Ele começou organizando festas na faculdade. Agora fará R$ 23 mi com réveillon privado no Nordeste
Renan Coelho transformou as primeiras chopadas em uma carreira no entretenimento e agora amplia o Mil Sorrisos com bar de praia, creators e wellness

O carioca Renan Coelho ainda estava na faculdade quando descobriu que preferia organizar a diversão dos outros a apenas participar dela. Aluno de Publicidade e Marketing da ESPM, no Rio de Janeiro, entrou para o diretório acadêmico e passou a cuidar de chopadas, palestras, campeonatos esportivos e viagens de fim de semana. Antes disso, já era o responsável pelos churrascos da turma na escola.
Duas décadas depois, o hábito virou negócio. Coelho é fundador e CEO do Grupo Fábrica, empresa por trás de projetos como Tardezinha, Camarote Rio, CarnaRildy e BOMA, além do Réveillon Mil Sorrisos. A próxima edição do festival, entre 27 e 31 de dezembro, em Japaratinga, no litoral de Alagoas, vai movimentar R$ 23 milhões entre as festas e as novas operações criadas para a temporada.
“Eu sempre enxerguei o entretenimento como uma plataforma de marca. A conta de vender ingresso menos o custo pode até fechar, mas, no longo prazo, não é saudável”, afirma Coelho.
O evento chega à 11ª edição — a quinta consecutiva em Japaratinga — com a expectativa de receber 4 mil pessoas. Desde a estreia, ainda na Bahia, já passaram pelo Mil Sorrisos mais de 45 mil participantes. A operação gera mais de 2 mil empregos diretos e indiretos.
Como Renan construiu sua trajetória no entretenimento
A aproximação de Coelho com o mercado profissional começou ainda durante a faculdade. Em 2007, ele entrou na Red Bull na função de "student brand manager", posição em que conectava a marca ao público universitário e ajudava a colocá-la em eventos realizados nas universidades.
Na empresa, participou de projetos de maior porte, como o Red Bull X-Fighters e o Red Bull Air Race. Foi quando percebeu que as festas universitárias poderiam ser o início de uma carreira — e não apenas uma atividade paralela.
“Ali eu me apaixonei de verdade pelo entretenimento”, diz.
No fim de 2009, ainda durante a graduação, abriu sua primeira empresa, a República, uma agência de marketing universitário. O negócio aplicava o aprendizado adquirido na Red Bull para aproximar empresas dos estudantes e chegou a atuar em mais de 20 faculdades cariocas.
Coelho permaneceu três anos e meio na operação. Quando os sócios decidiram direcionar a agência para o mercado publicitário tradicional, ele preferiu seguir outro caminho. Em 2013, criou a Fábrica com a proposta de desenvolver eventos e marcas próprias.
A escolha também refletia uma leitura sobre o setor. Em vez de disputar contas publicitárias, Coelho queria criar produtos que pudessem acumular valor, público e identidade ao longo do tempo.
“Eu nunca quis ir para o lado das agências. O entretenimento vinha se transformando e ficando cada vez mais profissional”.
Quais projetos Renan já tirou do papel
A estratégia deu origem a uma carteira de projetos próprios. Um deles foi a Tardezinha, turnê de pagode comandada por Thiaguinhoque passou por mais de 50 cidades brasileiras e também ganhou edições em locais como Lisboa, Miami, Sydney e Luanda.
O grupo criou ainda o Camarote Rio, realizado na Marquês de Sapucaí durante o Carnaval; o CarnaRildy; e o BOMA, festival de música eletrônica promovido em parceria com o Museu do Amanhã.
Depois da pandemia, a empresa ampliou sua atuação e passou a operar como Grupo Fábrica, reunindo novos braços de negócio. Entre eles está a Genteag, voltada ao marketing de influência, e uma operação ligada à gastronomia e a pontos fixos no Rio de Janeiro.
A trajetória foi construída com eventos que exigem meses de preparação para algumas horas de entrega. Coelho resume os requisitos do setor em duas palavras: paixão e coragem.
“É um mercado em que você coloca o dinheiro na frente, paga para ver, monta o cenário, dá o show e depois desmonta tudo”, diz. “Você também abdica de muitos momentos. Não passo o Natal com a minha família há cerca de dez anos.”
Ele ressalta, porém, que a construção não foi individual. Cita a ex-chefe na Red Bull, Ana Guimarães, o antigo professor e atual sócio Rafael Liporace e o ator e empresário Rafael Zulu entre as pessoas que ajudaram a formar sua trajetória.
“O entretenimento é um conglomerado de fornecedores montando diferentes eventos. É difícil crescer sozinho. Você precisa de boas parcerias e de pessoas que acreditem no negócio quando ainda não há muita coisa para mostrar.”
Festa do Réveillon Mil Sorrisos, em Japaratinga: evento chega à 11ª edição com expectativa de reunir 4 mil pessoas (Grupo Fábrica/Divulgação)
Quais são os números do réveillon
O Mil Sorrisos entrou na história da Fábrica quase por acaso. Entre 2015 e 2016, os empresários foram convidados a participar de um réveillon já existente em Barra Grande, na Península de Maraú, na Bahia.
O grupo conhecia o destino. Coelho e os sócios haviam passado a virada anterior na região e se encantaram com o lugar. Aceitaram o convite com uma condição: o antigo projeto seria encerrado e uma nova marca nasceria em seu lugar.
