Ele assumiu a empresa do pai afundada em dívidas. Hoje, fatura R$ 273 milhões e está na bolsa
Após dar a volta por cima e atingir receita recorde, a Quality Digital prepara sua maior virada operacional: usar IA própria para atender mais de 100 clientes

RESUMO +
A empresa de tecnologia Quality Digital registrou receita líquida recorde de R$ 273,3 milhões em 2025, ante R$ 255,6 milhões em 2024. A companhia, que enfrentou uma crise financeira em 2009, hoje reúne mais de 2.000 funcionários, atua em mais de 25 países e tem ações na B3. Em 2026, aposta em inteligência artificial para ampliar a produtividade.
Em 2009, uma das primeiras providências de Julio Britto Junior ao assumir a empresa do pai foi pegar o telefone e ligar para Laércio Cosentino, fundador da Totvs.
O pedido era direto: vender a participação que a família tinha em um projeto de televisão digital e recuperar o dinheiro investido. A empresa estava endividada, havia perdido um de seus maiores clientes e precisava de caixa.
A companhia era a Quality Digital, fundada em 1989 pelo pai e pelo tio de Julio, no Rio de Janeiro. Na época da ligação, o negócio faturava cerca de 7 milhões de reais por ano e enfrentava dificuldades para pagar suas contas.
Hoje, 17 anos depois, a empresa tem mais de 2.000 funcionários, atua em mais de 25 países e está listada na B3, a bolsa brasileira, sob o código QUSW3. No último ano, a companhia registrou receita líquida recorde de 273,3 milhões de reais, acima dos 255,6 milhões de reais do ano anterior.
O resultado marca a trajetória de uma companhia que saiu de uma crise financeira, comprou concorrentes e agora tenta mudar a forma de vender serviços de tecnologia com o avanço da inteligência artificial.
"A minha oportunidade veio de uma situação muito dura de insolvência", diz Britto, em entrevista à EXAME.
O executivo conta que chegou a assumir a dívida da companhia ao comprar a participação do pai e precisou reconstruir as finanças antes de pensar em crescer.
Agora, aos 36 anos de existência, a Quality prepara outra mudança. Neste ano, a empresa trabalha para adotar uma plataforma própria de inteligência artificial na prestação de serviços para mais de 100 clientes. Britto acredita que essa mudança permitirá à empresa ampliar as operações sem precisar aumentar as equipes no mesmo ritmo.
Qual é a história da Quality
A história da Quality começou em 1989, quando o pai e o tio de Julio decidiram abrir uma empresa de tecnologia no Rio de Janeiro. A ideia era desenvolver sistemas para outras companhias.
O problema é que os clientes demoraram a aparecer. Segundo Britto, a empresa passou quatro anos com o CNPJ aberto sem emitir uma única nota fiscal.
O primeiro contrato só chegou em 1993, com o Caesar Park, hotel localizado na orla de Ipanema, no Rio de Janeiro. O trabalho envolvia o desenvolvimento de um sistema de controle de ativos.
A partir dali, os fundadores conseguiram novos contratos, especialmente com empresas ligadas ao grupo Bozano, com o qual mantinham relacionamentos profissionais.
O negócio, porém, continuava pequeno e dependente de poucos clientes.
O primeiro grande susto veio no início dos anos 2000, quando o Banco Bozano foi vendido ao Santander. A mudança afetou a demanda pelos serviços da Quality e obrigou os fundadores a buscar novos contratos. A recuperação começou com clientes como o Rio de Janeiro Country Club e, principalmente, a Siemens, que tinha operações de telefonia celular no Brasil.
A fabricante alemã se tornou uma das principais fontes de receita da Quality. A empresa chegou a abrir uma filial em Manaus para atender à demanda de desenvolvimento de software ligado à produção de celulares.
O faturamento saiu de aproximadamente 1 milhão de reais por ano para 3 milhões de reais e, depois, chegou à casa dos 7 milhões de reais. Mas havia um problema. O crescimento estava concentrado em poucos contratos.
Quando os negócios ligados à Siemens e à televisão digital perderam espaço, em meio à venda de operações e às mudanças no mercado brasileiro, a Quality perdeu cerca de 40% de sua receita.
A queda aconteceu em um momento em que a empresa já tinha pouco dinheiro disponível.
A aposta na televisão digital que agravou a crise
A perda dos contratos foi apenas parte do problema. Naquele período, os fundadores da Quality também decidiram apostar em uma tecnologia que parecia promissora: a televisão digital interativa.
A empresa entrou em uma sociedade com a Totvs para desenvolver softwares ligados à nova tecnologia. A Quality começou com uma participação de 30%, que poderia subir para 45% mediante a entrega de um sistema dentro do prazo combinado.
O projeto exigia aportes financeiros. E a Quality não tinha dinheiro sobrando. A situação se agravou quando o Brasil adotou um padrão de televisão digital diferente daquele em torno do qual a empresa havia desenvolvido parte de sua experiência.
