Ele começou carregando malas em hotel. Hoje comanda uma agência de viagens que fatura R$ 1,4 bilhão

Ainda na faculdade, o mineiro Luiz Moura passava os dias na porta de um hotel de luxo em Belo Horizonte. Carregava as malas dos hóspedes, levava cada um até o quarto, explicava onde ficavam os restaurantes. Queria conhecer o mundo e ganhava a vida ajudando os outros a viajar.
Hoje, aos 36, é cofundador da Voll, agência de viagens corporativas que fechou 2025 com receita de 1,4 bilhão de reais. A meta para 2026 é chegar a 2,2 bilhões de reais.
O salto depende de uma aposta concentrada nas grandes corporações, fatia em que a Voll já atende clientes como os bancos Itaú e Nubank, o aplicativo de entregas iFood, a varejista Riachuelo e locadora de veículos Localiza. Na visão de Moura, é um mercado que ainda tem muito espaço para crescer: o Brasil é o décimo maior mercado global de viagens corporativas, com um gasto anual estimado em 30 bilhões de dólares, segundo a associação global do setor.
"Eu ainda tenho muito chão para correr e gerar valor para as grandes empresas", diz Moura.
Para ele, cada contrato fechado com uma companhia desse porte funciona como validação para a próxima. "Uma vez que você faz uma parceria com empresas como Itaú, Riachuelo ou Ambev, isso é uma validação para outras tantas grandes empresas que têm desafios proporcionalmente iguais", afirma.
O plano de crescimento se apoia em um diferencial que a empresa repete como mantra: a ideia de ser uma companhia de inteligência artificial que gerencia viagens, e não uma agência de viagens que usa inteligência artificial.
No ano passado, a Voll colocou no ar três agentes de IA voltados a cortar custos, monitorando preços de voos e hotéis em tempo real para reservar a opção mais barata sem mudar o roteiro de quem viaja a trabalho.
Qual é a história de Luiz e da Voll
Filho de uma professora da rede pública e de um dono de fábrica de carrinhos de mão, Moura cresceu em uma família de classe média de Belo Horizonte vendo os pais trabalharem o tempo todo.
Aos 16 anos, durante um intercâmbio na Califórnia, conheceu uma executiva aposentada da Coca-Cola que tinha rodado o mundo a trabalho. Quando perguntou quantos países ela havia conhecido, ouviu que era mais fácil dizer quais não tinha conhecido. A resposta decidiu o rumo da carreira.
De volta ao Brasil, foi estudar Relações Públicas e pagou a faculdade trabalhando como carregador de malas em um hotel da cidade. Formou-se em 2011 e passou por uma pequena agência de comunicação de quatro pessoas, fundada por uma professora — onde, segundo ele, aprendeu na prática o que é tocar um negócio do zero.
"Ela fazia tudo: atendimento, planejamento, financeiro. Aquilo me mostrou o que significa construir uma empresa", diz.
Em seguida foi para a área de eventos de uma agência de viagens corporativas, onde percebeu o limite do modelo. A operação era local e pouco escalável. Para ele, o futuro do setor passaria por tecnologia.
Em 2017, os sócios da agência o convidaram para um novo projeto: um aplicativo para gerenciar mobilidade corporativa, que conectava serviços como Uber e 99 num período em que o transporte por aplicativo se popularizava no país.
O projeto nasceu dentro da agência, mas cresceu a ponto de não caber mais nela. A Voll se emancipou num spin-off.
Depois disso, levantou três rodadas de investimento. Na primeira, transformou o aplicativo de transporte em uma plataforma completa de viagens, com passagens aéreas e hotéis. Na segunda, comprou a própria agência de onde tinha saído. Hoje são cerca de 700 funcionários, a maior parte em São Paulo, e mais de 850 mil viajantes corporativos usando o aplicativo por mês.
Qual é a aposta da empresa para crescer
O foco em grandes corporações é também a maior barreira que a Voll impõe aos concorrentes. Atender bancos exige certificações voltadas à segurança da informação, cuja obtenção e manutenção custam caro. "Banco é um segmento extremamente regulamentado. Eu não tenho como pisar fora da linha em termos técnicos", diz Moura.
Para a viagem corporativa, ele lembra, é a segunda maior linha de custo da maioria das empresas, atrás apenas da folha de pagamento.
Com o orçamento das companhias pressionado, a promessa de cortar essa conta sem reduzir o número de viagens virou o principal argumento de venda. Segundo Moura, o movimento do mercado é de mão única: empresas que migraram para soluções digitais não voltam às tradicionais.
Tecnologia com gente do outro lado
Apesar do discurso digital, a Voll mantém cerca de 250 agentes de viagens atendendo 24 horas por dia, em 13 idiomas. A combinação, diz Moura, é o que sustenta o negócio quando um voo é cancelado ou um hotel está em overbooking.
Ele cita o caso de uma viajante que precisava dirigir de madrugada de Manaus para o interior do Amazonas e nunca tinha dirigido sozinha. Ela ligou para a central com medo e pediu que o atendente ficasse na linha. Ele ficou uma hora e meia ao telefone até ela chegar ao destino.
"O produto digital ainda não faz o cliente se sentir acompanhado", diz.
