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Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
04/09/2026
7 min

Ele começou com um caminhão e hoje comanda uma das empresas de logística que mais cresce no país

Empresa de Belo Horizonte conecta indústrias, transportadoras e caminhoneiros e avançou de R$ 2,06 milhões para R$ 4,17 milhões em receita operacional líquida

Ele começou com um caminhão e hoje comanda uma das empresas de logística que mais cresce no país

O mineiro Thiago Santos começou a trabalhar aos 14 anos. Antes de chegar à logística, passou por uma loja de sapatos, vendeu móveis e chegou a comercializar planos de telefonia de porta em porta. Foi só depois que encontrou o setor no qual construiria a maior parte da carreira.

Nos últimos 15 anos, passou por diferentes posições na logística. Começou no chão de fábrica, avançou para funções analíticas, chegou à supervisão e depois à gestão. Trabalhou no Grupo Bimbo e, mais tarde, em uma companhia de sucos em São Paulo.

Foi nessa trajetória que começou a enxergar um problema que posteriormente o levaria a empreender. “Eu brinco que logística tem dois tipos de pessoas: quem ama e quem odeia. Eu realmente amei trabalhar com logística”, afirma Santos.

Ao observar os fornecedores que atendiam as empresas onde trabalhava, começou a se incomodar com atrasos, quebras de caminhões e ineficiências do transporte. A resposta inicial foi abrir a própria transportadora.

Vendeu um carro, comprou um único caminhão e começou a rodar. Anos depois, concluiria que o problema era maior do que imaginava.

Em 2025, a empresa que surgiu dessa inquietação, a Fortio Soluções Logísticas, alcançou R$ 4,17 milhões de receita operacional líquida, ante R$ 2,06 milhões em 2024, crescimento de 101,9%. O desempenho colocou a companhia de Belo Horizonte na primeira posição da categoria de empresas entre R$ 2 milhões e R$ 5 milhões do Ranking EXAME Negócios em Expansão 2026.

A estratégia agora é manter o ritmo. Santos afirma que, considerando o faturamento da operação, a expectativa da companhia é chegar a R$ 9 milhões em 2026.

Como Santos começou sua carreira

A primeira experiência de Santos como empresário de logística começou em 2017. A aposta nasceu da percepção de que havia espaço para oferecer um serviço melhor do que aquele que encontrava como contratante. Para começar, vendeu um carro da família e comprou um pequeno caminhão.

Paralelamente, trabalhava com agenciamento de cargas, contratando veículos de terceiros.

O início foi difícil. Santos afirma que não conseguia crédito e que teve até dificuldade para abrir uma conta bancária para a nova empresa.

“Banco nenhum queria abrir conta para a gente. Eu tive que fazer um consórcio, senão eles não abriam conta para mim”, diz.

Apesar das dificuldades, a transportadora cresceu e chegou a operar com cerca de dez veículos próprios. Só que, quanto mais conhecia a operação, mais Santos percebia que havia outro problema.

As margens apertadas pressionavam transportadoras. Empresas do setor precisavam lidar com custos financeiros, tributos, caminhões, motoristas e preços de frete disputados. Para Santos, não bastava simplesmente administrar melhor sua própria frota.

“O problema não era nem da transportadora, nem do embarcador, mas do mercado como um todo”, afirma.

Em vez de aumentar a frota, resolveu mudar de modelo.

A transportadora virou uma empresa de tecnologia

Em 2022, Santos vendeu a transportadora. A ideia era usar aquilo que tinha aprendido durante cinco anos no negócio para criar uma plataforma capaz de conectar diretamente quem possui a carga a quem pode transportá-la.

Durante a operação da transportadora, ele já usava um TMS, sistema para gestão de transportes. Um dos desenvolvedores da ferramenta, Atos, entrou no novo negócioe hoje ocupa a posição de CTO da Fortio.

A primeira versão da empresa funcionava de maneira relativamente simples: um marketplace de fretes.

O embarcador publicava uma carga. Caminhoneiros autônomos podiam visualizá-la e aceitar o serviço. Ao diminuir a quantidade de intermediários, a tese era permitir uma remuneração melhor para quem efetivamente fazia o transporte.

“Se eu cortar a transportadora do meio do caminho, é uma pessoa a menos para faturar. Basicamente, a gente consegue pagar melhor para o autônomo e tentar equalizar um pouquinho essa conta”, diz Santos.

O produto foi ficando mais complexo conforme a empresa conhecia seus clientes. Hoje, a Fortio conecta indústrias, transportadoras e caminhoneiros autônomos. Além do marketplace, ajuda na contratação, emissão de documentos e acompanhamento das cargas em tempo real.

