Pular para o conteúdo principal
Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
16/06/2026
5 min

Ele começou como cliente nos anos 1990. Hoje, comanda o negócio de R$ 100 milhões

Ele começou como cliente nos anos 1990. Hoje, comanda o negócio de R$ 100 milhões

Em 1995, Guilherme Carrullo estava do outro lado do balcão. Trabalhava em um escritório de contabilidade no Rio de Janeiro e foi contratado para implantar o ERP de uma empresa chamada MXM. O serviço foi bem feito. Tão bem que o fundador o chamou para trabalhar lá.

Carrullo nunca mais saiu. Trinta anos depois, ele ocupa a cadeira de CEO da MXM Sistemas, empresa brasileira de software de gestão empresarial que projeta faturar R$ 120 milhões em 2026. No caminho, passou por todas as áreas da companhia, liderou a transição após a venda para uma multinacional e herdou a missão de manter o crescimento em um mercado cada vez mais dominado por gigantes globais.

“Eu conheci a empresa como cliente. Depois fui convidado para trabalhar nela e nunca mais saí”, diz o executivo.

Fundada há mais de 35 anos no Rio de Janeiro, a MXM desenvolve sistemas de gestão para médias e grandes empresas e atende mais de 10 mil CNPJs em todo o país. Mesmo após ser adquirida pela Vela Latam, em 2024, a companhia preserva características de sua origem.

“Costumo dizer que hoje somos uma multinacional que mantém o DNA brasileiro”, afirma Carrullo.

Da implantação ao comando

A história da MXM também carrega traços clássicos do empreendedorismo brasileiro.

Segundo Carrullo, o fundador Maurício Felgueiras começou a empresa praticamente sozinho. Ele vendia de manhã, implantava à tarde e programava à noite.

A empresa nasceu a partir da demanda de um cliente específico e cresceu apostando em tecnologia própria e especialização tributária, um diferencial importante em um país conhecido pela complexidade fiscal.

Foi justamente essa especialização que aproximou Carrullo da empresa.

Formado em Administração, ele trabalhava em um grande escritório contábil quando participou da implantação do ERP da MXM.

A experiência chamou a atenção do fundador, que o convidou para integrar a empresa em 1998 como consultor de implantação.

O que seria uma mudança de carreira virou uma jornada de quase três décadas.

Ao longo dos anos, Carrullo passou por praticamente todas as áreas da empresa. Liderou equipes, assumiu posições executivas e, em 2007, tornou-se vice-presidente operacional — função que, segundo ele, já exercia como um presidente de fato.

Em agosto de 2023, assumiu oficialmente a presidência da companhia.

Uma transição rara

Pouco tempo depois, veio um dos momentos mais importantes da história da empresa.

Em junho de 2024, a MXM foi adquirida pela Vela Latam, grupo internacional de software. A assinatura ocorreu em 10 de junho. No dia seguinte, o fundador deixou a operação.

A mudança poderia ter gerado turbulências. Mas, segundo Carrullo, a transição foi rápida e organizada.

“A saída foi abrupta, mas tranquila. A empresa sempre foi muito organizada e eu conhecia profundamente a operação”, afirma.

Para os clientes, diz ele, pouco mudou.

“O produto continuou o mesmo, o atendimento permaneceu igual. As principais mudanças aconteceram da porta para dentro.”

A aquisição trouxe novos controles, maior governança e, principalmente, acesso a uma rede internacional de empresas de software. Nos últimos meses, executivos da companhia participaram de encontros em países como Colômbia, México e Dinamarca para troca de experiências com outras operações do grupo.

De 400 contratos a 10 mil CNPJs

Hoje, a MXM atende cerca de 400 contratos corporativos, que representam mais de 10 mil CNPJs em todo o Brasil.

Seu ERP é voltado para médias e grandes empresas e reúne módulos financeiros, fiscais, contábeis, de suprimentos, contratos e orçamento.

A empresa possui forte presença em segmentos regulados e complexos, especialmente óleo e gás, saúde e BPO — mercado formado por escritórios de contabilidade e prestadores de serviços empresariais.

Entre os clientes estão organizações como Dasa, Serpro, Sesc e Senac.

No caso do Sistema S, a conta é ainda mais complexa. Embora grupos como Sesc e Senac sejam tratados como um único cliente, cada regional opera de forma independente. Em alguns casos, isso significa dezenas de contratos sob a mesma marca.

Essa estratégia setorial ajudou a impulsionar os resultados recentes.

Após um ano de ajustes em 2024, marcado pela aquisição, a empresa voltou a acelerar o crescimento.

O faturamento saiu da casa dos R$ 90 milhões em 2023 para mais de R$ 100 milhões em 2025. Para 2026, a expectativa é alcançar R$ 120 milhões.

Parte desse avanço veio da ampliação da presença em setores estratégicos, especialmente óleo e gás e saúde.

IA com cautela

Se antes o principal desafio era crescer, agora a prioridade é aumentar a eficiência e incorporar inteligência artificial ao ERP, mas Carrullo evita a corrida desenfreada pela tecnologia.

Segundo ele, a empresa trabalha em três frentes: uso interno para ganho operacional; aplicações invisíveis ao cliente, voltadas à otimização do próprio sistema; e ferramentas diretamente acessadas pelos usuários, como assistentes para compras, aprovações e atendimento.

“O desafio não é implementar IA por implementar. É fazer isso de forma responsável e protegendo os dados dos clientes”, afirma.

A preocupação faz sentido. Sistemas de ERP concentram algumas das informações mais sensíveis das empresas, incluindo dados financeiros, fiscais e operacionais.

Ao mesmo tempo, outra transformação mobiliza a companhia: a reforma tributária.

A MXM participa do projeto piloto da Receita Federal voltado à implementação do novo modelo tributário, o que pode reforçar sua vantagem competitiva diante de concorrentes internacionais.

Em um mercado cada vez mais dominado por gigantes globais, a empresa aposta justamente em sua origem brasileira para seguir crescendo.

AutorIsabela Rovaroto
FonteExame
Distribuído por