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Sacre Investimentos
NegóciosMPOL
15/06/2026
7 min

Ele começou trabalhando com ar-condicionado. Agora vai faturar R$ 1 bilhão com data centers

Ele começou trabalhando com ar-condicionado. Agora vai faturar R$ 1 bilhão com data centers

Todo aplicativo de inteligência artificial que responde a um comando precisa, em algum lugar do mundo, de um galpão cheio de computadores ligados dia e noite. É o data center.

Construir um não é simples: alguém precisa trazer a energia até o terreno, erguer a subestação, levantar o prédio, instalar refrigeração, geradores e baterias e, só no fim, ligar os racks — as prateleiras de servidores que de fato processam os dados.

Cada uma dessas etapas costuma ficar com uma empresa diferente. O brasileiro Grupo EBM faz todas.

À frente do grupo está Eduardo Menossi, sócio-fundador que trabalha com data centers há 20 anos.

A companhia nasceu por volta de 2010, focada em automação, e foi incorporando verticais até virar um conglomerado com presença em nove países da América Latina, além de estruturas no Panamá e em Hong Kong. Hoje reúne cinco empresas, que cobrem desde o projeto de engenharia até o fornecimento dos equipamentos e a instalação final.

A corrida da IA fez a demanda por data centers crescer mais rápido do que a capacidade de construí-los. Menossi diz estar envolvido em um projeto de 400 megawatts — cerca de metade da capacidade que o Brasil tem hoje operando para grandes provedores de nuvem, os hyperscalers.

Entregar uma obra dessas no prazo virou o problema central do setor, e é nesse ponto que o grupo aposta seu argumento de venda.

"Nós somos um único pescoço para apertar", diz Menossi. A frase resume o modelo: em vez de coordenar projetistas no exterior, fornecedores de energia e de refrigeração separados — e correr o risco de eles não se conversarem na obra —, o cliente contrata um time só, responsável da energia ao chip.

Para 2026, o grupo projeta faturar mais de um bilhão de reais — cerca de 230 milhões de dólares —, depois de fechar 2025 em torno de 100 milhões de dólares. É mais que o dobro em um ano. Se o plano andar, 2027 deve chegar perto de dois bilhões de reais.

O próximo passo no radar são os Estados Unidos.

Do ar-condicionado ao data center

A carreira de Menossi começou no ar-condicionado.

Há 20 anos, ele trabalhava num fabricante japonês onde se desenvolveu uma solução de refrigeração voltada para data center, e foi quem decidiu trazer aquele produto recém-lançado para o Brasil. Foi ali que passou a estudar o mercado a fundo.

O cenário da época era outro. Quem investia em data center era basicamente o governo e os bancos, com seus próprios dados.

O resto das empresas mantinha uma salinha com um servidor, o velho CPD. A virada veio quando começaram a surgir os primeiros grandes sites privados de hospedagem no país, por volta de 2009. Menossi diz que foi aí que percebeu a oportunidade: o Brasil tinha demanda e poucas empresas boas para atendê-la.

O rascunho da EBM nasceu por volta de 2010.

Menossi se juntou a um amigo de mais de 25 anos, que vinha da área de projetos enquanto ele vinha de produtos e do comercial. A empresa começou focada em automação e cresceu rápido. Logo montou uma estrutura para serviço e operação — passou a manter e a operar os sites que construía. Daí em diante, foi acrescentando uma vertical atrás da outra.

Do grid ao chip

Hoje o grupo tem um slogan que resume a estratégia: "do grid ao chip". A ideia é cobrir toda a cadeia de infraestrutura de um data center, da rede elétrica que entra no terreno até o servidor ligado lá dentro.

São cinco empresas. A EBM Engenharia faz projeto e implantação, o carro-chefe histórico. A IDS fornece os equipamentos — geradores, baterias, ar-condicionado, refrigeração líquida — e nasceu na pandemia, quando os preços dispararam e os prazos de entrega de um gerador passaram de dois anos.