Naquele momento, em agosto, apenas 43 ingressos estavam vendidos. A primeira edição do Mil Sorrisos recebeu aproximadamente 1.100 pessoas. O público cresceu nos anos seguintes até se aproximar da meta de 4 mil participantes.
“Era um projeto muito perigoso. Não existiam todos esses grandes réveillons que existem hoje. Havia um ou outro”, afirma Coelho.
O evento permaneceu seis edições na Bahia. A mudança veio depois de um período de chuvas intensas que comprometeu a infraestrutura da região e expôs o risco de manter uma operação milionária em um local com dificuldades de acesso e montagem.
“Não dava para alocar R$ 10 milhões ou R$ 15 milhões em uma região e correr o risco de não conseguir fazer o evento se chovesse muito”, diz o empresário.
O grupo recebeu então o convite para levar a festa a Japaratinga, no litoral norte de Alagoas. Coelho enxergava potencial de valorização em um corredor turístico que inclui destinos como São Miguel dos Milagres, Carneiros e Muro Alto.
Cinco anos depois, afirma, tanto a cidade quanto o evento mudaram. O Mil Sorrisos passou a atrair, em média, 4.500 visitantes por edição e a funcionar como um polo de entrada de turistas em Alagoas.
Como funciona a operação do evento
A edição da virada para 2027 será realizada durante cinco noites, com festas 100% open bar e atrações como Luan Santana, Thiaguinho, João Gomes, Menos é Mais, Pedro Sampaio, Nattan, Matheus & Kauan, Felipe Amorim e Léo Foguete.
Por trás do palco, há uma operação iniciada muitos meses antes. As reuniões de produção são semanais desde o começo do ano, enquanto a montagem no destino começa em novembro.
“Você literalmente monta e desmonta uma mini cidade”, diz Coelho.
“É preciso trabalhar com prefeitura, bombeiros, polícia e todos os órgãos, além das áreas de produção, comunicação, marcas, logística, financeiro, jurídico e contabilidade. É uma operação monstruosa da qual o público não tem a menor noção.”
Embora já tenha recebido entre 6 mil e 7 mil pessoas em algumas edições, o grupo decidiu limitar o público a cerca de 4 mil. Segundo Coelho, o número permite preservar a qualidade do serviço e a sensação de exclusividade.
O preço também seleciona a audiência. Os pacotes partem de R$ 2.700 para mulheres e R$ 3.600 para homens, no formato de três noites. O passaporte completo de cinco festas começa em R$ 4.200 para mulheres e R$ 5.700 para homens.
“O ticket é alto, mas estamos falando de uma semana no Nordeste, com sol e praia”, diz. “A ideia é viver durante sete ou dez dias algo que você não vive no restante do ano.”
A principal mudança desta edição é a tentativa de ocupar também as horas em que o público não está nas festas.
O Mil Sorrisos passará a operar três espaços proprietários. Além do palco noturno, terá a Casa Mil Sorrisos, concebida como um hub para criadores de conteúdo, convidados e ativações comerciais. A estrutura será gerenciada pela Genteag, empresa de marketing de influência ligada ao grupo.
A terceira frente será o ALMAR, um bar de praia arrendado pela organização. O espaço terá piscina, gastronomia, espreguiçadeiras, guarda-sóis, esportes na areia e atividades como treinos, yoga e meditação. Durante o festival, o acesso será oferecido aos participantes por um adicional de R$ 500.
A novidade acompanha a disseminação do wellness no turismo e no entretenimento, mas Coelho evita apresentar o empreendimento apenas por essa ótica.
“Todo mundo está querendo fazer wellness. Nossa vontade, há muito tempo, era ter um bar de praia”, afirma. “Ele abre às 8 horas, tem piscina, frente para o mar, comida, bebida e um espaço esportivo. Não é somente o wellness.”
Diferentemente da estrutura temporária das festas, o bar deverá operar durante dezembro, janeiro e fevereiro, meses de alta temporada. O grupo identificou que boa parte dos principais bares de praia da região funcionava dentro de resorts, com acesso limitado a hóspedes.
Ao ocupar essa lacuna, a Fábrica também prolonga a duração do negócio. Os R$ 23 milhões previstos para a temporada incluem tanto o réveillon quanto o funcionamento do bar de praia durante o período em que o grupo estará em Japaratinga.
A operação inclui ainda uma frente dedicada a marcas e criadores. Em edições anteriores, o evento recebeu ativações de empresas como Corona, Pernod Ricard, Red Bull, Chilli Beans e Australian Gold.
O que mais vem aí
Coelho não pretende abandonar o principal produto do Mil Sorrisos: as festas e os grandes artistas. Mas vê espaço para que a presença do grupo em Japaratinga se estenda para além da última semana do ano.
A estratégia pode incluir, no futuro, um restaurante, novos pontos de entretenimento ou até uma pequena vila de serviços. Não há projetos fechados, mas a orientação é buscar negócios que façam sentido para a região e aproveitem o público já atraído pelo festival.
“Quando a gente ancora em uma região, o objetivo é permanecer durante muitos anos”, diz. “Pode ser que no futuro a gente queira trazer um restaurante ou uma vilinha. Como empresários, estamos olhando não somente para o Réveillon Mil Sorrisos, mas para o que podemos levar de entretenimento para a região.”
O raciocínio é semelhante ao que acompanhou Coelho desde as primeiras chopadas da faculdade: uma festa pode começar e terminar na mesma noite, mas o negócio precisa durar mais.