O resultado foi uma combinação de perda de clientes, despesas com a operação em Manaus, investimentos no projeto de televisão digital e endividamento.
Em 2009, Julio, que havia ingressado na empresa em 2003 e trabalhado em diferentes áreas, assumiu o comando do negócio. Ele comprou a participação do pai, enquanto o tio passou a se dedicar ao empreendimento de televisão digital.
A primeira medida foi procurar Laércio Cosentino para negociar a saída da Quality da sociedade. A Totvs aceitou comprar a participação da empresa pelo valor investido, com correção. O dinheiro voltou ao caixa e ajudou a reorganizar as finanças.
Julio também procurou o BNDES, que já mantinha um relacionamento com a Quality por meio de linhas de financiamento. Dessa vez, a proposta era diferente. O banco passaria a ser acionista da empresa.
Britto apresentou um plano de crescimento dividido em etapas: primeiro, aumentar a receita e gerar caixa; depois, criar uma estrutura de governança; por último, começar a comprar outras companhias.
O BNDES investiu na Quality e adquiriu 27% de seu capital, segundo o executivo. A operação ajudou a empresa a atravessar a crise e a financiar sua reorganização.
Como a Quality saiu de 7 milhões para 273 milhões de reais
A recuperação financeira levou alguns anos.
Em 2013, a Quality passou a ser listada na bolsa. No ano seguinte, segundo Britto, a companhia já havia quitado as dívidas remanescentes da crise.
O faturamento também mudou de patamar. A receita, que estava em aproximadamente 7 milhões de reais em 2009, chegou à faixa de 35 milhões a 40 milhões de reais em 2014.
Com as contas reorganizadas, Julio iniciou a etapa seguinte do plano: comprar empresas.
Uma das primeiras aquisições foi a TechSupply, especializada em sistemas para gestão de riscos e conformidade com regras corporativas. O negócio ajudou a Quality a ampliar os serviços oferecidos aos clientes. Em 2015, o faturamento chegou perto de 60 milhões de reais.
Dois anos depois, a compra da Premier IT, empresa de Curitiba especializada em infraestrutura de tecnologia, levou a receita para aproximadamente 90 milhões de reais.
A companhia também incorporou operações como a Latin Tech e, posteriormente, a ACCT, especializada em comércio eletrônico. Esta última foi adquirida em 2022 por 66 milhões de reais.
Mas comprar empresas trouxe dificuldades que Julio ainda não havia enfrentado nessa escala. Era necessário integrar funcionários, contratos, sistemas e modelos de gestão. Em alguns casos, ele chegou a assumir a liderança direta das empresas adquiridas para conduzir essa integração.
"Foi um aprendizado duro. A gente sofreu muito, apanhou muito no início. Foi bem caótico", diz Britto.
As aquisições ampliaram a operação, mas também aumentaram a complexidade do negócio. Em 2021, a receita já se aproximava dos 200 milhões de reais. Em 2022, chegou à casa dos 240 milhões de reais, segundo o executivo.
A empresa continuou comprando operações, incluindo a Driven, para ampliar sua presença em desenvolvimento de produtos digitais e experiência do cliente.
Em 2024, registrou receita de 255,6 milhões de reais e lucro líquido de 25,7 milhões de reais. No ano seguinte, o faturamento avançou para 273,3 milhões de reais.
Qual é o próximo desafio
Durante décadas, a expansão de uma empresa de serviços de tecnologia esteve ligada à capacidade de contratar profissionais.
Quanto mais projetos e clientes, maior a necessidade de desenvolvedores, analistas e equipes de suporte.
Britto acredita que a inteligência artificial pode mudar essa relação. A Quality está desenvolvendo uma plataforma para automatizar partes dos serviços que hoje presta aos clientes, como programação, testes de software, manutenção de sistemas e outras atividades operacionais.
A proposta é utilizar o conhecimento acumulado pela companhia em projetos anteriores para orientar ferramentas de inteligência artificial na execução dessas tarefas. O executivo afirma que os primeiros usos já indicam ganhos de produtividade entre 40% e 50%. Os percentuais são estimativas apresentadas por ele e ainda dependem da evolução da plataforma.
A intenção é levar essa nova forma de trabalho a mais de 100 clientes até o fim deste ano.
A mudança tem riscos. A empresa precisa incorporar as ferramentas sem interromper serviços existentes e manter padrões de segurança, proteção de dados e funcionamento dos sistemas.
A decisão também altera o modelo de crescimento da Quality. Em vez de depender exclusivamente do aumento das equipes, a companhia quer usar software e automação para atender a uma demanda maior.
O histórico da companhia mostra que mudanças de modelo de negócio já fizeram parte de sua trajetória. Ela começou desenvolvendo sistemas para um hotel, passou pela infraestrutura de tecnologia, comprou empresas de comércio eletrônico e entrou em serviços digitais. Em 2025, a unidade digital já representava 53,5% da receita.