Também entrou em serviços financeiros. A companhia já oferece antecipação de recebíveis para autônomos e transportadoras e quer, no médio e longo prazo, ampliar o portfólio para produtos como cartão de crédito, financiamento e consórcio.

A ambição, portanto, deixou de ser apenas encontrar um caminhão para uma carga. É ocupar cada vez mais etapas da jornada financeira e operacional do transporte.

Como a Fortio dobrou de tamanho

O avanço de 101,9% da receita operacional líquida em um ano não veio de uma única mudança. Santos atribui o crescimento principalmente à evolução do produto, à estruturação da área comercial e à capacidade de manter clientes usando a plataforma.

“Um dos valores da Fortio é usar a tecnologia para que ela realmente gere valor”, diz.

A companhia montou uma estrutura comercial dividida em etapas.

Um time de pré-vendas aborda potenciais embarcadores e gera reuniões para os vendedores. Depois da contratação, uma área de sucesso do cliente assume a implementação e acompanha a companhia ao longo do relacionamento.

A recorrência vem da própria dinâmica do negócio. Uma indústria que depende de fretes continuará movimentando mercadorias no dia seguinte. Para Santos, o desafio passa a ser manter essa empresa dentro da plataforma.

“Ela usou o frete, ela tem frete todos os dias, então não para de usar, a não ser que você não atenda o que a empresa precisa”, afirma.

Foi a combinação entre novos clientes e retenção da base que ajudou a Fortio a sair de R$ 2,06 milhões para R$ 4,17 milhões de receita operacional líquida entre 2024 e 2025.

Na entrevista, Santos também citou números de faturamento ligeiramente diferentes — cerca de R$ 2,4 milhões em 2024 e R$ 4,5 milhões em 2025. Para esta reportagem, os valores do ranking são os de receita operacional líquida, calculados a partir das informações financeiras usadas pelo Negócios em Expansão.

Três bases e uma operação espalhada pelo país

Embora tenha sede em Belo Horizonte, a Fortio distribuiu partes da estrutura por diferentes regiões.

A área administrativa e parte do comercial ficam na capital mineira. A companhia também mantém uma operação comercial em Ipatinga, no Vale do Aço, região onde concentra clientes importantes.

Já a equipe de tecnologia fica em Recife. A distribuição acompanha a própria origem dos profissionais da empresa: Atos, CTO da Fortio, é de Recife e lidera dali a área tecnológica.

É dessa equipe que está saindo uma das próximas apostas da companhia. Santos quer evitar que a tecnologia obrigue o caminhoneiro a mudar seus hábitos.

Hoje, para fazer parte da plataforma, o motorista precisa cadastrar documentos como CNH, registro do veículo, informações da ANTT e dados bancários. A empresa está desenvolvendo um agente de inteligência artificial que pretende transferir parte dessa experiência para o WhatsApp.

O caminhoneiro poderá enviar os documentos na conversa, como faria com um operador logístico. A IA ficará responsável por processar as informações e devolver a aprovação ou eventual pendência do cadastro.

Do lado do embarcador, a lógica é semelhante. Hoje, clientes conseguem acompanhar na plataforma se uma carga está aguardando coleta, em trânsito ou já foi entregue. A Fortio quer permitir que essas consultas também sejam feitas pelo WhatsApp.

“Queremos literalmente estar onde esses caras estão, principalmente o autônomo”, afirma Santos. “Quanto mais próximo dele a gente estiver, melhor.”

A IA já é utilizada internamente em programação e planejamento. O passo seguinte é transformá-la em uma funcionalidade mais visível do produto.

Depois de algumas empresas, a logística

A Fortio não foi a primeira tentativa de Santos no empreendedorismo. Antes dela e da transportadora, o empresário conta ter participado de outros negócios. Teve uma franquia de chocolates, outra ligada à telefonia e experiências que não prosperaram.

“Não foi só alegria”, diz. Foi justamente depois dessas tentativas que decidiu se concentrar no setor onde acumulava mais experiência.

“No meio do caminho, fui me encontrando mais na logística. Não adianta, é o que eu amo e sei fazer bem”, afirma.

Hoje, Santos divide o crescimento da empresa com uma rotina que tenta proteger da mesma intensidade do trabalho.

Ele conta que preserva alguns rituais familiares: toma café da manhã com a mulher e a filha antes de ela ir para a escola e procura jantar com as duas à mesa, sem celulares. Também pratica esportes como vôlei, futevôlei, beach tennis e ciclismo.

Nem sempre funciona perfeitamente. “Às vezes eu me pego trabalhando meia-noite, uma hora da manhã”, afirma.

AutorGuilherme Gonçalves
FonteExame
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