Para contornar o gargalo, o grupo passou a fabricar em white label, marca de terceiros vendida sob outro nome, ou a operar com contratos de exclusividade com fabricantes chineses. Com isso, voltou a entregar data centers em nove meses a um ano. Há ainda a EBM Tech, de automação e controle; a DRS, que cuida de terrenos e energia — analisa terras, entra com pedidos de conexão e estuda a viabilidade de subestações antes mesmo de a obra começar; e a Trusted Data, comprada há cerca de um ano e meio, que faz a etapa final de instalar os racks e ligar tudo.

A compra da Trusted Data, segundo Menossi, antecipou em muito o plano traçado: um business previsto para cinco anos aconteceu em 18 meses.

O grupo comprou 60% da empresa e agora tem um problema que ele classifica como bom — segurar os sócios fundadores, que têm uma saída prevista mas que a EBM prefere manter por perto.

O diferencial, na fala de Menossi, é a integração. Num data center, a entrega passa por uma fase chamada comissionamento: um agente independente simula, ao longo de cerca de um mês, todas as falhas possíveis para testar a resiliência do site, incluindo um teste final de 24 horas com o sistema em operação.

Por ter todas as disciplinas dentro de casa, diz ele, a EBM faz um pré-condicionamento e chega ao comissionamento sem surpresas.

"Normalmente quem nos contrata está contratando junto o histórico", diz Menossi.

Ele compara a escolha à de um advogado para uma causa complexa: o cliente olha menos o preço de cada item e mais o currículo de quem vai entregar — porque as multas por atraso, afirma, são gigantescas.

Os desafios: muitos concorrentes

Atuar em todas as frentes cobra um preço. Como participa de várias verticais, o grupo enfrenta concorrentes em cada uma delas: multinacionais na parte de produtos, empresas focadas só em infraestrutura elétrica, outras só em refrigeração.

Cada uma faz um pedaço, e Menossi diz que, ao entrar em um grande contrato, vira alvo de todas ao mesmo tempo.

Há também a lógica do cliente. Menossi descreve o que chama de "cabeça de construtora": o comprador tende a buscar o produto mais barato em cada categoria — o ar-condicionado mais barato, a parte elétrica mais barata — e montar o data center somando os menores preços. O problema, na visão dele, é que esse cliente não considera o custo de fazer todas essas empresas conversarem durante a obra e entregarem com qualidade. É o que ele chama de "bola dividida".

A própria engenharia, que segue sendo a frente mais estratégica do grupo, esbarra na escassez de projetistas no Brasil.

Menossi diz que muitas vezes é preciso contratar escritórios na Inglaterra, nos Estados Unidos ou na Europa, que têm dificuldade de adaptar a solução à realidade local e nem sempre estão na obra — o que gera atrasos na compatibilização do projeto. Crescer em serviço, afirma, é bem mais difícil do que crescer só em produto, e por isso o grupo estuda fazer um spin-off, a separação da área de produtos em uma empresa independente.

A cautela tem motivo. "Basta um negócio mal feito ou uma entrega com determinado problema para todo o seu histórico ser perdido", diz Menossi.

Onde está o crescimento

O grupo já está em nove países, com concentração na América Latina — México, Colômbia, Peru, Chile, Argentina e Brasil entre os citados —, além das estruturas no Panamá e em Hong Kong, esta última para a conexão com a China.

O próximo passo é os Estados Unidos. Menossi diz que está desenvolvendo um plano para levar o grupo ao mercado americano, onde, segundo ele, há carência de empresas que cuidem de todas as fases de uma obra.

Nas primeiras conversas por lá, afirma, os interlocutores ficam surpresos com uma companhia que faz tudo — um modelo mais comum na Ásia do que no Ocidente.

O ritmo de crescimento, diz Menossi, vem cada vez menos só da engenharia e cada vez mais das outras verticais incorporadas nos últimos quatro a cinco anos, sobretudo a de produtos.

Ele afirma que o grupo prepara lançamentos de novas soluções construtivas para o fim do ano, voltadas justamente a dar conta de projetos de grande porte, como o de 400 megawatts.

O pano de fundo é a aposta de que o Brasil não desperdice o momento. "Tenho um compromisso com um setor que tanto me deu", diz Menossi, que defende um posicionamento mais firme da indústria para evitar, nas palavras dele, que grupos de investimento caiam na mão de oportunistas.

AutorDaniel Giussani
FonteExame
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