos para uma mesma pessoa. Um assinante de filosofia, por exemplo, pode receber ofertas de clubes de literatura, psicologia ou negócios.

Esse relacionamento com uma base já formada reduz a dependência de conquistar novos consumidores a cada lançamento.

O modelo também ajuda a explicar o crescimento acelerado da receita. Em setembro, a BARCA alcançou R$ 8 milhões de faturamento mensal, o maior resultado de sua história até então.

Por que a empresa está investindo em revistas

A diversificação chegou também ao mercado de revistas. Em setembro, a BARCA lançou um novo produto editorial com a proposta de reunir diferentes assuntos culturais em uma publicação por assinatura.

A iniciativa é liderada por Martina Schneider, líder de Squad da Revista da BARCA. Segundo ela, o projeto também tem uma função estratégica: tornar a marca BARCA mais conhecida, já que muitos consumidores identificam os clubes individualmente, sem necessariamente conhecer o grupo responsável por eles.

"A revista vem com uma proposta de divulgar a marca Barca também, porque a gente é muito conhecido dentro dos nossos selos individualmente e a gente agora está querendo expandir a marca Barca", afirma Martina.

A publicação aposta em uma curadoria multicultural, com reportagens e entrevistas sobre assuntos pouco explorados por outros veículos. Fioreze cita como exemplo a possibilidade de produzir conteúdos sobre artistas contemporâneos de jazz e movimentos culturais que recebem pouca atenção.

Em menos de uma semana, a publicação conquistou quase 300 assinantes, sem depender inicialmente de campanhas pagas. O produto começou com uma modalidade trimestral, que permite à equipe dedicar mais tempo à produção de cada edição.

O grupo já considera lançar outras revistas, ampliando a presença da BARCA para além dos livros. Como ainteligência artificial entra em um negócio de produtos físicos

Embora a empresa aposte em livros impressos, cartas e revistas, a tecnologia ocupa um papel importante na operação. A BARCA desenvolveu sistemas próprios e utiliza inteligência artificial em atividades como design, revisão editorial e marketing.

Fioreze vê uma oportunidade justamente na combinação entre processos digitais e produtos físicos. "As pessoas investem em estrutura física para usar IA. A gente está usando a IA para criar coisas físicas", afirma.

Segundo ele, a tecnologia permite reduzir tarefas operacionais, mas os materiais continuam passando pela supervisão de profissionais especializados. A aposta no papel também está relacionada à percepção do empresário de que a abundância de conteúdo digital pode aumentar o valor de produtos físicos.

"O cenário do marketing digital está catastrófico para influenciadores. Eles estão com muita dificuldade de vender qualquer produto digital, porque a IA banalizou o digital", afirma.

É uma avaliação do executivo, que enxerga nesse cenário uma oportunidade para artistas, especialistas e criadores de conteúdo comercializarem produtos físicos destinados às próprias comunidades.

A BARCA já trabalha em parcerias com influenciadores interessados em lançar clubes de livros. Também testa o envio de cartas físicas aos seguidores desses criadores.

A hipótese é que uma correspondência entregue em casa possa receber mais atenção do que uma publicação nas redes sociais.

Para onde a BARCA quer crescer

O próximo desafio é ampliar a presença internacional. A operação nos Estados Unidos começou no fim de 2025, com a Logos Publishing, dedicada a publicações filosóficas. Para iniciar o negócio, a BARCA contratou um editor americano com remuneração mensal de aproximadamente R$ 40 mil, enquanto manteve no Brasil boa parte das demais atividades.

O primeiro lançamento conquistou cerca de mil compradores avulsos, parte dos quais posteriormente aderiu às assinaturas.

Em 2026, o grupo lançou também o Timeless Book Club, voltado aos clássicos da literatura em inglês. A estratégia agora é aproveitar a estrutura construída para expandir a operação. Fioreze prevê lançar mais três selos nos Estados Unidos em 2027, além de pelo menos dois projetos em mercados europeus e na Argentina.

A Espanha está entre os países estudados para a próxima etapa. No Brasil, a diversificação deve continuar. A empresa prepara o Brutal Brasil, clube de discos de vinil dedicado ao metal nacional, e uma assinatura de música erudita.

Nos novos produtos musicais, a ideia é combinar a seleção de discos com materiais educativos sobre os artistas, suas influências e a história das obras. Para 2027, estão previstos também clubes de livros de arte, com linhas dedicadas à história da arte e à produção contemporânea.

Outra iniciativa em desenvolvimento é o BARCA Pay, um sistema próprio de pagamentos que poderá atender também a operações internacionais. Fioreze pretende transformar a tecnologia utilizada internamente em uma plataforma para outros empreendedores comercializarem produtos físicos por assinatura.

"A gente quer fazer a Hotmartdos produtos físicos", conclui Fioreza, ao comparar sua empresa com a gigante online de venda de cursos.

AutorGuilherme Gonçalves
FonteExame
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